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Superficialidade elegante de Sofia

'Um Lugar Qualquer' reflete a movimentada infância da diretora como filha do grande Francis Ford Coppola

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 de janeiro de 2011 | 06h00

Quando esteve em São Paulo para lançar Tetro, Francis Ford Coppola revelou-se o maior tiete da filha, Sofia. Disse que a admiração não era somente de pai, mas artística, de um intelectual que reconhece a validade de outro. Um Lugar Qualquer deu à diretora Sofia Coppola o Leão de Ouro em Veneza, no ano passado. A decisão do júri presidido por Quentin Tarantino provocou controvérsia. Muita gente lembrou que Sofia e ele tiveram um affair e isso teria pesado na decisão.

Um Lugar Qualquer tem atrativos e encantos, mas talvez seja o filme mais fraco de Sofia - mais até do que Maria Antonieta, em que ela usou a personagem da rainha cuja cabeça foi decepada na Revolução Francesa para continuar falando de si (e da sua geração). Sofia é uma autora. Escreve seus filmes, dirige. Desde o primeiro longa, As Virgens Suicidas, seus personagens parecem sempre ‘lost in translation’, como o Bill Murray no filme lançado no Brasil como Encontros e Desencontros. Maria Antonieta, a austríaca - como os franceses a chamavam - também era vítima desses encontros e desencontros, mais uma menina lost in translation do que a cínica pintada pela historiografia oficial.

O novo filme tem elementos para ser considerado o mais ‘pessoal’ da autora. Conta a história de um astro pop, Stephen Dorff, que, de repente, se vê às voltas com a filha, uma menina de quem vive afastado. Ela o acompanha em hotéis, compromissos profissionais. A associação é óbvia com a infância da própria Sofia. Como filha do grande Coppola, ela diz que passou boa parte da infância em hotéis de luxo, acompanhando os deslocamentos do pai. Veio daí esse sentimento de se sentir deslocado/a no mundo que caracteriza todos os seus personagens.

Talvez seja interessante traçar uma pequena biografia de Sofia antes de seguir adiante. Ela já vinha aparecendo em filmes do pai. O papel mais importante era o da garota do episódio de Histórias de Nova York, Zoe, e a empresa de Coppola chama-se Zoetrope Studios. Aí, em 1990, houve um episódio decisivo. Às vésperas do início da filmagem de O Poderoso Chefão 3, Winona Ryder desligou-se da produção e ela fazia a decisiva personagem da filha de Michael Corleone (Al Pacino). Coppola, num impulso, colocou a filha no papel. Os críticos caíram matando e tentaram atingir o pai trucidando a filha.

Sofia podia não ser a atriz que o papel pedia. Mas ela foi massacrada não exatamente por não haver correspondido. O problema era outro. Muitos críticos não perceberam que havia algo de essencialmente trágico no fato de o grande diretor destinar a filha ao sacrifício - a personagem morre brutalmente -, o que será motivo de grande sofrimento para o chefão. Imaginemos, por um momento, o que pode ter sido o massacre para a jovem Sofia. ‘Ruim’ foi a etiqueta mais leve que lhe foi colada. Outra garota talvez se desestruturasse, recorresse às drogas, ao suicídio (e é significativo que seu primeiro filme tenha sido As Virgens Suicidas). Ela se armou interiormente, superou o mau tempo. Terminou se impondo.

Numa sociedade da imagem, ela não é só uma autora - é uma ‘celebridade’. Mora em Paris com as filhas, Romy e Cosima, nascidas de sua união com Thomas Mars, da banda Phoenix. Conheceram-se quando ele concedeu uma de suas composições justamente para Maria Antonieta. O culto à diretora fez com que, em 2009, Sufjan Stevens fizesse para ela Sofia’s Song. Um Lugar Qualquer tem esse lado cult, chic.

A relativa decepção que o filme provoca é que Sofia se coloca na pele da filha, construindo Somewhere na perspectiva da menina. Em comparação a outros filmes sobre os bastidores - do cinema, do teatro, do rock -, parece mais superficial. Raso mesmo. Pode-se ver no fato uma crítica da autora, mas aí, quando você analisa o filme no conjunto da obra, percebe que desde As Virgens Suicidas há sempre uma dubiedade. Essa superficialidade acompanha Sofia, é uma das características de Sofia. Nenhum de seus filmes, nem Encontros e Desencontros, com um personagem mais velho, tem a pretensão de ser denso (como os de seu pai). A elegante superficialidade é o estilo, reflexo de um tempo, uma sociedade. Só que Um Lugar Qualquer é mais e, apesar do brilho - naturalmente superficial -, decepciona por isso.

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