Clayton de Souza/AE
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Supremo Retorno

Após quase 20 anos sem filmar, o cineasta e cronista do Caderno 2 Arnaldo Jabor apresenta A Suprema Felicidade, que abre o próximo Festival do Rio

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

Ele voltou. Como o boêmio da canção famosa de Nelson Gonçalves, Arnaldo Jabor interrompe um longo jejum sem filmar e, de novo embriagado pela cachaça do cinema, vive a euforia de ter feito A Suprema Felicidade. O filme inaugura o Festival do Rio na quinta-feira. Apontado para estrear em 8 de outubro, foi transferido para 29, para não colidir com Tropa de Elite 2, de José Padilha, que estreia naquele dia.

A maneira mais fácil de definir A Suprema Felicidade é dizendo que se trata do Amarcord de Jabor. Federico Fellini é uma referência, mas o filme é muito menos "Eu me Recordo" do que aquilo que o autor gostaria de recordar, ao se voltar para o Rio meio irrealista, meio mítico da sua juventude, nos anos 1950.

Entrevistado pelo repórter do Estado na produtora de Francisco Ramalho Jr., na Vila Mariana, em São Paulo, Jabor não esconde a euforia por ter conseguido. O Brasil real, político, lhe cobra posicionamentos diários - na atividade jornalística. Face à mesmice da politicagem, o cinema lhe oferece a saída felliniana. "A melhor maneira de ser objetivo é pela via da subjetividade." É o que mostra A Suprema Felicidade.

Como é passar quase 20 anos sem filmar e voltar com um filme tão bem-feito e emocionante?

É o tesão. Eu quis fazer este filme, mais do que para os outros, para mim mesmo. Não ganhei dinheiro nem vou ganhar, mas a sensação de estar vivo compensa tudo. Há quase 20 anos, quando parei de filmar, estava numa fossa f... Havia feito filmes de grande sucesso, como Eu Sei Que Vou Te Amar, que ganhou prêmio em Cannes e fez milhões de espectadores, mas estava sem um puto no bolso. O Plano Collor acabou comigo. Cheguei a viver um tempo de um empréstimo que (Hector) Babenco me fez. Um dia, vim a São Paulo para tentar fazer publicidade, porque precisava comer. Encontrei o (Fernando) Gabeira no avião, ele era colunista da Folha e eu lhe falei da merda em que estava. Comecei a fazer jornalismo e não parei mais. Em vez de anos de preparação dos filmes, o jornalismo me trouxe a urgência da realização. A matéria, o texto, a crônica, tudo é feito num dia e impresso em seguida. Fui desistindo do cinema, da arte, embora tenha gente que diga que continuei fazendo filmes com meus textos. Recentemente, com o cinema mundial descrente, espelhando a crise das utopias, me deu essa vontade de voltar. A Suprema Felicidade foi escrito rapidamente, a partir de crônicas que havia publicado nos jornais. Histórias sobre meus pais, meu avô, meus amigos. Tive uma colaboradora no roteiro, mas era o tipo do filme que tinha de escrever sozinho. Filmar não foi difícil, foi mais fácil do que imaginava. Pensava nos grandes autores, Fellini, Alfred Hitchcock, Akira Kurosawa, Stanley Kubrick, que sempre conciliaram expressão pessoal e grande espetáculo. A cópia que você viu hoje (quinta-feira) ainda nem saiu do laboratório. Está feito. O que virá depois, ainda não sei.

Você falou em família. O filme é pessoal ou autobiográfico?

Tem personagens e situações que remetem à minha família, à minha vida. Minha irmã viu o filme comigo e identificou no pai frases inteiras que eram de papai. Eu nem me lembrava. A briga do casal, quando a mãe dança com os colegas aviadores do marido, isso eu vi, me lembro, lá em casa. O avô é o meu, mas ele não era músico. E eu me lembro de ter a angústia do Pedrinho, o protagonista, quando ele chora, dizendo para o amigo que não quer ser como seus pais. Muito jovem, tinha 17 anos, fui ao Mangue, que era um imenso puteiro. Me lembrou um campo de concentração, aquelas milhares de putas que os homens passavam em revista. Mais tarde, descobri o livro de Lasar Segall e seus desenhos que retratavam o Mangue como eu o havia percebido. O episódio da puta virgem, da Marilyn Monroe, não ocorreu comigo, mas com um amigo. Tudo se parece com fatos que vivi, mas se é uma autobiografia, é inconsciente, produto de autoanálise. Como Fellini, tenho a necessidade de mentir para chegar perto da verdade.

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