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Sucesso no cinema, ‘Se Eu Fosse Você’ chega ao palco em forma de musical

Depois de filme que levou 10 milhões aos cinemas, história estreia no Rio de Janeiro

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

15 de fevereiro de 2014 | 03h00

Com os filmes Se Eu Fosse Você, partes 1 e 2, o diretor Daniel Filho renovou, em tom de comédia, o tema da transferência de corpos: Gloria Pires e Tony Ramos vivem um casal em crise por conta da incompreensão. A situação atinge tal limite que os dois chegam a desejar estar um na pele do outro, para saber o que pensam e sentem. Na manhã seguinte, uma mágica misteriosa faz com eles troquem de corpo literalmente, o que resulta em uma série de confusões. A história cativou o público e atraiu cerca de 10 milhões de espectadores, somando os dois longas.

Agora, Daniel Filho participa de uma nova metamorfose – a transformação do filme em teatro. Se Eu Fosse Você – O Musical estreia dia 21 de março, no Rio de Janeiro, com todos os ingredientes dos originais, mas devidamente acrescido de canções. “E de números musicais”, observa Alonso Barros, experiente e talentoso coreógrafo brasileiro que, depois de anos trabalhando na Áustria, voltou a se fixar no Brasil. Ele também é responsável pela direção do musical, enquanto Daniel Filho assume a supervisão geral. Orçado em R$ 8 milhões, o espetáculo é uma produção da Aventura.

O Estado acompanhou um ensaio do espetáculo, que vai estrear no teatro Oi! Casagrande, sucedendo Elis – A Musical, que vem para São Paulo. Claudia Netto e Nelson Freitas vivem o problemático casal Helena e Cláudio. E os atores descobriram uma diferença artística que contribuiu para o rendimento da história.

“Sou uma atriz regrada, voltada para a estrutura teatral, bitolada mesmo”, conta Claudia, com grandes passagens por musicais como O Rei e Eu, além de viver Judy Garland em Judy – O Fim do Arco-íris. “Eu sou o contrário: mais intuitivo, naturalista, com a veia cômica ditando meus passos”, observa Freitas, há doze anos participante do humorístico Zorra Total, na Globo. No meio do caminho, dosando energias tão distintas, a dupla é comandada por Alonso Barros e sua coreografia carregada de gestos.

Para diretor, experiência dos atores com a comédia dá bom ritmo ao musical ‘Se Eu Fosse Você’

Quando começaram a trabalhar na versão musical de Se Eu Fosse Você, Daniel Filho e sua equipe criativa enfrentaram o primeiro desafio: quais canções acrescentar a um original que não tem música? Afinal, não era o mesmo caso que Mamma Mia!, cuja trama foi criada para costurar as clássicas versões do grupo ABBA. “Tínhamos que ter uma boa trilha de um compositor brasileiro. Com músicas que estivessem na memória do público”, conta Daniel, que recebeu a solução de uma enteada, Barbara Duvivier: por que não Rita Lee?

A solução logo se revelou correta, pois as letras ao mesmo tempo românticas e bem humoradas de Rita se encaixaram com perfeição na trama do casal que troca de corpo. Também auxiliou na trama paralela, em que a filha de Helena e Cláudio sofre para comunicar aos pais que está grávida – por conta disso, o musical começa com ela cantando Ovelha Negra.

Outro desafio enfrentado pela equipe – a versão para o palco foi escrita pelo dramaturgo Flávio Marinho enquanto a direção musical ficou a cargo do experiente produtor Guto Graça Mello, responsável por quatro LPs de Rita no fim dos anos 70 e início dos 80 – foi a coreografia. “Na verdade, esse foi o meu desafio, pois sempre quis criar danças que contassem a história”, conta Alonso Barros, diretor e coreógrafo do espetáculo. “O que me ajudou foi o fato de as músicas da Rita serem muito teatrais: basta olhar o álbum Fruto Proibido para descobrir que cada faixa contém uma história.”

Para isso, ele necessitou de um cenário ágil, em que os cômodos da casa e do escritório se transformassem rapidamente em, por exemplo, vestiário masculino e piscina de clube. Aliás, são nesses espaços que acontecem as coreografias mais inusitadas – na primeira, Helena, já no corpo de Cláudio, fica envergonhada ao perceber que os colegas se desnudam para tomar banho. A cena, aliás, terá direito a bumbuns à mostra.

Já a cena da piscina promete causar: Alonso Barros criou uma coreografia em que o sapateado é executado com os atores usando pé-de-pato. “É difícil, reconheço, mas, quando o grupo estiver afiado, será um dos momentos mais delicados do musical”, comenta o diretor coreógrafo.

Outro cuidado, herdado dos filmes, é com a atuação, pois, para manter a veracidade sem perder o humor, Claudia Netto e Nelson Freitas, no momento em que assumem a personalidade do outro, não podem exagerar na representação, a fim de evitar uma caricatura. E não tem sido fácil. “No início do processo, escrachei um pouco, com muitas atitudes gays”, conta o ator. “Aos poucos, vim ouvindo conselhos de postura, especialmente de mulheres, que me indicavam a forma mais conveniente de andar, de jogar com as mãos, até de flexionar a voz.”

Já Claudia enfrentou um desafio ainda maior ao substituir Claudia Ohana, que precisou abandonar o musical no início do trabalho por conta das exigentes gravações de TV. “Comecei quando o elenco já estava trabalhando”, comenta. “Mas, sempre tive como objetivo fazer com o que público reconhecesse o Cláudio quando ele estivesse no meu corpo.”

As diferenças entre eles é um ganho para o espetáculo. “Enquanto passo dicas de comédia para ela, Claudia me ajuda no trabalho de palco”, reconhece Nelson. Sobre esse trabalho de trocas, Daniel Filho respondeu as seguintes perguntas.

Na sua opinião, quais características dos filmes deveriam ser preservadas no musical e quais não são tão necessárias?

Se Eu Fosse Você é uma história de amor. É uma história de compreensão. De entendimento destes dois animais tão diferentes que são um homem e uma mulher, com manias, vontades e jeitos opostos de pensar, mas que se complementam. E que não vivem um sem o outro. O sentimento de se colocar no lugar do outro é mais importante do que as histórias específicas.

As canções da Rita Lee realmente amarram muito bem a trama do musical. Como você chegou à conclusão de que o trabalho da Rita cairia tão bem?

Várias montagens da Broadway de sucesso usam músicas já consagradas. Um exemplo é Mama Mia!, uma boa comédia ao estilo de outra peça, Filumena Marturano, com uma trilha de músicas de sucesso do grupo ABBA. Nice Work If You Can Get It, com trilha de George Gershwin, faz de uma história boba um êxito. Eu estava certo de que Se Eu Fosse Você não poderia ser uma coletânea de músicas. Tínhamos que ter uma boa trilha de um compositor brasileiro. Com músicas que estivessem na memória do público. Colocado este problema, minha enteada Barbara Duvivier deu a ideia: e se fosse apenas Rita Lee? E temos a nossa trilha!

Nelson Freitas e Claudia Netto são grandes artistas, mas bem distintos no estilo – ele mais naturalista, ela mais teatral. Como você acredita que deveria ser quando um assumir o “papel” do outro?

Apesar de terem estilos diferentes, Nelson Freitas e Claudia Netto sabem andar pela comédia com tranquilidade. Como diz uma famosa frase atribuída a diversos atores: “Morrer é fácil, fazer comédia é difícil”. Porque comédia é como jazz – se você não entende, esquece. Não tem como explicar ao ator o tempo da piada. Não há diretor que faça isso. E ambos os atores têm experiência na comédia. Além disso, Claudia é ótima cantora.

Alonso Barros vem buscando “costurar” as cenas do musical com um ritmo e uma agilidade que lembram a edição de um filme, ou seja, cinematográficos. O que você pensa disso?

Nos dois filmes, a história foi costurada por uma série de cenas que podem ser comparadas a esquetes teatrais. Ele aproveitou as inúmeras situações cômicas, como a do jogo de futebol e a da cena da troca de corpos, de forma ágil, aproveitando o excelente tempo de comédia dos atores, o que deixa o espetáculo divertido o tempo inteiro.

Como conhecedor de musicais em geral, qual característica que mais te atrai nesse gênero?

Essa integração total entre texto, músicas e coreografias.

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