Sucesso de um grupo na contramão da história

Tapa comemora 35 anos de trajetória com peça 'Retratos Falantes', no Rio

DANIEL SCHENKER, ESPECIAL PARA O ESTADO / RIO, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2014 | 02h07

Sobreviver como companhia de teatro no contexto brasileiro durante 35 anos não é um feito comum. A surpresa aumenta diante do Grupo Tapa, que, de certa forma, se encontra na contramão do perfil mercadológico ao valorizar o teatro de repertório e a encenação de textos consistentes, tanto brasileiros quanto estrangeiros. "O nosso caminho é particular. Não estamos necessariamente na contramão do público, mas de correntes priorizadas nos dias atuais. No resto do mundo, a plateia se depara com a convivência de diferentes vertentes teatrais. E os espectadores circulam por todas. Aqui é como se os artistas precisassem seguir o que foi instituído", observa Eduardo Tolentino de Araújo, diretor do Tapa. O grupo está no Rio de Janeiro (no Espaço Sesc, em Copacabana) com dois dos monólogos integrantes do projeto Retratos Falantes - Brincando com Sanduíche, com Zecarlos Machado, e Fritas no Açúcar, com Brian Penido, que encerra temporada hoje.

O Tapa começou a sua trajetória profissional em 1979, no Rio, oscilando montagens de peças infantojuvenis - a primeira, Apenas um Conto de Fadas, é de autoria do próprio Tolentino - com adultas - a exemplo de Viúva, porém Honesta, de Nelson Rodrigues. Nessa fase já estavam atores como Denise Weinberg, Ernani Moraes, Clarisse Derzié, Emilia Rey e Guilherme Sant'Anna. Em 1986, durante a turnê de O Tempo e os Conways, de J. B. Priestley, a companhia se mudou para São Paulo e se estabeleceu no Teatro da Aliança Francesa - de início, para permanecer um ano, prazo, contudo, estendido para 15.

"Era um teatro com uma história importante, mas que atravessava um período de declínio por estar numa área (Vila Buarque) da cidade que entrou em decadência. Contar com um espaço durante todo esse tempo foi fundamental. Assim como ter saído dele. Hoje eu não sei se aguentaria o tranco", assume Tolentino. Ao longo dos anos, a companhia realizou espetáculos relevantes a partir de peças como Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, Rasto Atrás, de Jorge Andrade, A Mandrágora, de Maquiavel, Major Bárbara, de George Bernard Shaw, e Camaradagem, de August Strindberg.

A situação se tornou, sem dúvida, mais instável. "Até o início da década de 1990, nós nos mantínhamos através da bilheteria. No entanto, não teríamos sobrevivido a partir do período de Fernando Collor de Mello na presidência sem patrocínios. Agora conseguimos ocasionalmente apoios ou espaços graças a editais de ocupação", destaca Tolentino, valendo lembrar que o Tapa apresentou 17 montagens de seu repertório no Teatro de Arena Eugenio Kusnet.

"Por um lado nós ganhamos reconhecimento e visibilidade, fatores que tendem a fazer com que portas se abram. Por outro, o panorama do teatro no Brasil piorou. O público não cresceu, o nível escolar diminuiu, a mobilidade urbana ficou bem mais difícil. Não por acaso, a questão econômica tem nos levado a investir em trabalhos de menor porte nos últimos anos", afirma.

O projeto de Retratos Falantes evidencia este dado. Dos monólogos curtos (coletânea intitulada Talking Heads) escritos por Alan Bennett para a BBC de Londres entre 1987 e 1997, Eduardo Tolentino pinçou cinco. Além dos citados, o Tapa encenou A Senhora das Cartas, com Beatriz Segall, Uma Cama entre Lentilhas, com Clara Carvalho, e A Sua Grande Chance, com Chris Couto. No que diz respeito especificamente aos que serão mostrados no Rio, Brincando com Sanduíche coloca o público diante de um personagem que oculta uma realidade escabrosa sob a aparência de pacato homem de família e Fritas no Açúcar traz um solteirão que opta viver com a mãe esclerosada.

Para Zecarlos Machado, a empreitada não foi fácil. "Eu resisti um pouco a interpretar esse texto porque toca em alguns tabus. No decorrer do processo, derrubei preconceitos. Percebi que os comportamentos perigosos do personagem podem estar próximos de nós, até mesmo dentro da gente", opina o ator que integra o Tapa desde a segunda metade dos anos 1980.

Para Brian Penido, o desafio consistiu em lidar com a circunstância do monólogo. "Eu nunca tinha feito monólogo. Afinal, o que mais gosto é o jogo entre os atores. Mas não me sinto só. Contraceno com a luz, que é muito marcada. Foi a maneira que arranjei para driblar a solidão no palco", explica Brian, que entrou na companhia ainda na fase carioca, na montagem de Tempo Quente na Floresta Azul, de Orígenes Lessa.

Depois da temporada no Rio, o Tapa segue repleto de planos. A partir do final de setembro, voltará a apresentar, em São Paulo (no Teatro Nair Bello), 12 Homens e uma Sentença (espetáculo dirigido por Eduardo Tolentino fora do Tapa) e Retratos Falantes. Tolentino também está ensaiando uma nova montagem de Sonho... ou Não?, de Luigi Pirandello, que, destinada a um número limitado de espectadores, deverá ser divulgada "apenas" na internet.

E anuncia o mergulho no universo de Jean Genet - por meio do projeto Genet em Dois Tempos, composto por encenações de As Criadas e Esplêndidos, visando às comemorações dos 50 anos do Teatro da Aliança Francesa, em janeiro de 2015 - e a montagem de Gata em Telhado de Zinco Quente, de Tennessee Williams.

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