Suplemento Literário: Sinclair Lewis, grande satirista

John Nist

12 de novembro de 2010 | 16h00

Em 1930 um homem alto e desengonçado das planicies setentrionais da America do Norte foi a Stockolmo, Suécia, receber o premio Nobel de Literatura. Ao fazê-lo admitiu ele, com caracteristica integridade de espirito e humildade de coração, que havia outros escritores em seu país natal mais merecedores da honra (afinal, não recusara ele o premio Pulitzer concedido a ARROWSMITH em 1926?). Porém, a despeito de sua modestia, e de sentir-se ele indigno, voga nos Estados Unidos, acharam que essa distinção (que pela primeira vez recaia sobre um autor norte-americano) era um ultraje ao senso comum e ao julgamento estetico. O homem alto e desengonçado, de cabelos ruivos com prenuncios de calvicie, limitara-se a fornecer combustível aos preconceitos europeus contra as maneiras, a moral e o materialismo dos norte-americanos. Seu realismo de uma só dimensão, sua visão fotografica, seu estilo jornalistico (segundo os tais criticos) eram na verdade de segunda mão e decididamente superados. De modo que, para muitos dos seus colegas literatos dos Estados Unidos, a outorga do premio Nobel a Sinclair Lewis (1885-1951) foi um anacronismo horrivel e uma prova cabal de mau gosto.

 

Anacronismo, sim: Sinclair Lewis deveria ter ganho o premio Nobel uns sete ou oito anos antes. Mau gosto, não. Apesar do declinio gradual do seu poder criador depois de 1930, apesar da rapida diminuição da sua fama, Sinclair Lewis merecia muito melhor tratamento dos criticos seus compatriotas. A Academia Sueca agiu com muito mais discernimento em sua escolha do que muitos americanos queriam admitir. O homem alto e desengonçado, que recebeu um convite ao seu proprio linchamento, por ter exposto a hipocrisia de boa parte do clero americano em ELMER GRANTRY (1927); o satirista de cabelos ruivos que retratou a desolada monotonia e a esterilidade sem paixão da classe media do Centro Oeste em MAIN STREET (1920); o caricaturista discipulo de Dickens e Mencken, que destilou a um puro elixir de arte a propria essencia da "booboisie" em BABBITT (1922); o profeta do ridiculo de Sauk Center, Minnesota, que contrastou nitidamente o idealismo pratico da America com o realismo teorico da Europa em DODSWORTH (1929) e depois mandou os fariseus bajuladores da Universidade de Yale para o inferno; esse Sinclair Lewis de sarcasmo candente e espirito burlesco, de coração singelo e cara triste, foi relegado à obscuridade no momento exato do seu apogeu - não porque tivesse malogrado como romancista, mas porque acertara a tal ponto que os que compreenderam a sua mensagem sentiram-se superiores às suas advertencias. Assim, tomaram eles uma condição persistente do "Wasteland" do espirito humano no seculo XX por uma curiosa reliquia da história. Como o caçador apressado a que alude Shakespeare em HENRI V, os detratores de Sinclair Lewis tentaram vender a pele do leão ainda vivo.

 

Infelizmente existe uma terrivel deformação profissional entre os criticos: uma especie de convencimento ou auto-suficiencia que se delicia em julgar talentos muito superiores aos seus. Os antigos gregos tinham um nome especial para esse senso de superioridade, essa autocomplacencia arrogante a cega: HYBRIS. Algo parecido com HYBRIS foi certamente a causa que inspirou a esses criticos os juizos sobre Sinclair Lewis como um realista de uma só dimensão, um fotografo de nimucias, um relator jornalistico. Nenhum redator estenografico poderia sequer chegar aos pés da clareza estrutural e da força textual de Sinclair Lewis. Possuia ele uma imaginação satirica, em seus momentos mais inspirados, em nada inferior à de Aristofanes, Cervantes, Molière, Jonathan Swift foi um mestre do mito: Sinclair Lewis, um mestre da fantasia.

 

Ninguém dotado de suficiente senso de humorismo e, portanto, de proporção, poderia tomar por verdadeiro o insipido corretor de meia-idade de Zenith ("the zippiest berg in the world!")

 

O gorducho confuso George F. Babbitt que, sofrendo de pouco amor e excesso de comida, sonha com a "Fairy Child", o seu fantastico ideal feminino, e tenta reduzir o seu consumo diario de charutos; o George F. Babbitt conformista por medo que, intelectualmente anemico e emocionalmente hipertenso, deseja ser diferente, ousado, unico, é um cordial três vezes refinado de Corretorismo, Republicanismo e Rotarianismo, para ser servido nos frascos de contrabando da era proibicionista aos deuses divertidos. Esse George F. Babbitt é pois um tipo tão puro e universal que atinge a condição de um simbolo. É paradoxalmente maior e menor que a vida. Muito mais desenvolvido que Mr. Micawber de Dickens, muito mais humano e patetico que J. Alfred Prufrock de Eliot, George F. Babbitt é, sob muitos aspectos artisticos, um irmão carnal de Don Quixote. Ambos esses credulos senhores são produtos e vitimas de seus tempos: o mofado cavaleiro que, da garupa de Rocinante, ataca moinhos de vento e mata carneiros, havia torrado os miolos nas grelhas dos romances medievais idealisticos; o heroi "ultimo tipo" da cidade de Zenith encheu a sua cabeça oca com todos os "slogans" baratos e anuncios excitantes do comercialismo moderno. Manejando a sua espada e criando a confusão numa terra que nunca existiu e quase sem contacto com a realidade, tanto o Quixote como Babbitt caem na esparrela da GRANDE MENTIRA. A queda de ambos é de uma graça superfina, mas é também de um patetico doloroso.

 

A obra-prima de Cervantes é um dos livros mais divertidos da literatura universal; é também um dos mais tristes. O mesmo pode-se dizer da obra mais representativa de Sinclair Lewis, se não a melhor, BABBITT. Foi esse aspecto de tristeza, essa capacidade de criar uma vasta corrente subterranea de "pathos", (caracteristico invariavel da grande satira comica, particularmente visivel, por exemplo, no DON JUAN de Byron), em Sinclair Lewis, que os seus detratores tão levianamente puseram de lado. O "pathos" implicito nos romances de Lewis funciona, pois, como uma especie de terceira dimensão à satira e ao espirito da superficie. Na arte literaria atinge-se mais frequentemente a verdadeira eloquencia pelo que não vem explicito do que pelo que vem. Por isso, a profundidade filosofica de BABBITT, oblíqua e não diretamente revelada, é tão penetrante como a de T.S. Eliot em THE HOLLOW MEN, ou a de William Butler Yeats em THE SECOND COMING. O George F. Babbitt que diz: "Praticamente nunca fiz uma unica coisa que desejei em toda a minha vida" é uma especie de prova de laboratorio das seguintes linhas de YEATS:

 

The best lack all conviction, (while the worst

Are full of passionate intensity,

ou dos versos de Eliot:

Shape without form, shade without color,

Paralyzed force, gesture witthout motion;

 

De modo que Sinclair Lewis é uma voz tão interpretativa do seu tempo como Eliot e Yeats. E a nossa objeção visa essa critica preciosa e hiperintelectualizada que concede altas distinções aos poetas e as recusa ao romancista. O homem alto e desengonçado que registrou a volupia da burguesia moderna norte-americana pelo fato de poder mandar passar a ferro as calças num trem noturno, é, do ponto de vista da força criadora, o equivalente do poeta expatriado que cantou o fastio sexual da datilografa em THE WASTE LAND.

 

Leitores de Sinclair Lewis, devemos admiti-lo, procurarão debalde o verdadeiro extase ou a verdadeira paz em suas obras: Lewis não era poeta lirico nem profeta mistico. Certos setores da experiencia humana estavam positivamente além do seu alcance: a probidade intelectual é um substituto inadequado para a perfeição da vontade. Nem mesmo Sinclair Lewis, visto pelo angulo dos ideais heroicos expostos em ARROWSMITH, pode nutrir a fome religiosa deste seculo com um experimento cientifico. Mas não se deve julgar um artista criador pelas suas lacunas, pelas suas fraquezas de temperamento. As conquistas de Sinclair Lewis foram positivas, amplas e duradouras. E é nessas conquistas que os criticos negativos deveriam concentrar a atenção. O satirista ruivo que espremia informação e inspiração dos seres humanos até a ultima gota, e depois deixava-os de lado como esponjas secas, o iconoclasta de cara triste que verificou o erro dos seus casamentos e percorreu a Europa solitario e perdido, para morrer afinal em Roma, quase esquecido, entre bondosas freiras catolicas, assumiu o papel pessoal de um moderno Fausto: esteve sempre em perigo de perder a alma sem sem nunca chegar completamente a esse ponto. No entanto, a partir de sua capacidade heroica de trabalho, seu amor ao pormenor exato, seu demonio dos padrões da fala americana contemporanea, seu dom para a projeção fantastica. Sinclair Lewis evolveu um estilo literario e uma arquitetonica novelistica que ainda tem muito a ensinar a jovens aspirantes-escritores. Nos seus melhores momentos, Lewis transcende as limitações da prosa e torna-se um poeta que transforma em simbolo a disposição do momento, a insipidez universal, a essencia destilada. Sua linguagem nesses momentos chama a atenção para si propria, deixando assim de ser a clara janela que dá para fora e tornando-se o vitral do seu proprio mundo. A descrição do Zenith Atheletie Club, o discurso de Babitt ao conselho administrativo dos Corretores, os sermões do Irmão Gantry - tudo isso e muitos trechos equivalentes, são satira comica da melhor: são poemas de fantasia em prosa e rendem tributo a um genio criador que, dentro de suas limitações reconhecidas, é da mais alta qualidade imaginavel e tão perfeito quanto possivel à natureza humana.

 

Carl van Doren disse certa vez de Sinclair Lewis: "É uma chama alta, inquieta, firme". E assim era Lewis - uma chama que queimou sem fumaça enquanto ele alimentou o fogo com os seus trunfos: fantasia, caricatura e satira. A caricatura sacrifica certas qualidades da arte para conquistar força. Charles Dickens era um mestre da caricatura e legou à literatura inglesa uma coleção maior de tipos do que qualquer outro escritor exceto Shakespeare. Sinclair Lewis também era um mestre da caricatura e deixou à literatura norte-americana alguns dos mais inesqueciveis tipos em sua curta mas ilustre historia: Babbitt, Dodsworth, Gantry Pickerbaugh. Quando Lewis abandonou a caricatura e a satira, tentou escrever contrariando a sua natureza: o resultado foi sentimentalidade no tema e moleza na estrutura. A moral é obvia: siga o seu genio e mande os criticos para o inferno.

 

Sim, o homem alto e desengonçado que foi o primeiro autor norte-americano a receber o premio Nobel, merece melhor tratamento dos criticos seus compatriotas. O "wasteland' do espirito humano do seculo XX, que ele tão incomparavelmente delineou, não é uma reliquia da historia. Boa parte dessa condição ainda prevalece hoje em dia, e os que percebem a mensagem de Sinclair Lewis e desleixam suas advertencias, assumem os riscos de sua propria atitude.

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