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Sumidouro

A morte de tantas revistas da Abril é especialmente triste para quem as fazia

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2018 | 02h00

Descia eu a rua Sumidouro, em Pinheiros, rumo à Marginal Pinheiros – e, sem que estivesse procurando, vi à esquerda um prédio enorme, dos anos 90, fragmento na minha arqueologia sentimental. Na carreira em que ia o táxi, não estou certo de ter lido bem a inscrição numa portaria, mas quase posso afirmar que lá está escrito “Birmann”. Era assim que o edifício se chamava, 21 anos atrás, quando a Editora Abril, num momento de esplendor (pelo menos assim nos parecia), nele concentrou a maioria de suas revistas. Dos títulos graúdos, só a Veja e a Exame, joias da coroa, encasteladas na Marginal Tietê, tardaram a chegar.

As caixas ainda estavam sendo abertas quando Roberto Civita embirrou com a denominação do Birmann. Nada disso, decretou – e, com voz peculiar, que parecia vir das mais profundas entranhas, renomeou-o: Novo Edifício Abril. Para facilitar, NEA. Foi o que bastou para que nosso colega Eugênio Bucci, não só uma cabeça poderosa como um humorista de primeira, se pusesse a clamar pelos corredores do ex-Birmann, glosando o slogan de um folclórico candidato à Presidência da República: “Meu nome é NEA!”.

Embora muito menos que o Eugênio, o NEA era – assim nos foi comunicado – um “edifício inteligente”. Não o bastante, porém, para que volta e meia não lhe faltasse energia, forçando os galés a um penoso sobe e desce pelas escadas. Em suma, o NEA era inteligente, mas não tinha luz própria, conforme tive a imprudência de declarar numa entrevista ao Marcelo Duarte, o guia dos curiosos, exibida por ocasião de um Prêmio Abril de Jornalismo, com a presença de Roberto Civita.

Dono ainda de bom pique para encarar 15 andares de escadas, não guardo lembrança ruim dos 4 anos que passei no NEA. Bem ao contrário, fui feliz ali, na redação da Playboy, sobretudo quando o chefe e amigo Ricardo Setti me liberou das burocracias do cargo de redator-chefe, permitindo-me voltar àquilo que de melhor tem o jornalismo, a reportagem. Mais exatamente, àquilo que o Ricardo Kotscho, repórter em estado puro, chamou ironicamente de “reportagem externa”, em baixa nestes tempos em que os borderôs minguados mas também a preguiça e a mediocridade transformaram em rotina “coberturas” feitas na internet. Não custa repetir: dia desses, o Prêmio Esso de Reportagem será, por justiça, concedido ao Google...

Minha passagem pelo NEA, agora outra vez birmannizado, incluiu um fecho esplêndido: a participação, como responsável pelo texto, ao lado de Cida Taiar, na edição de um livro tão belo quanto importante, A Revista no Brasil, no qual a Editora Abril investiu tempo, esmero e recursos copiosos, para praticamente engavetá-lo quando ficou pronto, em julho de 2000. Talvez já estivesse em curso um processo cuja culminação, dias atrás, terá sido, agora sem Roberto Civita e em novo endereço, a notícia do fechamento de um punhado de revistas, com centenas de demissões, num squeeze financeiro e editorial indicativo talvez de mudança não só de rumo como de ramo, contundente ao ponto de fazer lembrar, com gênero alterado, o título do filme de Walter Salles, Abril Despedaçado. 

*

À sombra da árvore ultimamente desfolhada, houve para mim três encarnações. Duas temporadas, 5 anos ao todo, na redação da Veja, separadas por breves passagens pelo Jornal da República, criação de Mino Carta que não durou 6 meses, e pela redação da Status, revista que, sob o comando de Gilberto Mansur, foi muito mais do que uma revista de mulher pelada, ainda hoje lembrada por seus concursos de contos, um deles vencido por Rubem Fonseca. 

Depois da segunda passagem pela Veja, bem menos gratificante que a primeira, vivi 9 anos quase sempre esplêndidos em duas redações. Trabalhei na IstoÉ – que foi então, em certo sentido, a revista mais vendida do Brasil, primeiro para a Gazeta Mercantil, depois para a Editora Três. Na sequência, Ricardo Setti me levou para a sucursal paulistana do Jornal do Brasil, de onde parti, em abril de 1992, para minha terceira e última encarnação abriliana, convidado por Laura Greenhalgh para chefiar a redação da Elle.

Foram poucos e gostosos meses na companhia, entre outros, além da Laura, do Fernando Paiva e do Chico César – sim, o próprio, incumbido de passar seu afinado pente gramatical e estilístico em tudo que se escrevia para a revista. Dureza era entender a nebulosa receita da Elle, que não podia ser Claudia nem Nova, e que, na verdade, não sabia bem o que era – e que agora, ufa, já não precisa saber, “descontinuada” que foi pela Editora Abril. O mundo e a humanidade se dividiam em coisas e seres que eram ou não eram “Elle”. Caí do cavalo no dia em que propus um perfil de Nana Caymmi, que chegava aos 50 anos: a voz da Nana, me explicaram, era “Elle”, mas seu físico... 

Era bom trabalhar num prédio sem pedigree que concentrava boa parte das revistas da Abril, na Geraldo Flausino Gomes, travessa da Berrini, área da cidade que, farta ainda em favelas, apenas começava a ser o que hoje é. O olho da rua já piscava quando, no segundo semestre, veio o chamado “Setembro Negro”, com dezenas de demissões. Em meio ao terremoto, Juca Kfouri, diretor da Playboy, me levou para chefiar sua redação. Em seu lugar, em 1994, entraria o Setti, e três anos mais tarde fomos todos juntos para o Birmann-NEA, cuja história já está contada.

Foi esse o filme que a memória pôs para rebobinar quando eu descia a Sumidouro, faz uns dias, e não houve como não pensar na acepção primeira do substantivo que nomeia a rua, com o significado de “orifício, fenda ou similar, por onde algo desaparece”.

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