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Suplemento Literário: 'Casimiro de Abreu, romancista'

Incursão do romântico, que morreu há 150 anos, na prosa de ficção foi analisada à luz de suas influências

Antônio Soares Amora, O Estado de S. Paulo

22 de outubro de 2010 | 18h22

É sabido que Casimiro de Abreu tem particular significação, na ordem das exigencias da critica, apenas como poeta, contudo nem por isso se pode deixar de convir em que suas malogradas tentativas de ficcionista, especialmente o pequeno romance Carolina, têm bastante interesse literario.

 

Carolina, romance publicado em 12 e 13 de março de 1856, em dois folhetins do "Progresso", jornal lisboeta, desenvolve a historia de uma desgraçada moça que, tendo despertado para o namoro e para as consequentes solicitações do amor, vê-se inesperadamente abandonada por Augusto, que, apesar de todos os juramentos de paixão e de eterna fidelidade a essa paixão, põe acima de tudo, isto é, de todas as exigencias dos corações de ambos, razões praticas da vida, que o obrigam a longa ausencia no estrangeiro. Aberto o coração de Carolina às aliciantes e perturbantes emoções e sensações passionais, fácil foi entrar, nesse coração pouco depois, um novo amor; mas então, não mais de um namorado, fervoroso, contudo puro amante, e sim de um reles conquistador, Fernando, que desgraça a inexperiente Carolina: sedu-la; fá-la abandonar, tomada de vergonha e medo, a casa paterna; mantém-na como amante, pelo tempo necessario à dissimulação do crime; põe na roda o filho nascido da sedução, e por fim abandona-a, no meretrício de Lisboa. Fiel à palavra dada e a seu amor, passados dois anos regressa Augusto, para cumprir a promessa nupcial. Sabedor da fuga de Carolina com um amante, sofre todas as dores dos sentimentos traidos, e quando um dia é levado por um amigo, por fatalidade o mesmo Fernando, a um prostibulo, para esquecer suas pungentes desilusões, e convencer-se de que o amor tem de ser apenas cinica conquista de uma mulher, a quem se paga um instante de deleites, encontra a desventurada Carolina. O desenlace desse encontro dos três protagonistas, engendrado por diabolico acaso, resulta em consequencias tragicas: Fernando, sob a ameaça da agressão violenta de Augusto, revoltado até quase a insanidade ante tanta baixezaq do torpe sedutor, cai fulminado por uma apoplexia; e Augusto e Carolina desaparecem do cenario de sua tragedia. Poucos dias depois, em Setubal, Carolina, amparada pelo consolo da religião, que lhe ministra compreensivel sacerdote, morre definhada pelo sofrimento: Augusto, que a procurara em vão, para a perdoar e compensá-la pelo amor, de tudo que padecera, tem apenas o consolo de duas cartas da infelicitada amada: uma, em que lhe conta toda sua dolorosa historia e lhe pede o perdão, que só um grande coração poderia dar; outra, escrita nos ultimos momentos de vida, com algumas linhas de derradeiro e sereno adeus.

 

O pequenino romance contém, facilmente perceptiveis, os comuns ingredientes dos romances passionais da epoca, já utilizados por Alexandre Herculano e por Garrett, e a partir de então bastante empregados por Camilo, Alencar, Bernardo Guimarães e Taunay. E ao falar de ingredientes dos romances passionais romanticos, refiro-me, particularmente, às veemencias da paixão, que deram em Carolina passagens como estas:

 

"E Augusto com a voz tremula e os olhos umedecidos, abraçando a virgem, disse-lhe:

 

- Adeus, Carolina!

 

- Adeus, Augusto! Para sempre?!...

 

- Não! Não!...

 

E seus labios se encontram num longo beijo de amor, no meio de lagrimas e soluços".

 

"E Fernando pôs-se de joelhos aos pés de Carolina, cingindo-lhe a cintura flexivel e delicada, com seus braços Lervosos.

 

- E tu, Carolina, também me amas?

 

- Muito, muito, disse ela, e subjugada pelo olhar ardente de Fernando, uniu seus labios corados aos dele, que queimavam..."

 

Ao falar de ingredientes dos romances passionais romanticos refiro-me ainda à situação do amante que regressa para cumprir juramento de amor e é fulminado pelo ultraje de um sedutor (situação sobre a qual construiu Herculano todo o drama de frei Vasco, protagonista d'O Monge de Cister); refiro-me ao tema da "coroa da virgindade" arrancada da fronte de inocente donzela, por cinico d. João, com todas as dolorosas consequencias impostas pela sociedade à desinfeliz; refiro-me ao tema da punição infalivel do algoz, pela mão do amante vilipendiado e pela justiça divina; e me refiro, finalmente, ao tema dos lenitivos da religião, que ensina o caminho do perdão, do esquecimento das lagrimas terrenas, e da esperança de salvação.

 

Destas considerações é natural se conclua que o romance de Casimiro de Abreu oferece aspectos muito sugestivos para um estudo de fontes e de filiações literarias. E estou mesmo convencido de que tal estudo, tipico do ambito da critica comparalista, poderia ser feito sem maiores dificuldades, e conduziria a achados de relativa importancia para a definição das relações de Casimiro de Abreu com a literatura portuguesa, sob cuja influencia começou sua carreira literaria e escreveu a maior parte de sua obra: muito das Primaveras, o drama Camões e o Jau, a narrativa A Virgem Loura, o inacabado romance Camila e este pequenino romance da desditosa Carolina. Mas se assim é, por outro lado também estou convencido de que em Carolina, mais importante que suas relações com a literatura portuguesa, são suas inegaveis qualidades artisticas, as quais é necessário definir e avaliar, para uma compreensão ainda melhor da significação estetica do autor, mais frequentemente avaliado pela popularidade de sua poesia (quem não sabe de cor, pelo menos a primeira quadra de Minha terra, Meu lar, Juriti, Meus oito anos), que pelo valor literario de sua obra.

 

Quando se tem em mente que Casimiro de Abreu foi sobretudo um poeta lirico, e dos melhores em seu genero, e ainda toda a produção romancistica romantica, no Brasil e em Portugal, não se pode ter em excepcional linha de conta o pequenino romance de Carolina. Falta-lhe, para poder impor-se, conveniente envergadura, e assim não logra ser um romance da categoria de tantos outros de sua epoca, como Iracema, Eurico o Presbitero, Inocencia, Os Fidalgos da Casa Mourisca etc. Mas mesmo não sendo um romance com possibilidades de vir para um plano de relevo, não deixa de ser um romance em que, a par de pequenas deficiencias, se podem apontar excelentes qualidades artisticas.

 

Deficiencias encontram-se em duas passagens, pouco verossimeis: a do primeiro capitulo, em que o autor, por concessão a recurso narrativo, no fim de contas dispensavel, se põe e nos põe como "observadores" da cena de amor entre Carolina e Augusto, no fundo de discreta e recolhida alameda da casa de Carolina; e a do quinto capitulo, referente à morte de Fernando, um cinico, um amoral um insensivel que morre fulminado por apoplexia resultante de violento rebate de consciencia. Qualidades, bem mais relevantes do que esses deslizes, compreensiveis num principiante em materia de tecnica romantistica, podem-se apontar, ao cabo do um exame critico, mesmo exigente, na concepção dos caracteres, na construção do drama o na expressão de sua atmosfera. Os caracteres dos protagonistas estão reduzidos ao essencial de sua natureza moral e de seu comportamento passional, e de tal modo o estão que dispensavel se tornou qualquer analise psicologica: o drama também reduzido ao essencial. Impoe-se prontamente com toda sua força: a destruição da beleza de um grande amor, pelo cinismo de um dom João, que morre fulminado pela justiça de Deus, que ao fim não falta às vitimas do drama, com o balsamo da Caridade e da Esperança: a atmosfera de toda a veemente e dolorosa historia dos desgraçados amantes, resultante do perfeito tratamento da força dos caracteres e do drama acaba por se impor ao espirito do leitor nos seus principais tons: a passionalidade dos protagonistas, o pungente de suas dores e o balsamico da fé religiosa.

Escusava concluir que Casimiro de Abreu, aos dezessete anos, era, em potencia, um grande escritor.

 

Artigo foi publicado no 'Suplemento Literário', em 17.9.1960

Quem foi Casimiro José Marques de Abreu?  Escritor nasceu em Barra de São João (RJ), a 4 de janeiro de 1839, e lá morreu, de tuberculose, no dia 18 de outubro de 1860 - quando contava, portanto, apenas 21 anos. Embora tenha trabalhado no escritório do pai, comerciante, muito cedo se decidiu pela literatura. Na época em que vaio a público o breve romance 'Carolina', aqui examinado por Soares Amora - que integrava a equipe de colaboradores do caderno desde o projeto original de Antonio Candido -, ele estava com 17 anos.

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