Caio Gallucci/Divulgação
Caio Gallucci/Divulgação

Super Dolly

Clássico musical da Broadway chega a São Paulo com Marília Pêra como a casamenteira e Miguel Falabella, o caipira ricaço

Ubiratan Brasil,

11 Fevereiro 2013 | 20h55

RIO - Marília Pêra faz um voto de silêncio. Mas por uma boa causa - ao menos durante 9 horas por dia, a atriz não emite uma palavra, um som qualquer. Tudo para preservar o canto afinado que exibe em Alô, Dolly!, musical que encerra temporada no Rio e que estreia aqui no dia 2 de março, no Teatro Bradesco. No papel-título, Marília está, como de hábito, um arraso, ainda que à custa de um certo sacrifício. "Tenho oito solos durante o espetáculo, praticamente não saio de cena, vocalmente é muito cansativo", comenta. "Mas é por uma boa causa, pois o musical é lindo e romântico."

Inspirado em A Casamenteira, peça que Thornton Wilder lançou em 1955, Alô, Dolly! foi escrito por Michael Stewart, com música e letras de Jerry Herman, e logo se tornou um estrondoso sucesso de público e crítica - levou dez prêmios Tony em sua primeira temporada na Broadway, em 1964. O motivo é sua trama clássica: na Nova York de 1890, Dolly Levi sobrevive como uma casamenteira que, graças à inteligência e à malícia, não só acerta a vida dos outros como também prepara habilmente seu matrimônio com Horácio Vandergelder, um milionário, caipira e viúvo, que está em busca de uma nova mulher.

"O musical trata da sobrevivência", observa Miguel Falabella que, além de viver Horácio, é responsável pela versão brasileira e pela direção-geral do espetáculo. "Dolly é aquela imigrante judia da Europa oriental que aprendeu a se virar - além de promover uniões matrimoniais, é consultora jurídica, dá aula de dança e bandolim. Uma mulher que luta pela vida. Na verdade, o original de Thornton Wilder revela-se uma peça sobre o dólar, sobre o dinheiro. Meu personagem representa os EUA e sua fortuna, enquanto Dolly lembra a Europa e sua alegria de viver."

De fato, é no embate entre muquiranas e perdulários que se equilibra o espetáculo, graças, é claro, ao entrosamento entre Marília e Falabella. "Fazemos uma dobradinha em cena, aprendo muito com a respiração dele, enquanto Miguel tem respeito pelas minhas pausas", comenta a atriz. "O sucesso da comédia reside na respiração. A maneira como é dita uma frase é que provoca a gargalhada do público. E jogar com a Marília é gratificante: a bola vem no pé, só não faz gol quem é vagabundo. É como jogar com o Messi", devolve ele.

Tal harmonia faltou na versão cinematográfica, dirigida pelo grande Gene Kelly em 1969. Uma jovem Barbra Streisand (27 anos) contracenou com um naturalmente rabugento Walter Matthau, mas ambos não podiam nem se ver. Consta que, para a cena do beijo, foi preciso posicionar a câmera de tal forma para ser possível acreditar no toque dos lábios quando, na verdade, Matthau mantinha uma boa distância do proeminente nariz de Barbra. Apesar do luxo, o longa foi um enorme fracasso, torrando US$ 25 milhões e arrecadando apenas US$ 9 milhões.

"Deus me livre entrar em cena com alguém que não fosse com minha cara", desabafa Marília. "Já passei por desentendimentos com colegas em cena. Reagi de forma profissional e também eles foram elegantes. O teatro revela tudo, você conhece o caráter de cada um já no ensaio. E o público, embora desconheça os bastidores, não entra no espetáculo."

Aos 70 anos, Marília Pêra mantém intacto o papel de diva. Profissional, prepara-se com afinco para cada apresentação, exercitando voz e pernas. Durante os ensaios, observou atentamente vídeos com a interpretação de Carol Channing (a primeira a viver Dolly na Broadway) e também de Barbra Streisand. "São tons de voz completamente diferentes - enquanto Carol é muito grave, com a voz quebrada, Barbra é mais clássica, colocada. Acho que o meu tom está entre as duas: um abaixo do da Barbra em algumas canções e dois acima do da Carol."

Apesar do trabalho extenuante, ela ainda pretende fazer mais musicais. "Mas, não pode demorar muito, se não, vou ter de entrar com acompanhante em cena, já pensou?", diverte-se.

Já Falabella esmerou-se no trabalho de tradução para o português. "Como sempre, abrasileirei o espetáculo - nunca tive o menor interesse em copiar a Broadway, pois eles fazem melhor", explica. "Gosto de recriar aquele universo. Mas, no caso de Alô, Dolly!, foi mais difícil, pois a trama se passa na Nova York do final do século passado. Eu me debatia com dúvidas até que um dos atores leu o sobrenome de seu personagem de uma forma muito acaipirada. Na hora me lembrei de Mazzaropi! Então, transformei Horácio e seus amigos em caipiras genéricos, deslumbrados com a cidade grande."

Já montado por Bibi Ferreira em 1966, o musical agora conta com uma orquestra de 16 integrantes (sob a direção do maestro Carlos Bauzys) e um elenco de 29 atores, entre eles, Ricardo Pêra, filho de Marília. "Temos um número juntos e é tocante. Sempre adorei trabalhar em família", encanta-se ela.

Serviço:

ALÔ, DOLLY!

Estreia em 2/3

Teatro Bradesco

Bourbon Shopping. Rua Turiassu, 2.100, 3º piso, Pompeia, telefone (11) 4003-1212. 5ª, 21 h; 6ª, 21h30; sáb., 18 h e 21h30; dom., 18 h. De R$ 20 a R$ 200.

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