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Suplemento Literário: 'A arte de amar em G. B. Shaw'

Correspondência do escritor, inclusive a amorosa, teve destaque como biografia epistolar

Laura Zamarin, O Estado de S. Paulo

29 de outubro de 2010 | 16h14

O volume "Collected Letters" reune 691 cartas de Bernard Shaw, abrangendo um periodo de vinte e poucos anos de sua vida desde a idade de 17, quando se mudou de Dublin para Londres, até os 41 anos, nas vesperas de seu primeiro grande exito com a apresentação de Candida. A este volume seguir-se-ão mais três, todos compilados e anotados pelo professor Dan H. Laurence da Universidade de Nova York.

 

Cada carta do grande dramaturgo vem acompanhada de uma nota, fornecendo de modo exato a informação que o leitor necessita, quer seja identificando pessoas, artigos e peças teatrais, ou qualquer outro acontecimento mencionado, o que demonstra a paciencia infinita e a laboriosa pesquisa do compilador.

 

O livro é um verdadeiro tesouro. Como é sabido Shaw foi um prodigioso correspondente. Calcula o compilador que sua produção epistolar deve andar em cerca de 250.000 entre cartas e cartões. Para qualquer lado que fosse, Shaw levava consigo uma maleta e dentro sua correspondencia por responder e aproveitava todos os momentos disponiveis para rabiscar uma nota, um postal, uma carta.

 

A escolha feita pelo Professor Laurence, entre material tão abundante, o foi de modo minucioso e com excepcional discernimento e penetração. Nenhuma outra fonte de informação sobre o grande dramaturgo patenteia tanto sua personalidade como as cartas aqui apresentadas. Podemos considerar a presente obra como uma biografia epistolar onde nos são reveladas as grandes paixões de Shaw - e foram varias - entre elas a musica, o socialismo, o dinheiro, o teatro, as mulheres e o proprio dramaturgo. As cartas abrangem todas estas facetas.

 

Durante os primeiros anos de sua vida em Londres, Shaw descobriu que indiscutivelmente, sua carreira seria a de dramaturgo e não a de romancista. Dedicou-se então a critica musical e teatral. O interesse de Shaw pelo teatro dominou, porém. O teatro, as mulheres e ele mesmo passam a ser seus interesses favoritos e podem ser apreciados num feixe de cartas endereçadas às suas amigas artistas, sobretudo Ellen Terry e Janet Achurch. São estas as melhores cartas de sua coleção. Nelas discutia, paginas a fio, as peças teatrais e seus enredos, encenação, produção e acima de tudo representação. As artistas com quem se correspondia recebiam instruções detalhadas de como representar seus papéis e se deviam ou não aceitá-los.

 

Em suas cartas Shaw aconselhava, repreendia, informava, insultava, criticava, conservava, cortejava, amava, encorajava ou simplesmente cumprimentava uma quantidade imensa de pessoas.

 

Nas cartas endereçadas a mulheres, além de se falar de amor falava-se muito e frequentemente de Bernard Shaw. Em sua correspondencia amorosa o dramaturgo demonstra ser um mestre personalissimo. Sua tecnica consistia não em declarar às mulheres quanto as amava, mas em dizer-lhes quão felizes elas se deveriam sentir pelo privilegio de amá-lo, indo ao ponto de dizer-lhes simplesmente que se deveriam sentir honradas por amarem um genio. As vezes se caluniava de um modo tão pouco plausivel que elas eram levadas a acreditar exatamente no oposto. De outras vezes se retratava em tons heroicos. A tudo isto acrescentava uma boa dose de lisonja e também muita tolice. Parece que a tecnica usada por Shaw era altamente eficaz, pois a este tipo de carta amorosa, e as taticas nelas usadas, poucas mulheres resistiam. E assim caiu Charlotte Payne-Townshend que, hipnotizada pelas palavras, às vezes causticantes, de Shaw se tornou sua esposa. E aqui termina o primeiro volume.

 

A obra constitui uma leitura altamente fascinante, divertida, instrutiva e vivida. Esperamos ansiosamente pelos outros três volumes que deveriam completar a obra e, em síntese, a vida do genial irlandês.

 

Páginas e Palcos

No projeto original de Antonio Candido para o Suplemento Literário, Teatro integrava a parte fixa do "Setor Artístico" - juntamente com Artes Plásticas, Música e Cinema. Além de livros com textos de dramaturgos - como o aqui examinado por Laura Zamarin, que publicava no caderno artigos a respeito de teatrólogos de língua inglesa -, ou a eles relacionados, a seção também contemplava análises de espetáculos levados ao palco.

 

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