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Sucuri de silício

Tudo se perverteu. A política, a democracia, o conceito de verdade, o debate público

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2017 | 02h00

Como fazem anualmente desde 1986, o professor Adauto Novaes e a organização Artepensamento bolaram mais um ciclo de conferências de indiscutível relevância e alto nível intelectual. Nono desdobramento da série Mutações, ao longo da qual a produção das ideias, o futuro, o silêncio, a violência e até as virtudes da preguiça foram repensados de forma original e inovadora, terá como tema as “dissonâncias do progresso”. Serão 29 palestras, com o habitual escrete de pensadores aglutinados por Novaes revezando-se em três capitais: Rio, Belo Horizonte e Brasília.

Por que São Paulo ficou de fora este ano? Cobrem explicações do Ministério da Cultura. E, em seguida, da direção do Sesc paulistano. 

Como das vezes anteriores, Novaes submeteu seu projeto ao MinC, condição obrigatória para a posterior captação de recursos. Alegando que o projeto não se enquadrava nos objetivos da Lei Rouanet, o ministério, então comandado por Roberto Freire, recusou-se a aprová-lo, decisão mantida pelos seus dois sucessores. 

Novaes, restrito a um só patrocinador, o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, cortou rente ao osso o seu orçamento, mas não desistiu do curso. O Sesc São Paulo, rompendo uma parceria de mais de 15 anos, decidiu suspender seu apoio ao curso. De maneira inusitada: por telefone. Delicado, não?

Quais seriam os recônditos objetivos da Lei Rouanet, para os mandarins do MinC do governo Temer? “Talvez o melhor seja não perguntar para não correr o risco da resposta, a qual já se encontra implícita na atitude dos gestores”, ponderou o grupo de intelectuais que de pronto reagiu publicamente ao gesto obscurantista e à indigência mental dos atuais burocratas da cultura, prontificando-se a não declinar das responsabilidades que os uniram nos ciclos anteriores.

Afinal, salientaram os signatários, são 30 anos de palestras e quase mil ensaios reunidos em 36 livros, em que prevalecem a liberdade e o desejo de evitar certezas absolutas. Livros que o professor Antonio Candido considera “um dos fatos mais importantes da atividade cultural brasileira do nosso tempo”, mas o MinC, obtusamente, despreza. O volume mais recente, Mutações Entre Dois Mundos, será lançado na primeira conferência do novo ciclo, dia 19, às 19h, na Casa da Cultura da Maison de France, no Rio. 

Quem abre o curso sobre as dissonâncias do progresso é o professor de filosofia da USP Vladimir Safatle. Falará dos excessos ‘da sociedade burguesa e a desordem por eles criada, pondo em risco a sociedade inteira. Excesso de progresso, inclusive. Ou de uma concepção fossilizada de progresso, a ser questionada por todos os conferencistas pelas mais diversas perspectivas, com os ensinamentos deixados por Marx e Engels, mas sobretudo por Nietzsche, Martin Heidegger, Paul Valéry, Walter Benjamin e Hannah Arendt, os pensadores mais citados nos resumos das palestras a que tive acesso. 

Com as inúmeras formas do progresso da ciência e da técnica, o mundo ganhou, mas também perdeu, observa Novaes no texto de introdução ao novo ciclo. Se de um lado houve uma transformação radical das ideias de espaço e tempo, avanços na medicina, na biologia, “com inegáveis e perenes benefícios para a humanidade”, impôs-se, em contrapartida, uma noção de progresso calcado no rigor, na velocidade, na produtividade a qualquer preço, na relação destrutiva do homem com a natureza, no desaparecimento do vago e do lento, nos “hábitos dominados por métodos positivos governados pelas máquinas”, por um “modo científico de existência”, que tende a nos transformar em zumbis espirituais, em robôs de carne e osso.

 

Apesar de suas prodigiosas invenções, o mundo moderno não conseguiu suprimir as injustiças sociais e a desigualdade econômica, nem criar uma política, um ideal, um progresso moral, nem sequer, para citar Valéry, leis civis ou penais em harmonia com os modos de vida e pensamento que ele criou. A “barbárie civilizada”, que tanto incomodava Nietzsche, prevaleceu.

O físico e cosmólogo Luiz Alberto Ribeiro pretende contrapor o otimismo do divulgador científico John Horgan (a humanidade mais saudável e longeva, mais afluente e livre) ao pessimismo do físico e cosmólogo Stephen Hawking, não sem bons motivos incomodado com os desafios ambientais, as mudanças climáticas, a produção de alimentos, a superpopulação, a dizimação de outras espécies, as doenças epidêmicas e a ocidificação dos oceanos, insolucionados pelos avanços da ciência.

Tudo se perverteu. A política, a democracia, o conceito de verdade (acrescida do prefixo pós), o debate público, a própria ideia de mercado foi alterada pela nova tecnologia (“máquinas engolfando a humanidade feito uma sucuri de silício”, na imagem forte de Eugênio Bucci), que também pôs em questão os partidos políticos, os sindicatos e a imprensa como mediadores entre o cidadão e a política. 

O próprio homem moldado pelos ideais da Ilustração e pela crença no progresso sofreu espantosas alterações regressivas depois que o espírito científico rompeu os laços entre sujeito e objeto, corpo e espírito, os laços que criam os valores humanos. 

Francis Wolff, por exemplo, abordará o homo economicus, egocêntrico, “preso ao domínio do imediato e da atividade do mercado, incapaz de pensar o amanhã da vida coletiva”. A partir de outra forma de despolitização, condensada na figura do homo connecticus, Frédéric Gross vai discorrer sobre as interferências das novas tecnologias da informação e da comunicação em nossa existência cotidiana, em nossas noções de tempo e espaço, e também em nossa relação, sobremodo digital, com nós mesmos e com os outros.

Para o MinC nada disso é cultura. 

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