SUL-COREANOS INVADEM HOLLYWOOD

Durante quase toda sua existência, o cinema americano contou com diretores estrangeiros para dar à indústria cinematográfica doméstica prestígio e infusões de criatividade. Nos primeiros anos de Hollywood, foram europeus que enriqueceram o lugar, em especial aqueles do centro do continente: Von Stroheim, Lubitsch, Lang, Zinnemann. As ondas mais recentes de talentos vieram da Austrália, de Hong Kong e da América Latina.

MIKE HALE , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

07 de março de 2013 | 02h16

Neste ano, um novo grupo está chegando às telas americanas: os sul-coreanos, representando um cinema nacional festejado que não havia cruzado com Hollywood até agora. Não foi por falta de tentar: os diretores Park Chan-wook, Kim Ji-woon e Bong Joon-ho foram abordados por produtores americanos ao longo dos anos. Mas, pelos caprichos das carreiras e dos cronogramas de produção, a primeira produção em língua inglesa de cada um foi ou está programada para ser lançada neste ano.

"Achei uma grande coincidência", disse Park, diretor de Stoker (Segredos de Sangue), um história sombria de passagem à idade adulta com Mia Wasikowska, Matthew Goode e Nicole Kidman. Segredos de Sangue, em cartaz nos EUA, sai depois de Last Stand (no Brasil, O Último Desafio), com Arnold Schwarzenegger, lançado em janeiro.

Já Snowpiercer, de Bong Joon-ho, está programado para o fim do ano. Trata-se de uma fantasia inspirada em quadrinhos com Chris Evans (o Capitão América de Os Vingadores).

Apesar de a colonização pela Coreia do Sul da cultura popular mundial com a chamada Onda Sul-coreana de novelas, grupos pops e, mais recentemente, o onipresente vídeo musical Gangnam Style estar bem estabelecida, seus filmes continuaram sendo para um gosto mais sofisticado. Bong, Kim e Park, três dos mais festejados diretores do país, são heróis do circuito internacional de festivais e receberam retrospectivas em NY. A mais recente de Park acaba de terminar no Museum of the Moving Images, no Queens. Mas eles também tinham sólidas bases de fãs em Hollywood porque seu estilo e contenção andam de mãos dadas com um gosto por histórias viscerais, em categorias populares como horror e crime.

Questionado sobre o que os produtores americanos poderiam querer dos diretores sul-coreanos, Park, por meio de um tradutor, respondeu com cautela. "Se Kim é um cineasta que aspira a captar a mais pura excitação de um gênero, enquanto Bong e eu tentamos misturar as convenções do gênero e subvertê-lo, a associação poderia ser na ousadia de temas. Somos mais clássicos. Não seguimos tendências."

Segredos de Sangue, escrito pelo ator americano Wentworth Miller (da série de TV Prison Break), parte da premissa do grande thriller de Alfred Hitchcock, A Sombra de Uma Dúvida. Um parente carismático, chamado Tio Charlie em ambos os filmes, faz uma visita e seduz sua sobrinha jovem e entediada. Ele não é tão bom quanto parece, mas as peculiaridades da sobrinha podem ser tão acentuadas quanto as do tio No passado, Park citou Hitchcock, Brian de Palma e David Cronenberg como principais inspirações de uma obra que o tornou o mais célebre diretor da Coreia do Sul, iluminada pela "trilogia da vingança" (Sr. Vingança, Oldboy e Lady Vingança).

"Tentei não me informar de quanta influência havia de Hitchcock." O elenco e a equipe de produção notaram, contudo, como seus métodos de trabalho se pareciam com os de Alfred Hitchcock (outro mestre estrangeiro que trabalhou nos EUA): atenção meticulosa aos detalhes de design e cor, e um nível bem pouco americano de preparação que incluía ter o filme inteiro em esboço sequencial antes de começar as filmagens, uma prática que Park seguiu desde seu primeiro sucesso, Zona de Risco, de 2000. "Ele já tem o filme na sua cabeça", disse Matthew Goode, o ator britânico que faz Charlie.

Park descartou quaisquer distinções entre trabalhar em casa e nos Estados Unidos. "Fiz Segredos de Sangue da mesma maneira que os meus filmes na Coreia do Sul", afirmou ele. "Há diferenças óbvias, como a língua, um elenco não coreano, um história ambientada no mundo ocidental. Mas eu diria que não há tanta diferença assim, e que esta foi a reação das pessoas envolvidas no filme e das pessoas que o assistiram. Quer tenham gostado ou não, elas concordam que se parece muito com um filme de Park Chan-wook." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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