Sucesso de Os Ignorantes vira livro

De tanto reescrever Os Ignorantes, há um ano e meio Pedro Cardoso chegou ao que considera a versão mais bem acabada de sua peça, da qual é autor, diretor e ator. Uma cena final melhor resolvida aqui, uma música mais apropriada acolá. A sensação de tarefa cumprida o levou a se aventurar na dramaturgia literária. Irrequieto que é, Pedro pegou seu texto originalmente escrito para o palco e o tornou objeto de apreciação, de leitura. Fez de seu bem-sucedido monólogo o livro Os Ignorantes (Editora 4004 Edições, R$ 45, 167 págs), que ele autografa de hoje a domingo, no Citibank Hall, antes e depois de encenar o espetáculo homônimo, do qual se despede depois de 7 anos de estrada. Pedro se cercou de outros argumentos para dar sustentabilidade a tal projeto pessoal. "Quando a peça acabava, muitos me pediam para enviar os textos, professores de escola me perguntavam sobre eles", conta o ator. Percebeu então que os textos tinham qualidade para sobreviver por si só. Escolheu os melhores momentos do espetáculo para abastecer a publicação. Na hora de organizar tudo no papel, entretanto, deparou-se com um dilema cruel: traria o texto puro ou o texto vestido de uma encenação? Afinal, se por um lado ele achava que, diante de um texto puro, o leitor teria oportunidade de lhe dar a encenação que bem quisesse, por outro, como autor, também estava tentado a publicar seu próprio registro de encenação. Na dúvida, ficou com os dois caminhos, dispostos no livro de forma independente. Pequenos artifícios, como notas, fazem a ponte sutil entre ambos. Quem opta simplesmente pelo texto se diverte. A princípio, a história central de Os Ignorantes parece trágica: José de Oliveira, na infância, é abandonado pela mãe e é deixado com um pai ilegítimo. É vítima de bala perdida, mas sobrevive ao incidente e, ao se tornar adulto, decide escrever um poema de cordel sobre a ignorância. Mas o material é pontuado pelo humor, como na narrativa do soldado Fogassa (o dono da tal arma que, por capricho do destino, é disparada contra o menino por outra pessoa). Ao cabo Tenório de Almeida, o soldado detalha como a sucessão de investidas de seu sargento, patente superior, o deixa num mato sem cachorro. Tudo começa numa partida de futebol. "Daqui a pouco estamos no vestiário... Isso aí, para mim, situação normal de vestiário... O sargento não vem falar comigo, rapaz?! ´E aí, soldado... Desculpa aquele lance da falta.´ ´Ô sargento, tá limpo.´ Eu não dou conversa pra veado não. ´Tá limpo.´ Falo meio baixo, meio enrolado... Mas esses veados, eles têm muito negócio de assunto. É um tal de ´bá-bá-bi bá-bá-bá´ e isso e aquilo." Em contrapartida, o leitor que quiser saber como o texto funciona no palco, Pedro Cardoso oferece toda sorte de elementos cênicos que são utilizados: as fotos projetadas durante Os Ignorantes, as partituras das músicas executadas e as ilustrações assinadas por Romero Cavalcanti, que formam o story board do espetáculo. Ele libera ainda algumas curiosidades de bastidores. "Essa demanda do público por conhecer artista por trás da obra é normal", explica o ator, que se diz a favor das curiosidades saudáveis. Para colocar o projeto em prática, Pedro abriu mão dos recursos públicos via leis de incentivo e tirou o investimento de R$ 60 mil do bolso. Ele, que tinha uma produtora de teatro, a mudou para uma editora de livros. "Esse é um projeto pessoal, no qual sou o único beneficiado. Me lancei numa aventura e acho que o Estado não tem de bancar uma aventura." Os Ignorantes. 90 min. 14 anos (acompanhado de responsável). Antes e após cada apresentação, o ator autografa livro homônimo, 4004 Prod., 170 págs., R$ 45. Citibank Hall (1.600 lug.). Av. dos Jamaris, 213, 6846-6040. Hoje e sáb., 22h; dom., 20h. De R$ 40 a R$ 80. Até domingo

Agencia Estado,

28 de abril de 2006 | 14h13

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