Suflê de queijo

Ele a recebeu na porta do apartamento. Ela tirou o casaco. Ele ficou segurando o casaco dela, esperando. Ela disse:

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

- Não vou tirar mais nada.

Mas acrescentou:

- Por enquanto...

Os dois sorriram. Perfeito, pensou ele. Se alguém tivesse escrito aquele começo, não poderia ser melhor. Restava saber como seria o resto do script.

ELE - Vá entrando, vá entrando.

ELA - Que apartamento lindo!

ELE - Modestamente...

ELA - Você mesmo decorou?

ELE - Foi.

ELA - Lindo.

ELE - Agora ficou.

ELA - Como assim?.

ELE - Eu sabia que estava faltando alguma coisa na decoração. Era você.

Ela não sorriu. Meu Deus, pensou ele: ela não entendeu. Tentou de novo.

- Estava faltando a sua beleza para completar a decoração.

- Ah. Isso quer dizer que você quer que eu fique para sempre?

- Para sempre... e mais um pouco.

Boa, boa, pensou ele. Ela está sorrindo. Ela está gostando. Ela está no papo.

***

- Quer dizer que eu vou conhecer o seu famoso suflê de queijo?

- Espero que ele não decepcione. Sabe como é suflê.

- Me disseram que o seu nunca falha.

- Bom, até hoje ninguém se queixou...

Duplo sentido, mas com classe. O script continuava funcionando.

- Posso lhe oferecer uma panhe de chamtaça? Quer dizer, uma taça de champanhe?

Calma, pensou ele. Não vá estragar tudo com seu nervosismo. Sofisticação. Homem do mundo. Cuidado ao abrir o champanhe. Uma rolha ricocheteando pela sala pode pôr tudo a...

- Esses canapés, foi você quem fez?

- Foi.

- Mmmmm.

- Obrigado.

***

Ele se desculpou para ir até a cozinha ver qual era a situação do suflê. Ela perguntou se podia ir junto. No caminho, ele mostrou onde era seu quarto. Mostrou sua cama, de casal (ELA: "Que prático.") Na cozinha, falando no ouvido dele, ela sugeriu que pulassem o suflê. Ele riu, tentado, mas não concordou. Tinha orgulho do seu suflê. Queria saber a opinião dela do seu suflê infalível. E a vaidade culinária falou, desgraçadamente, mais alto. Foi esse o momento em que - pensando no acontecido, mais tarde e mais calmo - ele lamentou a falta de um bom roteirista. O suflê ficou pronto, levaram o suflê para a mesa, ela deu a primeira garfada - e queimou a língua. Chegou a dar um salto para trás, fazendo "Uol!" e quase caindo da cadeira. Bebeu um longo sorvo de champanhe. Abanou a boca com as mãos. E gritou para ele:

- Você não me avisou que estava quente!

- Desculpe, eu...

- Seu cretino!

Epa, pensou ele. Cretino não.

- Quem é que não sabe que suflê é quente? Você não viu ele sair fumegante do forno?

- Você podia ter me avisado!

O jantar terminou ali. Ela levantou-se da mesa, vestiu seu casaco e saiu do apartamento batendo a porta. Ele ficou pensando que ela poderia ter sido mais compreensiva, mas que era melhor assim. Com a língua queimada ela não iria apreciar seu suflê, mesmo.

***

Roteirista, pensou ele. Decididamente, faltou roteirista.

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