Surpresa entre a prosa e a poesia

A Passagem Tensa dos Corpos devolve originalidade à ficção realizada no Brasil

Affonso Romano de Sant?anna, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

Este é o romance mais original e inquietante publicado no Brasil nos últimos anos: A Passagem Tensa dos Corpos, de Carlos de Brito e Mello. Pense em Clarice Lispector. Pois essa obra não tem nada a ver com ela. Pense em Guimarães Rosa. Também, não tem nada a ver. Enfim, pense em Lúcio Cardoso. Nada a ver.

No entanto, é dessa imbricação que surge a ficção desse mineiro Carlos de Brito Mello. Como Rosa e Clarice, ele tem "redação própria", é um criador de linguagem. Inscreve-se entre a prosa e a poesia e faz a utilização semântica do espaço branco da página, sem as pirotecnias dos amadores. Como Lúcio Cardoso, ele vai buscar nos cômodos incômodos do interior o que não é dito. Sua estória pretensamente se passa no interior de Minas, mas poderia ser na Bulgária.

Seu tema é a morte. E tenho vontade de grafar Morte em maiúscula. Trabalha com símbolos. O cadáver de um homem está amarrado à cadeira junto à mesa. A mulher e a filha, no entanto, lhe servem comida normalmente. O morto está ali, mas a filha segue procurando por um noivo enquanto um filho está escondido no quarto. A vida segue vivamente em torno do morto: "Ninguém vive sem um bom morto." E o narrador quer comemorar seu aniversário.

Como na tragicidade patética de um Kafka, o tempo foi sequestrado: "O tempo é mentiroso no interior da casa." A narrativa pode ser chamada de circular, como nos mitos e no fantástico. E a circularidade se espelha no duplo. O morto e o narrador se confundem, se confundem até com o autor, pois o personagem se chama simplesmente C: "C de carbono, C de corpo, C de cadáver."

E há uma espécie de coro grego-mineiro entremeando ironicamente as páginas noticiando, como nos necrológios, as diversas maneiras como nas diversas cidades as pessoas continuamente vão morrendo.

Este livro mereceria longo ensaio. Eu o li primeiro como projeto, num concurso de projetos de livros do governo de Minas. Já me fascinou. Terminado o livro meses depois, conheci o autor e recomendei-o à Companhia das Letras. Deveria ter sido escolhido o melhor livro do ano.

E o autor não é nenhum incauto. Professor e artista, está trabalhando a metáfora da morte desde o livro de contos anterior, O Cadáver Ri dos Seus Despojos. Clarice uma vez advertiu que um de seus livros era para leitores de espírito bem formado. Vale para a obra de Carlos de Brito Mello. Literatura é isso: denso trabalho de linguagem e de símbolos.

AFFONSO ROMANO DE SANT"ANNA, POETA, PROFESSOR E ENSAÍSTA, É AUTOR, ENTRE OUTROS, DE DRUMMOND, UM GAUCHE NO TEMPO (RECORD)

A PASSAGEM TENSA DOS CORPOS

Autor: Carlos de Brito e Mello

Editora: Companhia das Letras

(248 págs., R$ 45)

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