Suely Franco encena texto de Guarnieri

Na sala Pascoal Carlos Magno, em São Paulo, onde está sendo ensaiado o drama musical "A Luta Secreta de Maria da Encarnação", de Gianfrancesco Guarnieri, a atriz mais animada é Suely Franco. "Quantos anos então vou fazer de carreira?", pergunta a uma produtora da peça, depois de rememorar que começou a atuar profissionalmente em 1958. "Puxa, 44 anos", reflete. Justiça seja feita, Suely Franco é uma das maiores atrizes vivas do Brasil. Mas parece não fazer caso do fato. É antiestrela, é antiarrogante e traduz seu estado de espírito predominante - a alegria -, em deliciosas gargalhadas. "Acho que é porque não sofro para criar", atesta a veterana atriz. Em 2000, a atriz de 61 anos recebeu os prêmios Shell e APCA por sua atuação no musical "Somos Irmãs", no papel da cantora Lindinha Batista. A seu favor, além do talento para o cômico e o dramático, ela tem uma voz afinadíssima para fazer o que bem entender em cena. Com estréia marcada para a segunda quinzena deste mês (ainda não foi confirmado o dia), "A Luta Secreta de Maria da Encarnação", com direção do jovem Marcus Faustini, músicas de Renato Teixeira, direção musical de Natan Marques e regência de Roberto Sion, traz Suely Franco e Vanessa Gerbelli dividindo o papel-título, esta última representando Maria quando jovem. "Guarnieri conta a trajetória de vida de Maria da Encarnação dentro de acontecimentos muito especiais da vida do Brasil", diz Suely Franco, convidada pelo próprio Guarnieri para viver uma mulher simples e guerreira, rememorando fatos no fim de sua vida. A peça, que além de musical se avulta como um épico, tem início com uma octogenária mulher do povo sofrendo por ter perdido as duas filhas. Ao rememorar os principais fatos de sua vida, a velha tenta entender no tempo presente as razões de todos os seus atos. A protagonista nasce no sertão, em 1920, é estuprada 15 anos depois, apaixona-se por Evaristo, um militar de baixa patente, que foi o grande amor de sua vida (assassinado menos de um ano depois de casados), vivencia a morte de Getúlio, engaja-se na esquerda brasileira, sofre as conseqüências do AI-5 enlouquece de dor quando perde as filhas - uma delas para as forças da repressão - e, depois de viver poucas e boas, planeja um crime hediondo contra o segundo marido, um delator do lado do regime militar. "Por isso, não a vejo exatamente como uma heroína. É uma personagem muito humana, obrigada a lidar com suas culpas", explica a atriz. Debutante - Em se tratando da dramaturgia de Guarnieri, autor de peças clássicas da antologia brasileira, como "Arena Conta Zumbi", "Um Grito Parado no Ar" e "Eles não Usam Black-Tie", Suely Franco é debutante. "É meu primeiro Guarnieri e a primeira vez que trabalho num texto dessa natureza", sublinha. "Nunca tive a menor ligação com política. Eu era completamente alienada, não sabia das coisas que aconteciam, só muito tempo depois fui entender as transições na política brasileira da minha época. Mesmo no trabalho ou em família, não se falava sobre isso", diz a atriz, filha de um oficial da marinha mercante nos anos 60. "Fiquei muito emocionada com o convite e estou aprendendo muito. O que Faustini me diz sobre o texto são surpresas para mim, porque ele insere tudo dentro de uma visão política e social." A atriz começou sua carreira em 1958, mas foi em 1972 que recebeu um prêmio Molire por sua atuação em "A Capital Federal", de Artur Azevedo. Ela mesmo lembra que fez muito mais "textos cômicos, leves do que dramas", a exemplo de "Trair e Coçar e Só Começar" (foi a segunda Olímpia no rol de atrizes que passaram pela famosa personagem) e "Ai, Ai, Brasil", comédia musical de Sérgio Britto e Clóvis Levy. A atriz defende a comédia como gênero maior. "Os críticos nunca deram muita bola para comédia e fiquei muito feliz por ver Edwin Luisi ser premiado por "Tango, Bolero e Cha Cha Cha". Mas Jorge Dória, por exemplo, nunca ganhou um prêmio!", diz, indignada. Suely defende: "No tempo da chanchada, nunca tantos brasileiros foram ao cinema. E a maioria das pessoas que faz cinema hoje tem como professores aqueles profissionais que faziam pornochanchada. Naquela época se atingia o gosto popular. E o gosto popular hoje não é levado a sério, tudo ficou muito elitizado." Lembranças - Não há dúvida que "Somos Irmãs" ratificou o talento dramático da atriz. Na peça, Linda, que recorria ao álcool, à amargura e às lembranças de uma época áurea, se preparava para dar uma entrevista a uma emissora de televisão. "As lembranças, tanto para Linda como para Maria, são de uma força dramática intensa", compara. Para compor sua nova personagem, a atriz não se baseia em uma, mas em muitas mulheres que fazem da predestinação ao sofrimento um movimento de luta interna e externa. "Ela me remete muito à persistência das mulheres que perderam seus filhos durante a ditadura militar, como as ´mães de maio´, na Argentina, por exemplo", exemplifica. "Maria é uma guerreira, dotada de uma força interior extraordinária. Apesar de todas as dificuldades, ela reverte o seu analfabetismo, torna-se professora para ajudar as outras pessoas, funda uma associação de mulheres beneméritas", diz Suely. "Mas no final, ela já está um pouco cansada das pessoas." E, símbolo da poesia que é perpetrada pelo texto, há a relação lúdica da protagonista com as pipas. "Em todos os momentos importantes de sua vida, a pipa está presente." Mas essa imagem lúdica faz parte de um segredo maior que as platéias vão admirar quando forem ao Teatro Sérgio Cardoso, a partir da segunda quinzena deste mês.

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