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Super 8 se parece com uma súmula do cinemão

Longa de J. J. Abrams concilia terror e paranoia de guerra

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2011 | 00h00

Há um momento de Super 8 em que o protagonista defronta-se com o monstro alienígena. Um simples movimento do ET poderá destruí-lo. A garota amada e o amigo estão ali do lado. Com calma, o menino começa a falar. Diz aquilo que não conseguiu dizer ao próprio pai. E, ao falar com esse outro terrível, é como ele estivesse falando consigo, como se os monstros que precisa dominar fossem os internos. Tudo o que diz sobre solidão, perda, superação, refere-se às próprias dores.

J. J. Abrams conseguiu, mais uma vez. Criador de Lost, produtor de Cloverfield, diretor de Missão Impossível 3 e Star Trek, Jeffrey Jacob associou-se a Steven Spielberg para criar a mais espetacular das aventuras. Terror, disaster movie, paranoia, guerra, Super 8 parece uma súmula do cinemão. Mas o título vai na contracorrente. Refere-se a uma bitola amadora por excelência, com a qual foram produzidos milhões de filmes domésticos, em todo o mundo. O título visa a equilibrar as coisas. Ao receber seu prêmio de melhor ator em Gramado, Caio Blat, de Uma Longa Viagem, disse que se alimentar do pessoal, como forma fortalecer o universal, é um caminho muito rico para a arte (e o cinema). J. J. busca o íntimo no espetacular. E também ele se alimenta do pessoal.

Histórias de pais (Star Trek e Super 8), de relações (Missão Impossível 3 e Super 8), de amizade (sempre). No blog do repórter, Fernando Severo resumiu o filme que estreou na sexta-feira: Os Goonies + Conta Comigo + ET = Super 8. E acrescentou que o produtor Spielberg finalmente encontrou o mais spielbergiano dos realizadores. Não que J. J. seja um clone dele. É mais uma questão de afinidade. Como Spielberg, ele começou as fazer cinema menino, amadoristicamente. Super 8 começa com esses garotos que querem fazer um filme de zumbi - e convidam para estrela a jovem que o protagonista (o maquiador do filme dentro do filme) e o diretor desejam. Eles filmam a cena junto a uma ferrovia e ocorre um acidente espetacular, que foi provocado. A câmera, sem operador, segue rodando. A realidade, sem o olhar do autor, revela-se como é.

Há um monstro à solta, um ET que a gente, a princípio, não vê, mas que deixa um rastro de destruição. No seu encalço, os militares - sempre eles - ocupam a cidadezinha. O monstro é um solitário que só quer voltar ao seu planeta. O protagonista, filho do xerife, acaba de perder a mãe. Não tem diálogo com o pai e, para piorar as coisas, o pior inimigo do pai é o pai de sua amada. Mas eles terminam por se acertar, por amor aos filhos.

O próprio ET ameaçador expõe sua fragilidade, olhando no olho o herói, quando sua carona de mau finalmente ganha a tela. Nicholas Ray: "Cinema é a melodia do olhar". Mas o olho do ET de Super 8 também é o do robô amigo de Transformers (outra produção de Spielberg) e o de King Kong, de Peter Jackson (parceiro de Spielberg em As Aventuras de Tintin). Arte e vida misturam-se em Super 8 (e também, embora de outra forma, em Riscado, de Gustavo Pizzi, outro dos vencedores de Gramado). O filme dentro do filme continua durante os créditos. Talvez, para amar Super 8, o (a) espectador (a) tenha de conservar, dentro de si, a criança que foi um dia. A forma, o conceito, tudo é grande, espetacular. A história é íntima, minimalista. Os monstros ameaçadores somos nós. Para quem entra no clima, Super 8 é maravilhoso.

SUPER 8

Direção: J. J. Abrams. Gênero: Ficção científica (EUA/2011, 112 minutos). Censura: 12 anos.

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