Sucesso de "O Clone" indica mudanças

Foi uma bobagem, sim, mas uma bobagem deliciosa, mastigadinha, pronta para consumo. Só essa desobrigação de fazer o espectador raciocinar já explicaria o sucesso da novela que a Globo concluiu na sexta-feira, com excepcionais 62 pontos de média de audiência no capítulo final ? ou quase 3 milhões de lares sintonizados na Grande São Paulo.Era de se esperar: o saldo dos 200 primeiros capítulos do folhetim de Glória Perez já somava mais que suas antecessoras em cinco anos (46 pontos, ante 45 de Laços de Família e 44 de Terra Nostra e Porto dos Milagres). Na segunda-feira passada, O Clone registrou 60 pontos.Mais espantoso é que essa audiência tenha se deixado pasmar pelo desfecho óbvio ululante. Todo mundo foi feliz para sempre. Ou quase. Faltou destino justamente ao moço que deu título à história: como os patinhos de contos de fada, que nascem falando ?mamãe? ao primeiro ser que encontram, Léo (Murilo Benício) virou sombra de Albieri (Juca de Oliveira) e passou a vagar com ele pelo deserto. Como o próprio cientista, Glória Perez acovardou-se diante de suas criaturas, deixando ?pai? e ?filho? sem rumo.Só não vale mais discutir se os muçulmanos foram mal retratados, ou se a clonagem humana teve narrativa risível. Para ambos os temas, convém um mínimo de caricatura, uma lente de aumento sobre a comédia e o drama. Ou então, não seria isso uma telenovela e jamais poderia ser contada em 221 (!) capítulos. É coisa. E diante desses dois refrescos, a questão das drogas é o que realmente importa para uma platéia tão hipnotizada. É o único assunto sobre o qual não cabia a chamada licença poética.Com todas as cifras já gastas por ministérios, secretarias de saúde e Ongs, nunca uma campanha contra narcóticos foi tão eficiente ? embora, ou talvez por isso mesmo, a abordagem tenha sido inserida numa história de ficção. A autora conhece os efeitos do chamado merchandising social ? em De Corpo e Alma (1992), falou sobre transplante de coração e conseguiu reduzir a níveis mínimos a fila de transplantes do Incor.Cabe aqui aplaudir, não a iniciativa em si ? que dessas intenções a TV está cheia ? mas a realização do tema. Cabe aplaudir, em especial, Osmar Prado, que foi o melhor motivo para parar diante de O Clone, e a direção de Jayme Monjardim, que soube aproveitar com louvor sua fixação por closes, ao dar voz a vítimas reais da dependência química.Bandeiras sociais à parte, o humor se instalou no núcleo dos marroquinos com uma força que nem a autora previa inicialmente. A Nazira de Eliane Giardini, o Tio Abdul de Sebastião Vasconcellos e o Mohamed de Antônio Calloni deram o contraste necessário ao rio de lágrimas derramado por Lucas e Jade (Giovanna Antonelli).Cá entre nós, essa novela é a prova de que um público menos conservador vai se desenhando diante da TV. Além da boa aceitação da forma como os drogados foram retratados ? quando Janete Clair sonharia em engravidar uma dependente química, sem enfrentar a rejeição de sua platéia? ? a heroína Jade se revezou no vaivém entre quatro parceiros diferentes durante a trama toda. Em outros tempos, a própria audiência teria lhe dado as 80 chibatadas, trocando de canal.

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