Supla traz de volta sucesso da moda punk

A moda punk ganha força com o sucesso de Supla e suas roupas rasgadas e repletas de alfinetes.Um marchar raivoso de coturnos, um arrepiar de moicanos. É o que o estilista Heitor Werneck provoca nos membros da comunidade punk. Uma visita à Fuck the Faxion, sua recém-inaugurada loja na galeria "Ouro Fino", no centro de São Paulo, mais parece uma incursão ao guarda-roupa de Supla - que, aliás, é cliente da "Escola de Divinos", a grife criada há 10 anos porHeitor. Ambos se vestem inspirados na estética punk. E ambos são rechaçados pelos punks ortodoxos. Heitor, 34 anos, cabelo laranja e preto espetado, visual rasgado já foi oficialmente punk. Saiu de casa aos 13 anos para juntar-se à comunidade de jovens rebelados contra o sistema. Como um Robin Hood trash, chegou a roubar dos ricos para dar aospobres. Mas há oito anos desertou do movimento. "Tinha muita briga de gangue", justifica. "Poucos lutavam de verdade contra o poder. Não via ninguém colocando fogo no Banco Central, mas via muitas brigas entre grupos rivais." Depois de abandonar os colegas de anarquismo, o estilista autodidata - que, como todo punk, (des)costurava para si mesmo - passou a manejar tesoura e agulha com propósitos profissionais.Hoje, recebe uma clientela eclética em visita às araras em queestão expostas suas criações retalhadas e carregadas dealfinetes e tachas: artistas, clubbers, donas de casa (uma delastem mais de 80 anos!), e muitos, muitos office-boys. Ex-radicais do movimento também freqüentam o espaço, como oex-punk e ex-travesti Formiga, 46 anos - que mal se lembra deseu nome de batismo, Elinton. Trajando camiseta e bermuda básicas, bem diferentes dos trajesnavalhados de 10 anos atrás, ele explica: "Hoje trabalho na ruavendendo bijuteria (braceletes e cintos de tacha, bem ao gostopunk). Não vou sair ´toda´ fashion, não quero apanhar de careca(skinheads). Já não sou punk na roupa, mas continuoanarquista." Com o sucesso de Supla no programa Casa dos Artistas, a "Fuckthe Faxion" ganhou novo público: candidatos a punk de butiqueque, ao contrário de Formiga, são mais preocupados com o visualdo que com os preceitos do movimento. "Tem gente que quer se vestir de Supla para ir a festas e passapor aqui", conta a vendedora Rita Ferreira, 21 anos. "Criançasentram para saber se essa é a loja dele e temos recebido pedidosde adolescentes para fazer jaquetas de tacha iguaizinhas à queele usou no programa." Fiel à sua formação punk, que prega a diferenciação, Heitorproduz apenas uma peça de cada modelo. Essa não foi a primeiravez que criações dele apareceram na tevê provocando encomendas.Figurino de novela - Em 1998, o estilista assinou os figurinos de Vilminha (PalomaDuarte), a aloprada personagem da novela Pecado Capital. Foijustamente sua redenção à mídia que provocou o desprezo dospunks. "Aos que me criticam perguntando ´que punk é esse que aparecena Globo?´ eu critico questionando ´que punk é esse que assisteà Globo?´", diverte-se ele. "Me dei conta de que o dinheiro énecessário. Vivo num mundo capitalista! Punk que não ganhadinheiro troca coisas para sobreviver, ou seja, tambémestabelece uma relação mercantilista." Mas Heitor está longe de ser freqüentador de páginas de jornal ecanais de tevê. "Não tenho interesse em me tornar popular",diz. Talvez por isso Cintia, vendedora de sua loja, tenha recebido areportagem da Agência Estado de cara fechada. "O Heitor nãoadmite que se fotografe nada dele", disparou ela, que mesmodepois de ver que o patrão aceitara conversar com a repórter serecusou a dar entrevista e a posar para fotos. "Soucompletamente anti-mídia. Não vejo tevê nem ouço rádio há maisde cinco anos." Os diferentes perfis do público da loja de Heitor Werneck, queconvive harmoniosamente na Galeria Ouro Fino, são prova deque, sim, ele é punk. "O movimento defende a liberdade",lembra o estilista. Como Supla não se cansa de dizer, "nãodepende de onde você vem, o que tem ou o que veste, mas o quevocê é". Bijouterias - Na "Fuck the Faxion", além de roupas da grife de HeitorWerneck, é possível encontrar acessórios de Jaime Gozzolli,ex-DJ da boate "Madame Satã" - reduto dos punks paulistanosnos anos 80. São braceletes, cintos e colares de couroenfeitados com pontas de metal e tachas - e que tem entre seusconsumidores mauricinhos e patricinhas. Desde o verão passado aestética punk vem influenciando o mercado de moda. Na "Galeria Ouro Fino" algumas lojas oferecem criaçõesinspiradas no visual do movimento nascido no fim dos anos 70 - e na moda, impulsionado pela designer inglesa Vivienne Westwood.Lá é possível até ganhar um moicano. Basta visitar o salão"Mundorama", onde Supla, certa vez - o fato é lembrado porvários lojistas -, já cortou os cabelos. A "Fuck the Faxion" é a loja mais fiel ao visual dos primeirospunks. Werneck desenha e produz calças de boca inglesa - justasno tornozelo, de forma a deixar o coturno à vista - cheia dezíperes, confeccionadas com tecido xadrez, bem similares àsusadas nos anos 80. Faz kilts (saia escocesa usada por homens,no caso dos punks por cima das calças) e camisetas com símbolosdo movimento: entre eles o "A" riscado e cercado por umcírculo, indicativo da anarquia. Há também blusas com ícones mais recentes, como o "X". "Eleindica os punks ´straight edge´, contrários às drogas, à bebidae ao sexo sem compromisso", explica o estilista. Ele e asvendedoras da loja podem orientar o iniciante na doutrina punkna identificação dos diferentes símbolos. Na loja vizinha à de Heitor, a Giuliano Sport, encontra-se"moda punk estilizada", como explica o vendedor Paulo Lima, 33anos. "Temos camisetas de bandas punk, kilts e uma calça debrim cheia de zíperes." Tudo bem clean, chique e, no caso das t-shirts, disponível emopções coloridas. Nada que um punk de verdade usaria - até mesmoporque eles nunca vão às compras, por serem "contrários aosistema" e por preferirem confeccionar as próprias roupas eassim garantir a aparência trash e exclusiva. Outra loja da galeria, a US Army, vende coturnos militares, roupas camufladas e acessórios como correntes e colares com placa de metal. É o lugar ideal para finalizar o traje de inspiração punk. Nos últimos meses, a loja tem feito bastante sucesso. "É que a guerra do Afeganistão aumentou em 50% nossas vendas", conta feliz o funcionário Márcio Greice, 26 anos. Depois da aparição de Supla na Casa dos Artistas devem aumentar ainda mais.

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