Suporte foi tecnológico, mas a música foi retrô

Na mesma década em que a tecnologia foi o grande fator revolucionário no campo musical, a música propriamente dita parece ter dado um passo para trás. Os maiores fenômenos culturais do período - Amy Winehouse, Outkast, Gnarls Barkley, Strokes, Libertines, Yeah Yeah Yeahs, White Stripes - são revisitações de períodos áureos da música negra e do rock. Bandas que estouraram, como os Magic Numbers, traziam em seus guarda-roupas o cheiro da velha e boa naftalina: ecos de Simon & Garfunkel, Beach Boys, Mamas & Papas, Lovin" Spoonful. Eficiente estratégia da reciclagem infinita - não que Nirvana e Soundgarden e a era grunge já não sejam dessa linha.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2010 | 00h00

A diferença é que a música da década de 10 tem um escancarado sabor de brechó, se veste com ambição vintage - o coque de Amy, as roupas que os Strokes tomaram "emprestadas" de Patti Smith e Robert Mapplethorpe, o make up de teatro kabuki de Jack White.

Talvez uma exceção seja o Queens of the Stone Age, que lançou em 2004 o estupendo álbum Songs for the Deaf. Josh Homme e seus parceiros criaram uma noção de jam session contínua, uma irmandade musical pesada, que trouxe renovação ao combalido rock do começo do século. Ao vir pela primeira vez ao Brasil, em 2001, para o Rock in Rio, o Queens teve o baixista Nick Olivieri detido pela polícia no palco, por atentado ao pudor (estava vestindo somente o contrabaixo). A banda desafiou clichês do hard rock e injetou inteligência no peso, fundindo as contribuições de Stone Temple Pilots, Alice in Chains ao punk rock.

A saga de Julian Casablancas e seus colegas dos Strokes dá um capítulo à parte. Seu disco Is This It? (2001) foi tão hypado que mereceria uma revisão cuidadosa dos historiadores musicais. Os vocais comprimidos de Casablancas (como se cantasse dentro de uma tubulação de esgoto), a batida seca e sugerindo amplificação defeituosa da bateria de Fabrizio Moretti, as guitarras fabulosamente simples e cruas de Nick Valensi e Albert Hammond Jr. - tudo na saga dos Strokes, que desmilinguiu no final da década, ilustra o apetite vampiro do show biz, com sua sede de novidade e a cruel efemeridade.

A primeira década do século também viu a consagração e o declínio dos festivais de música eletrônica. O som eletrônico de Chemical Brothers, Daft Punk e LCD Soundsystem se tornou mainstream, mas o interesse também se fragmentou e a sedução massiva já não é mais a tônica. Assim, festivais como Skol Beats, Nokia Trends e TIM Festival (que abriu a corrente dos híbridos de música orgânica e eletrônica) foram reduzindo seus espaços ou sumindo. Outros filhotes da época, como o Brasília Music Festival Electronic, caíram no anonimato. O som eletrônico se tornou, cada vez mais, uma plataforma de entretenimento e marketing e um território estranho à ebulição artística. Viveram uma fase de euforia em meados dos anos 1990, mas chegaram a uma fase de saturação e seus astros estão de volta aos clubes.

"Parecem ideias descartadas do primeiro disco do Led Zeppelin", disse o New York Times sobre o grupo Dead Weather, um dos trabalhos paralelos de Jack White, o mentor dos White Stripes. Pode-se acusar Jack de tudo, menos de inércia. Ele já tinha montado antes os Raconteurs, e fez talvez o disco mais relevante da década de 10, White Blood Cells (2001), dos White Stripes. Em 10 anos, White afrontou muitas das certezas do rock com os White Stripes, banda na qual coloca em xeque a estrutura básica do gênero (baixo, guitarra, bateria) e duela apenas com a bateria de Meg White em cena. Como homem-banda, é capaz de, num show, tocar piano, órgão, guitarras, violões, bateria, xilofone e cantar como se fosse estourar as cordas vocais.

Em 2005, Jack White protagonizou talvez o maior momento rock"n"roll da década no Brasil, ao marcar um show no Teatro Amazonas, como um Fitzcarraldo do rock. No santuário erudito no meio da selva, ele montou um cenário inspirado em John Milton. Depois, se ajoelhou perante o público, pulou, atirou microfones ao chão, tropeçou e estatelou-se sobre uma caixa de som.

Após cantar 19 canções, pouco antes da apoteose de seu maior hit, Seven Nation Army, no bis, ele resolveu repentinamente enveredar pelo meio da plateia, saindo do palco só com o violão e indo até a praça na frente do teatro, o Largo de São Sebastião, onde 5 mil sem-ingresso assistiam ao concerto num telão. Não satisfeito, "casou" com a modelo Karen Elson em cima de uma canoa, no encontro das águas dos rios Negro e Solimões, tendo um pajé como ministro.

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