Sul da Itália inspira obra do Balé da Cidade

Coreografia de Mauro Bigonzetti estreia no dia do aniversário de São Paulo

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

23 de janeiro de 2014 | 22h45

No dia do aniversário de São Paulo, o Balé da Cidade estreia um espetáculo que muito tem a dizer sobre as raízes da metrópole. Assinada pelo coreógrafo italiano Marco Bigonzetti, Cantata é inspirada nas cantigas e danças do Sul da Itália – parte da tradição napolitana trazida pelos imigrantes há mais de um século e que permeia o imaginário dos paulistanos. “O que ele traz para a cena é uma grande festa. E isso tem muito a ver com São Paulo e com esse lugar onde estamos”, diz a diretora Iracity Cardoso, em entrevista concedida no Bexiga, onde fica a sede da companhia.

Há um nítido apelo popular na criação. A iluminação pretende recriar a atmosfera solar do mediterrâneo. A dramaturgia, que costura as proposições coreográficas, traz situações e “personagens” reconhecíveis para o público: O clima de intriga entre as vizinhas, as disputas entre amigos, a religiosidade exacerbada dos italianos.

 

 

Em foco, estão as relações entre os sexos, quase sempre conflituosas e atravessadas por um evidente erotismo. “Chamo essa coreografia de 3 ‘S’: sol, suor e sangue”, comenta o coreógrafo, nascido em Roma, mas hoje residente em Milão. “Todo o trabalho surge da gestualidade da dança popular e da observação do cotidiano das pessoas.” Uma de suas referências foi justamente o estilo do cinema neorrealista de Roberto Rossellini e Victorio De Sica.

Coube ao grupo “folk” Assurd a criação da trilha sonora. A inspiração é a tradição musical de 1700 e 1800: tarantelas, serenatas, canções de ninar e o ritmo que embala a pizzica, uma dança folclórica muito popular nas regiões da Puglia e da Calábria. “Adoro criar a partir da música popular”, observa Bigonzetti. Em 2003, ele criou para o Balé da Cidade a obra Zona Minada, que se valia de uma seleção de canções brasileiras.

A despeito das referências, Cantata lida com um repertório contemporâneo de movimentos. “E esse tipo de mescla, do contemporâneo com o popular, demanda bailarinos acostumados a muitas técnicas”, observa o coreógrafo.

Outro aspecto marcante do título é o protagonismo feminino. As bailarinas surgem em destaque. Suas ações são os motores da obra. “Não poderia ser diferente em uma criação que fala sobre o Sul da Itália. Se o norte é patriarcal, no sul vigora um matriarcado. Suas mulheres são realmente especiais”, pontua o artista italiano.

Cantata foi concebida originalmente para o Balé Gulbenkian, de Portugal, em 2001. À época, a atual diretora do Balé da Cidade conduzia o grupo lusitano.

Em agosto, será a vez de Bigonzetti retornar à cidade para assinar uma coreografia feita sob medida para a companhia paulistana. Mas o resultado deve soar bem diferente da obra que o público verá agora. Diferentemente de Cantata, a próxima criação busca subsídio no legado de um compositor clássico do século 19: Ottorino Respighi (1879-1936). Com uma trajetória bastante peculiar, Respighi criava música sinfônica a partir da sonoridade da música antiga. Fazia, portanto, versões orquestrais de composições que foram originalmente concebidas para as formações de câmara dos séculos 16 a 18.

Ópera e Quebra-Nozes. Nesse primeiro programa do ano, o Balé vai dançar ainda Cantares e Abrupto. A primeira é uma remontagem da coreografia que Oscar Araiz criou em 1982 para o Ballet du Grand Théâtre de Genève – e que a companhia de dança do Municipal de São Paulo já dançou em 1984, 1990 e 2013. Já Abrupto foi concebida para o Balé da Cidade no ano passado por Alex Soares.

Para os meses a seguir, os planos são levar adiante a participação do balé nas óperas e criar uma obra de inspiração clássica para ser dançada com acompanhamento de orquestra. Os bailarinos já estão escalados para integrar o elenco da ópera Fome de Bola – encomendada a Francis Hime e com data de estreia durante a Copa do Mundo.

Uma versão contemporânea do Quebra-Nozes, a ser apresentada no fim do ano, também está marcada. Trata-se de uma criação do coreógrafo espanhol Goyo Monteiro para o Balé de Nuremberg. Recriar clássicos, aliás, é uma especialidade do artista, que já assinou versões de Romeu e Julieta e A Bela Adormecida.

BALÉ DA CIDADE

Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, metrô Anhangabaú, 3397-0327. Sáb. a 4ª, 20 h; dom., 18 h. R$ 20/R$ 60. Até 29/1.

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