Sucesso de Tom Jobim consagra a ousadia

Ou como Nelson Pereira arriscou e está sendo bem-sucedido

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2012 | 03h08

Pode não ser um fenômeno de massa, como ocorre com os blockbusters de Hollywood, mas o sucesso de A Música Segundo Tom Jobim está sendo uma das gratas surpresas deste começo de ano. Lançado em 20 salas do País, e beneficiando-se de uma projeção em digital que contempla o circuito de arte e as salas de grande público, o filme fez 27 mil espectadores na primeira semana e deve fechar a segunda na marca dos 50 mil. Produtor associado - pela Videofilmes -, Maurício Ramos acompanhou o processo de criação do longa. Ele admite que tinha suas dúvidas.

A própria codiretora Dora Jobim, neta do compositor, achara a proposta arriscada. Nelson Pereira dos Santos, o pai da criança, queria fazer seu documentário sem entrevistas e sem nem ao menos identificar os cantores que passam pela telas interpretando as canções de Tom. "Fui voto vencido. Achava que tinha de ter cartelas (legendas) de identificação, mas o Nelson dizia não, não e não. Sua ideia era fazer uma viagem sensorial pela música, uma coisa arriscada, mas o público embarcou", diz Ramos. "A identificação, no final, é muito interessante e os exibidores têm contribuído. No Rio, eles não acendem as luzes e o público segue os créditos até o fim, em busca das informações. Eu, mesmo, quando comecei a ver montagens parciais do filme, já estava encantado. O público abraçou a causa no Rio, em São Paulo. Estamos muito felizes."

Casas cheias - e a produtora executiva Márcia Pereira dos Santos, da Regina Filmes, a empresa de Nelson, lembra que num documentário anterior, sobre Sérgio Buarque de Holanda (e Raízes do Brasil), ele já fazia essa viagem, que agora radicaliza, recusando-se a identificar, tintim por tintim (sem trocadilho com o filme de Steven Spielberg), as figuras em cena. Depois deste belo sucesso, Nelson, aos 83 anos, só precisa desencantar de novo na ficção. As últimas que ele dirigiu não foram exatamente sucessos de público nem de crítica (A Terceira Margem do Rio e Brasília 18%). Nelson planeja agora uma ficção sobre dom Pedro II. Márcia está otimista.

"A ficção é sempre mais complicada, um processo que envolve desde o roteiro até a interpretação. Mas eu sinto que ele está entusiasmado e que a coisa vai." Sem entrevistas nem cartelas, A Música Segundo Tom Jobim conta sua história - e arma uma temporalidade - de forma muito sutil. Às vezes é uma capa de disco aqui, uma foto ali, uma imagem de cinejornal adiante, tudo foi pensado e ajustado para situar o espectador, mas sem chamar a atenção. A própria abertura - o avião da Panair que entra na imagem pela esquerda da tela -, depois a conquista do mar, a construção do aterro.

"São imagens dos cinejornais de Jean Manzon e acho que já deflagram a viagem. Datam de 1959, quando o Rio e o Brasil estavam mudando, com a construção do aterro e de Brasília", observa Ramos. Tom Jobim não é uma decorrência somente estética de Raízes do Brasil. "Sérgio Buarque pensou a modernidade brasileira e Tom a construiu na música", Márcia completa. Não é só um documentário musical. Com extrema delicadeza, Nelson põe na tela a identidade brasileira. "Ele ousou e está dando certo. Está sereno, realizado", conclui Márcia.

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