Suplemento Literário: Bach, um gênio da polifonia

Artigo destaca talento de Johann Sebastian Bach na composição de peças para voz, conjuntos e solistas

Günter Sarfert, O Estado de S. Paulo

10 de setembro de 2010 | 17h46

Bach atua de diversas maneiras sobre nós. A alguns causa apenas tedio, a outros maximo entusiasmo. Estes ultimos ficam às vezes indecisos ante a escolha do que mais lhes agrada na musica do mestre; se sua profundidade, sua perfeição formal, sua clareza, sua logica, sua espontaneidade, sua riqueza sonora etc.

 

O que talvez mais prende a atenção em Bach é a perfeição da sua polifonia. A polifonia de Bach é algo de especial. Sem duvida, existiram ao lado dele muitos outros compositores polifonicos de notaveis recursos tais como Vivaldi, Haendel, Palestrina, os flamengos em geral etc. Mas a sinfonia de Bach é inconfundivel. É excepcionalmente plastica com um grau de modelagem tão caracteristico, que não só acha semelhante na linguagem musical de outro compositor.

 

A simultaneidade das vozes ou melodias que formam a textura sonora é para Bach uma condição quase natural de composição. Não se pode negar que Bach possui também notavel invenção melodica em si, sendo capaz de conceber belissimas melodias, ou formas musicais individuais. Mas, inteiramente à vontade ele só se sente mesmo entrelaçando elementos musicais distintos. O que para outros constitui um empecilho, uma dificuldade quase insuperavel, é para Bach praticamente um "modus vivendi" habitual. A justaposição das frases musicais diferentes é feita com tal segurança e habilidade, que o ouvinte, ante o efeito enxuto e cristalino da forma final superposta, não chega nem a perceber, na maioria das vezes, o grau de requinte e o esmero desse entrosamento sonoros.

 

Um exemplo interessante são as areas das paixões, das missas, das cantatas, do "Magnificat" etc. Exemplo clarissimo de polifonia tipicamente Bachiana. Consistem geralmente de duas melodias, e não uma só. Uma fica a cargo de um instrumento solista, ou grupo de instrumentos; a outra é cantada pela voz humana. A melodia instrumental começa antes; num certo ponto do desenvolvimento musical junta-se-lhe a melodia vocal, para prosseguirem lado a lado seu caminho, enquanto o resto da orquestra, ou o continuo, tem função apenas acompanhante.

 

As duas melodias são diferentes, embora uma tenha estreita relação com a outra. O confronto, a simultaneidade dos dois desenvolvimentos traz situações de extraordinária beleza plastica e grande riqueza sonora.

 

Nesse ponto Bach é diametralmente oposto ao "bel canto" italiano, onde impera a beleza individual da melodia singular, onde se fundem os efeitos da simetria da frase musical com o encanto sensual da voz humana, ficando os instrumentos acompanhantes reduzidos à função de sublinhar a frase molodica, de fornecer o fundo e a atmosfera sonora e ritmica propicia ao desenvolvimento da melodia. Esse é o caminho também trilhado por Haendel, que só em raras ocasiões, como na arca da trombeta do "Mesias", que aproxima do contraponto Bachiano.

 

A verdadeira grandeza desse tipo de polifonia de Bach consiste no zelo do mestre pelos elementos individuais, sem sacrificá-los às conveniencias da simultaneidade. Embora não procurem o brilho sensual e irradiante das formas Haendelianas, as melodias de Bach, tanto as das vozes como as instrumentais, mostram extraordinarios requintes e concepções originalíssimas. A frase instrumental é especialmente bem composta para este fim, não se adequando à interpretação vocal, e vice-versa. A simultaneidade desses dois elementos forma uma nova situação, uma superestrutura musical repleta de lances inesperados e efeitos surpreendentes.

 

O mais monumental que Bach consegue em materia de efeito polifonico, é provavelmente atingido nos coros com acompanhamento instrumental. Para identificar bem o efeito produzido por Bach, é interessante comparar seu estilo com o de Haendel, novamente. Num trecho excepcionalmente grandioso, como no aleluia, ou no "And the glory of the Lord" do Messias, Haendel ora reune as vozes do coro em acordes maciços, ora as desdobra em desenvolvimentos polifonicos de carater esporadico, ou relativamente curto. Os instrumentos formam acordes que acompanham ou iluminam o desenvolvimento do coro, que, por sua vez, permanece o senhor da situação. Os efeitos especiais ou grandiosos são obtidos com meios mais harmonicos que polifonicos, através da alternação dos efeitos de massa sonora, e da intensificação harmonica da atmosfera musical. A orquestra, apesar de todo o brilho, apesar de nitidos lances polifonicos momentaneos, não chega a formar um elemento musical contraposto ao coro.

 

Vejamos agora Bach, no "Fecit potentiam" do Magnificat, ou no "Gratias agimus tibi" da Missa em si menor, por exemplo. A polifonia é absoluta. As vozes entram uma atrás da outra, com o mesmo tema, em tonalidades que se alternam, formando uma cerrada rede contrapontistica. O efeito superposto das entradas sucessivas das vozes promove uma atmosfera de expectativa, de adensamento musical. É a um grupo instrumental, nesse caso os pistões, que Bach reserva o efeito principal da frase, ao passo que o resto da orquestra tem função apenas acompanhante. Quando o desenvolvimento da frase puramente vocal atingiu o auge, não sendo aparentemente possivel nenhuma intensificação, os pistões entram com o mesmo tema, conduzindo-o até a cadencia final. Teoricamente, são nada mais do que uma outra voz, nesse caso instrumental, do conjunto polifonico. Mas o efeito vivo dessa disposição é insuperavel. A entrada triunfal dos pistões, agudissimos, no fim, com a mesma melodia, produz um efeito monumental de coroamento da ideia musical. Como um raio de prata, o som incisivo e brilhante dos pistões contrasta admiravelmente com o oceano ordenadamente convulso das vozes do coro, demonstrando triunfalmente o valor da invenção individual da melodia ao mesmo tempo que leva a textura polifonica à consagração final.

 

Bach é suficientemente rico de imaginação para não se limitar a um esquema só. Inumeras são as suas soluções, conforme o conteudo e o espirito da musica, ao qual faz corresponder, com bom-senso impressionante, o arranjo polifonico mais conveniente. No "Credo", da Missa em si menor, por exemplo, o papel acima descrito reservado aos pistões é desempenhado pelos violinos, devido ao carater menos glorioso e mais introspectivo da peça.

 

Seja qual for a forma musical usada por Bach, nas peças para vozes humanas, conjuntos instrumentais ou solistas, sempre encontramos uma riqueza de imaginação e - uma habilidade polifonica praticamente infinita, seja com relação aos elementos puramente musicais, seja quanto aos arranjos fisicos de combinações de timbres.

 

Artigo publicado em 28/6/1958, no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo

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