Sudoeste mostra a vida de uma mulher em um único dia

É curioso que, justamente hoje, quando o Canal Brasil reprisa Casa de Areia, esteja estreando Sudoeste, o longa de Eduardo Nunes apresentado no Festival do Rio do ano passado. O longo caminho até chegar ao cinema dá conta das dificuldades que o mercado impõe a filmes de um perfil diferenciado. O próprio Andrucha Waddington, que dirige Casa de Areia, está estourando nos cinemas com outro filme de perfil completamente diverso - a comédia Os Penetras que, em menos de uma semana (na quarta-feira, 5), já havia ultrapassado 500 mil espectadores. Casa de Areia passa-se nas dunas, fotografadas em cores rigorosas. Sudoeste passa-se numa paisagem molhada, fotografada em preto e branco. Apesar das paisagens e texturas, os dois filmes são irmãos na construção de um tempo mítico. As duas mulheres de Casa de Areia podem ser, de repente, a mesma, em diferentes fases da vida. A construção temporal de Sudoeste também propõe um enigma para o público. E ambos, de alguma forma, remetem a um mito maior - o de Limite, o cult de Mário Peixoto.

AE, Agência Estado

07 de dezembro de 2012 | 11h21

Há dois anos, a reportagem visitara o set de Sudoeste, em Arraial do Cabo, no Rio, numa região próxima daquela em que Paulo Cesar Saraceni situou seu famoso documentário Arraial do Cabo, considerado uma das pedras de toque do Cinema Novo. Batia o vento na salina - o vento, o sudoeste, é decisivo no filme de Eduardo Nunes. Adquire a dimensão de personagem, como em certos relatos míticos - o mito, como disse Júlio Bressane em entrevista à reportagem, ?nos socorre quando é impossível falar sobre as origens?. O Tempo e o Vento, romance cíclico do escritor gaúcho Erico Verissimo, Cem Anos de Solidão. No desfecho do livro cultuado de Gabriel García Márquez, o vento que se abate sobre Macondo fecha um ciclo que resume a maldição que atinge a família Buendía e condena seus integrantes à trágica solidão do título.

O Tempo e o Vento e Cem Anos de Solidão não foram as únicas fontes de pesquisa do diretor Nunes. Ele usou também filmes de Andrei Tarkovski. Foram dez longos anos de preparativos que agora, finalmente, chegam ao público, depois de passar - e receber prêmios - em festivais. No Rio, Sudoeste ganhou o prêmio da crítica e o especial do júri. Um terceiro Redentor foi para o fotógrafo Mauro Pinheiro Jr., dividido com o Petrus Cariry de Mãe e Filha. Sudoeste começou a nascer quando o pai do diretor teve um derrame. A família se revezava junto ao leito, em noites intermináveis. Foi ali, diante do pai imobilizado que começou a surgir a história estranha, fantástica do filme. Um dia na vida de uma mulher. Ou melhor, toda a vida de uma mulher sintetizada em um dia, o da Folia de Reis.

Ela nasce de manhã e morre ao entardecer. Nestas poucas horas, cumpre uma trajetória que é longa, pois morre de velha. O tempo, que para a protagonista é acelerado, passa lentamente para os outros. O irmão, um garoto, não a reconhece como mulher madura nem como velha. A bruxa interpretada por Léa Garcia - atriz cujas origens estão em Orfeu Negro, de Marcel Camus, e depois, em obras clássicas do Cinema Novo - é decisiva, menos por lançar um sortilégio sobre a protagonista, mas por ter a compreensão do que ocorre com a personagem de Simone Spoladore.

Sudoeste já nasceu contra a corrente, como um convite à contemplação. No debate após a projeção do filme, no Festival do Rio, o diretor conta como encontrou sua locação - uma antiga vila de salineiros, abandonada havia 40 anos, no Pontal do Massambaba, em Arraial do Cabo. "Foi quase um milagre. O roteiro que escrevi com Guilherme Sarmiento se passa numa vila de pescadores que existia apenas na nossa imaginação. Como o filme tem um tom de fábula, era preciso encontrar um lugar ermo, que transmitisse essa ideia de abandono, do tempo atuando sobre as coisas e as pessoas."

SUDOESTE - Direção: Eduardo Nunes. Gênero: Drama (Brasil/2012, 128 minutos). Classificação: 14 anos.

As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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