Suplemento Literário: Pequenos apocalipses da juventude

'Blow-Up', inspirado em narrativa cortazariana, teve destaque por sua vocação 'terrivelmente moderna'

Antônio Lima,

08 de outubro de 2010 | 15h17

Cannes, 1960: na confusão de um festival que termina, um homem de 48 anos tem uma decepção. Seu filme, A Aventura, perdera a Palma de Ouro, um grande troféu inventado para dizer ao publico que um cineasta é um gênio. Em meio à amargura, uma satisfação: outro italiano, Frederico Fellini, com A Doce Vida, ganhara a cobiçada Palma. Nos planos de Michelangelo Antonioni, o cineasta não premiado, a Palma era apenas uma questão de tempo. Êle estava mais preocupado em continuar sua trilogia sôbre o tédio e a solidão do homem moderno. Além disso, o juri, concedeu-lhe o prêmio especial, criara a imagem sincera sôbre seu filme. A Aventura, concordariam todos os críticos mais tarde, contribuiu para equiparar o cinema à literatura, acabando com uma discussão que já se tornava cansativa.

 

Em abril, 1967, Antonioni tinha um trunfo para conquistar Cannes. Já havia terminado sua trilogia, dera sua contribuição à evolução da linguagem do cinema. Podia, portanto, satisfazer o mundanismo do Festival. Blow-up (Depois daquêle Beijo), saiu de Cannes com a Palma de Ouro, aplausos da crítica e a previsão de uma excelente carreira comercial.

 

Por que os aplausos da crítica? Com a palavra um francês, Michel Delahaye: com Blow-up, Antonioni continua sendo Antonioni.

 

Para fazer Blow-up, Michelangelo Antonioni, italiano nascido em Ferrara, em 1912, um dos maiores cineastas contemporâneos, contou com o apoio de Carlo Ponti, o maior produtor italiano e da Metro, uma das maiores produtoras do mundo. Filmou em Londres, com total independência e os recursos que, como cineasta independente, jamais conseguiu. Tanto assim, que na porta dos escritórios da produção havia um cartaz: um revólver mantém os produtores à distancia.

 

Blow-up é baseado num conto de Julio Cortazar, de 53 anos, um dos mais traduzidos e comentados autores argentinos contemporaneos. O conto Las Babas del Diablo está no livro El perseguidor y outros cuentos. Julio Cortazar usa o elemento fantástico, seu conto está escrito em linguagem coloquial, é deliciosamente irônico. Conta como Michel, franco-chileno, tradutor e fotógrafo amador, sai de seu apartamento, no quinto andar do numero 11 da rua Monsieur-le-Prince, num domingo, 7 de novembro. Dá umas voltas às margens do Sena e chega ao cais, na ilha Saint Louis. É nesse local que tudo acontece. Michel vê um casal abraçado. A mulher, alta, esbelta, dominadora, tenta conquistar um rapaz indefeso, que parece resistir à sedução. Ela nota a presença de Michel que continua fotografando. Solta o rapaz, quando aparece um terceiro personagem: um homem de chapéu cinzento, que Michel não havia notado, desce de um carro e tenta impedir seu trabalho. Há uma discussão, uma tentativa do homem e da mulher em tomar o filme. O rapaz desaparece correndo e Michel, também quase correndo, abandona o homem e a mulher discutindo. De longe ainda pode vê-los: o homem calado e a mulher encostada a um parapeito, passando as mãos pelas pedras, com o clássico gesto do acossado em busca de uma saída.

 

Julio Cortazar não enfatiza as coisas. Deixa à imaginação do leitor descobrir quem são o homem e a mulher. Pela narrativa, pode-se supor que o homem era um gigolô, o rapaz uma vítima que a mulher procurava conquistar. A grande aventura do fotógrafo seria a de ter livrado o rapaz, um adolescente amedrontado, da mulher e de uma aventura perversa.

 

Na adaptação do conto ao cinema, Antonioni contou com a colaboração de Tonino Guerra (co-cenarista de A Aventura, A Noite e O Eclipse), e do dramaturgo inglês Edward Bond, que há dois anos escandalizou Londres com sua peça Saved. Em sua essência, o conto de Cortazar foi respeitado, as modificações não interferiram no valor da obra literária. Antonioni esteve em Londres, quando Monica Vitti filmava Modesty Blaise e explica porque mudou a ambientação: - Na Inglaterra, os jornais de grande tiragem utilizam bastante fotografias idênticas à de Thomas, o fotógrafo de Blow-up. Minha opção foi determinada também pela revolução que atinge a vida, os costumes e a moral dos jovens ingleses, que como os artistas e os publicitários, se inspiram no movimento pop. Percebi que Londres era o ambiente ideal para um filme como Blow-up, mas jamais tive a intenção de fazer um filme sôbre Londres.

 

Exato, Blow-up jamais será um documentário ou uma reportagem sôbre a Londres moderna e sua juventude irrequieta. O filme é a análise de uma época, marcada pela negação de valores, de uma juventude que através do histerismo esconde a angustia e tenta vencer a sensação de vazio.

 

Antonioni mostra isso com sutileza, uma cena exprime o desespero e a depressão dessa juventude, prisioneira de uma série de atos que são cumpridos como ritos de uma nova religião. A situação é colocada através de Patricia (Sarah Miles) e Thomas, dois personagens que julgam ter uma existência totalmente livre. Mas a duvida transparece num dos diálogos da môça: - Tudo seria muito mais simples se a gente soubesse que teria apenas mais cinco anos para viver. Seria possível organizar a existência e consagrá-la só ao que fôsse essencial.

 

Antonioni manteve o que era essencial no conto, mas mudou o espírito da história. O Michel de Cortazar é um personagem consciente, todo o seu trabalho, fotografando o casal no cais, tem por objetivo livrar o rapaz da mulher que o perseguia. Thomas é inconsciente, e as características do tipo de juventude a que êle pertence estão bem definidas no filme. Faz as fotos, nega-se a entregar o filme à mulher apenas por um capricho. A descoberta do assassinato é algo excepcional, acontece num dia que, mesmo sem o crime, continuaria sendo excitante. Aparentemente, Thomas se julga superior aos jovens comuns. É um artista, mata-se de trabalhar, mas Antonioni o iguala aos outros jovens, na sequência final. Thomas tentava descobrir o criminoso, sabia a que grupo social êle pertencia, talvez não o denunciasse à policia: conhecê-lo seria um trunfo para ser usado, que sabe, mais tarde.

 

Em termos de integração do personagem ao ambiente em que vive, o final de Blow-up foi comparado ao de Viridiana, de Buñnel. Viridiana, a verdadeira noviça rebelde, se integra ao mundo do primo, sentando-se à mesa para jogar cartas. Thomas, atirando a imaginária bola de tênis, aceita o jôgo daquela parcela da sociedade, onde existia, devia existir, um criminoso.

 

Blow-up é um filme terrivelmente moderno, destinado a atrair todo o tipo de publico. Além de ser ambientado em Londres filmado nas ruas de Carnabay Street, mostra a revolução da moda feminina e Verushka, a diva máxima da alta costura. Sutilmente, Antonioni faz a crítica à embriaguez do sucesso, fixando-a nas duas jovens que tentam desesperadamente tornar-se modêlos de Thomas e são capazes de tudo para consegui-lo. Também o erotismo está presente, mas se insinuando de modo melífluo, capaz de ser sentido apenas pelo espectador sensivel. Blow-up em instante algum é um filme pornográfico.

 

Na exuberancia de seu colorido, na generosidade de seus planos-sequências. Blow-up é um filme diferente dos anteriores, feitos por Antonioni, apenas em seu aspecto exterior. Aprofundando-se um pouco na sua análise, é facil descobrir como o cineasta, desligando-se dos grandes problemas do homem moderno, consegue identificar os mini-apocalipses da juventude perdida. Certo, êle fêz um filme para ganhar festival e ter sucesso de bilheteria. Ganha a admiração do publico que o repudiava e continua respeitado pelos críticos que sempre o apoiaram.

 

Enfim: eis outro cineasta que rejuvenesce à medida que os anos passam.

 

 

Texto foi publicado no Suplemento Literário de 14.10.1967

 

Quem era Michelangelo Antonioni - O cineasta italiano Michelangelo Antonioni (1912-2007) tornou-se particularmente célebre com os filmes A Aventura (1959), A Morte (1960) e O Eclipse (1961), que formam a "trilogia da incomunicabilidade". Embora dissesse que tudo o que mais queria era se comunicar com o público - e este artigo de Antônio Lima ressalta o seu indiscutível talento para isso -, o diretor especializou-se em levar para a tela a dificuldade do encontro com o outro. Algo que, segundo sua câmera, caracteriza a existência humana.

Tudo o que sabemos sobre:
Suplemento Literário

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.