Suplemento Literário: Memorista noveleiro

 Francamente, não sei onde a explicação do fato: se nas sugestões que sempre exercem, sôbre os escritores, a moda de certos temas, natureza mesma dêsses temas; a verdade é que a mais de um século, desde o teatro de Martins Pena e, pouco depois, das Memórias do Rio do tempo do Rei, escritas por Manuel Antonio de Almeida, a propósito das aventuras de um sargento de milícias, até hoje, o nosso Rio de Janeiro se insinua constantemente na literatura, como inesgotável e sugestivo assunto de memórias e de crônicas, de romances e de teatro de costumes. Que o tema tem tido êxito nos interesses do grande publico, nem é preciso demonstrar; mas êsse êxito, no fim de contas fácil de conquistar, tal a persistente predileção de tal publico, talvez não explique, tantas vêzes, desde o Romantismo, voltem nossos escritores ás pitorescas memórias aos episódios anedóticos, á paisagem urbana, á natureza e aos tipos humanos do Rio de Janeiro. Tudo faz crer, que mais que as sugestões, e compensações, do um gosto do grande publico, sustentam e renovam constantemente o tema, toda a história e toda a “sui generis” realidade dessa cidade, de inicio burgo de colonização, levantada a um canto de estratégica baía, depois porto do escoamento da mineração setecentista, em seguida sede do vice-reinado do Brasil, por fim côrte de um rei e de dois imperadores, e ao cabo Capital Federal. Mais de quatrocentos anos do história, feita de crescente importancia econômica e politica; uma fisionomia urbana excepcionalmente valorizada pela natureza; um aglomerado humano resultante de caldeamento de brasileiros, de portuguêses e de africanos de todos os cantos, com sucessivos enxertos de franceses e inglêses e agora de gente de desvairada origem – tudo isso contribuiu para que o Rio de Janeiro crescesse como cidade rica de crônica, curiosíssima no estilo de vida e nos tipos humanos, e sedutora na sua fisionomia geral.

Antonio Soares Amora,

25 de março de 2011 | 16h56

Personagem, bem poderiamos dizer, e personagem persistente e cheia de interesse, dentro de nossa literatura, desde o século passado, o Rio de Janeiro teve em Joaquim Manuel de Macedo, malogrado médico, mas ficcionista de êxito, um de seus primeiros e mais entusiastas cronistas. Crônicas da vida carioca são todos os romances de Macedo, desde A Moreninha, aparecido em 1844, até A Baronesa de Amor, publicado em 1876: sempre histórias de corações que se amam mas, também, romances de costumes, de tipos psicológicos e de uma sociedade com peculiaríssimo caráter. Crônicas da vida carioca são também, e particularmente, A Carteira de Meu Tio (1855), as Memórias do Sobrinho do Meu Tio (1867-68), Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro (1862-63) e as Memórias da Rua do Ouvidor (1878) – obras que vale a pena reler, não apenas pelo que têm de informações e observações sôbre o Rio antigo, como pelo que podem sugerir de considerações muito importantes para a critica e para a historiografia literária.

Destas quatro obras, as Memórias da Rua do Ouvidor é, possivelmente, a de mais largo interêsse, pela matéria e porque escrita ao fim de longo e fecundo tirocínio literário do escritor, que, se não chegou a ser excelente prosador, foi, contudo, no gênero da prosa ligeira, ao gôsto de uma classe média de leitores, dos melhores que produziu nosso Romantismo. As Memórias da Rua do Ouvidor, publicadas no jornal do Comércio, em quase uma vintena de folhetins semanais, reconstrói a longa, acidentada e curiosa história da “mais passeada e concorrida, e mais leviana, indiscreta, bisbilhoteira, esbanjadora, futil, noveleira, poliglota e enciclopédica de tôdas as ruas da cidade do Rio de Janeiro” – desde o século XVI, quando era apenas o Desvio do Mar, até a altura em que estava para comemorar, em 1880, o centenário de seu ultimo, definitivo e mais nobre nome, que lhe veio, depois de ser Rua de Aleixo Manuel e Rua do Padre Homem da Costa, da privilegiada circunstancia de aí ter residido, em 1780, a potestade do primeiro Ouvidor da comarca do Rio de Janeiro, Dr. Francisco Berquó da Silveira.

As memórias da tafulona rua, hoje confundida com as adjacentes, na teia do velho centro comercial do Rio, resultariam, inevitávelmente, em soporifero relato de minuciosa história local, de cousas pequenas e sem mais interêsse, no gênero dos relatos dos coca-bichinhos, que confundem exumação de nugas sepultadas e bem sepultadas em arquivos, com a História, – não fôsse o Autor um cronista de jornal, com capacidade de dar a temas sem interêsse a nota de interêsse e de atualidade, e não fôsse também o Autor um ficcionista, com possibilidade de fecundar um episódio, e transformá-lo em “conto” cheio de vida, pelo estôfo psicológico das personagens e pelos conflitos de suas vontades. Com razão, e ainda bem, se considerou Macedo, e se chamou a sim, um memorista noveleiro, pois que de memórias recolhidas de vária origem, de documentos, de obras históricas, de tradições populares de recordações pessoais e alheias, compôs seus folhetins e de muitas novelas, concebidas com respeito apenas da verossimilhança, os enxertou; e assim, se as memórias deram ao folhetinista a possibilidade de desafiar uma história, as pequenas novelas, contos ou anedotas, deram-lhe os meios de entreter, divertir e interessar vivamente os leitores.

Passados oitenta anos sôbre a publicação dêsses folhetins, não é natural tenham o mesmo sabor. Obra de circunstancia, perdeu inevitávelmente a atualidade: a Rua do Ouvidor apagou-se na sua vaidosa significação; pessoas, casas e hábitos que lhe deram peculiar carater desapareceram; alusões, insinuações de tôda ordem, condimentadas de humorismo e apimentadas de malicia, perderam o sentido. Mas se assim é, e não poderia ser de outra maneira porque jornalismo é sempre suicidio literario, desde que vive da força sugestiva do atual, fugaz por natureza, console-se na Eternidade o folhetinista Macedo como saber que ainda muito se lhe pode encontrar de interêsse nestas e noutras memórias que escreveu; um muito que nada tem de ver com o tema versado que por ser circunstancial pereceu mas tão-só com o tratamento que lhe deu o Escritor. E a êste propósito, se não é possivel agora discutir tôdas as questões que a arte do memorista ainda suscita, pode-se pelo menos sugeri-las aos críticos e historiadores da literatura brasileira.

Nas memórias de Macedo, especialmente nas Memórias da Rua do Ouvidor, creio merecem consideração de um lado o estilo do Escritor, de outro, a filiação dêsse estilo a uma moda vigente no Romantismo. O estilo do Escritor é fácilmente caracterizável se partimos do principio, que resultou de concessões de tôda ordem á mentalidade, ao nivel intelectual e aos interêsses de um grande publico carioca, de evidente mediania de espírito; daí, da parte do folhetinista, a escolha do tema, mundano e vulgar; seu tratamento, em têrmos noveleiros e humorísticos (um humorismo de trocadilhos fáceis e de cômico grotesco); e sua expressão linguistica, que não passa além da craveira da linguagem coloquial. A filiação de tal estilo (na realidade dominante em tôda a obra de Macedo) é também facil de estabelecer: do mesmo gênero as Memórias de um Sargento de Milícias e as Viagens na Minha Terra, de Garrett, para recordar apenas dois exemplos muito conhecidos.

E creio estejam aqui duas linhas de trabalho crítico a realizar com a releitura do mais fecundo de nossos memoristas no campo da critica comparatista; outra, numa ordem de pesquisas e estudos sôbre que pouco se tem trabalhado, embora muito importante. Refiro-me a pesquisas e estudos dessa terceira fôrça que concorre para a formação do fato literario – o publico, na realidade muito menos passivo do que se supõe, pois em casos como o de Macedo, que em tão larga medida se subordinou aos leitores, dá á obra certa feição, muito á sua semelhança. Estudos comparatistas e de psicologia do publico explicariam, estou convencido, vários aspectos ainda não esclarecidos da nossa literatura, e assim, se o folhetinista Macedo morreu de vez, com os temas e com o publico de suas memórias, pode no entanto ressuscitar par anos conduzir por caminhos de trabalho crítico realmente compensativos.

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