Sucesso no cinema, 'As Pontes de Madison' chega ao palco

Peça se baseia no livro que inspirou o filme de 1995 com Clint Eastwood, vivido no teatro por Marcos Caruso

Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo,

17 de julho de 2009 | 13h52

Marcos Caruso foi ao encontro da diretora Regina Galdino com uma resposta preparada para negar o convite: "Erro de casting." Afinal, pensava, nada o aproximava do fotógrafo Robert Kincaid, um dos personagens principais de As Pontes de Madison, romance que inspirou um filme hollywoodiano de sucesso e, agora, uma adaptação para o palco dirigida por Regina.

Jussara Freire e Marcos Caruso, em uma das cenas da peça. Foto: João Caldas/ Divulgação

 

 "Meu estilo de atuar não tem nenhuma relação com o de Clint Eastwood, que interpretou o papel no filme", acreditava Caruso que, depois de participar de uma leitura do texto, mudou de ideia. "O típico físico dos atores é secundário quando se percebe a importância da história de amor." Foi o ponto de partida para a montagem que estreia hoje, no Teatro Renaissance.

Inspirado no livro publicado em 1992 por Robert James Waller, As Pontes de Madison contra a história de Francesca (Jussara Freire), uma mulher casada que se envolve com Kincaid, fotógrafo da revista National Geographic que vai até o condado de Madison, em Iowa, interior dos EUA, registrar imagens das famosas pontes cobertas. Sozinha porque a família viajou a passeio, ela vive quatro dias de uma avassaladora paixão, que só não se concretiza como relação porque Francesca decide ficar em sua fazenda em vez de fugir com o fotógrafo. Uma decisão que vai marcar decisivamente o resto da vida de ambos.

"O relacionamento deles acontece nos anos 1960 mas o romance só é descoberto 20 anos depois, com a morte de Francesca", conta Regina. De fato, a peça começa com os filhos dela, Carolyne (Luciene Adami) e Michael (Paulo Coronato), descobrindo o diário da mãe, o qual revela detalhes desse momento importante de sua vida. "A diferença de tempo é importante para explicar muitos dos atos", acredita a diretora.

De fato, a relação entre Robert e Francesca traz elementos hoje considerados raros: respeito nos gestos, educação no trato, respeito ao silêncio. "O que mais me fascina nessa história é o cuidado que cada um tem com o outro", comenta Jussara Freire. "Não se trata de um amor escancarado, mas dos pequenos movimentos."

Tal atitude tem relação com a época - nos anos 1960, muitos códigos sexuais foram quebrados, mas Robert e Francesca ainda carregavam imposições sociais. "Ainda que as mulheres estivessem se libertando naquela década, Francesca vivia a fase de transição, daí sua dificuldade em largar a família e fugir com Robert, mesmo descobrindo nele o amor de sua vida", conta Regina, que se aproximou dos conceitos psicológicos de Jung ao preparar o conceito de sua direção. "Nos quatro dias que o casal passa junto, acontece um encontro de almas."

Na verdade, ao se conhecerem, Francesca e Robert passam por um momento revelador em suas vidas. "Até aceitar o chá gelado oferecido por ela no primeiro encontro, ele é um homem independente, que viaja para qualquer lugar e tem o privilégio de escolher com qual mulher quer ficar", observa Caruso. "Mas, ao se descobrir apaixonado por Francesca, Robert aceita abrir mão dessa liberdade, a ponto de aceitar abrir um estúdio e fazer fotos prosaicas pelo simples fato de poder ficar com seu amor."

Também com Francesca a mudança é radical - ao menos, internamente. Regina Galdino lembra que se trata de uma imigrante italiana, ou seja, uma mulher formada pela cultura europeia. "Ela se ressente de não poder conversar sobre poesia ou ópera em sua casa, onde isso não é um hábito", comenta. "Daí a grande surpresa representada por Robert, um homem sensível à cultura, com modos cavalheirescos. Eles percebem que se completam."

E a decisão de Francesca em resistir ao seu desejo mais íntimo também é justificável, no entender de Jussara Freire. "Ela é uma mulher madura, educada para cuidar da família; portanto, mesmo com a revolução sexual acontecendo, Francesca jamais queimaria um sutiã, apesar de concordar intimamente com tais mudanças."

O desenrolar dos acontecimentos é mostrado ao público à medida que os filhos Carolyne e Michael leem o diário da mãe. "Eles trazem o mesmo sentimento da plateia", acredita Luciene Adami. "No começo, há uma reprovação; depois, Carolyne começa a entender mais facilmente o affair da mãe e, só ao final, também Robert passa a aceitar." A demora tem explicação, segundo Paulo Coronato. "Michael está ali para cuidar da burocracia envolvendo a morte da mãe e fica revoltado com a descoberta. Mas, aos poucos, ele percebe que aquele segredo, aquele raro momento de felicidade plena foi a principal herança deixada pela mãe aos filhos."

O fato de As Pontes de Madison ter sido um grande sucesso no cinema (estrelado por Clint Eastwood e Meryl Streep), na década passada, não preocupa o elenco e a diretora. "O filme tem uma visão racional da história, típica dos americanos, enquanto nossa versão é latina, portanto, mais emotiva", acredita Caruso, apostando que o amor entre um casal maduro vai também atrair o público mais jovem. "Afinal, a garotada vai descobrir ali uma possibilidade de seu futuro."

 

As Pontes de Madison. 90 min. 14 anos. Renaissance (462 lug.). Al. Santos, 2.233, 2198-7701. 6.ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 70 e R$ 80 (sáb.). Até 13/9

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