"SubUrbia" centra foco na Geração X

Uma cabine telefônica cheia de pichações, com um orelhão despencando da parede. Uma loja de conveniência onde habitam dois indianos silenciosos. A iluminação mais forte provém da máquina de refrigerantes. E uma caçamba de lixo que serve de dormitório.Estamos no set de SubUrbia, peça de Eric Bogosian levada a termo pelo diretor Francisco Medeiros, em cartaz no Teatro Sesc Anchieta até o dia 4. A peça parece compor com as recentes A Vida É Cheia de Som e Fúria (de Felipe Hirsch) e A Vida não Vale um Chevrolet (de Mário Bortolotto), uma trilogia circunstancial sobre as gerações pós-yuppismo, que receberam recentemente carimbos como Geração X ou Geração @ ou Legião Invisível ou Geração Perdida.Fundada basicamente em estereótipos, a montagem brasileira de SubUrbia parece moralista ao tratar da Geração X. É bastante desinformada também na construção desses estereótipos - como na figura risível de Pony, um roqueiro emergente que penteia diligentemente o cabelo e lembra mais Johnny Bravo do que qualquer projeto de rock star verossímil.O apelo realista inicial do cenário vai se perdendo na caricatura de cada personagem. O skatista débil mental parece o personagem Peterson Foca, dos Sobrinhos do Athaíde, o protótipo do surfista retardado e de vocabulário limitado. É um clichê batido, raso, assim como o do caubói moderno, caladão, o tough guy que faz as garotas molhar os lábios só de imaginar.As personagens femininas incomodam outro tanto, pelo fato de assumirem um discurso masculino, alheio. Ou são militantes de laboratório, como Sooze (Rosana Seligman), ou demonstram uma fragilidade submissa, como Bee-Bee (Karina Barum). Ou, então, sublimam o estereótipo da loura burra, caso de Érika (Bárbara Paz).Essa ausência de positividade só pode dar em tragédia, nos diz Bogosian, acostumado à realidade americana de chacinas em escolas e serial killers. Está aí a chave da tese de Bogosian. Há diferentes tipos de "homens-invisíveis". O sujeito descrito na letra da balada babaca do roqueiro Pony é apenas um tipo. Os personagens da peça seriam os outros, meninos americanos suburbanos sem emprego, sem perspectiva, sem cultura e xenófobos.É suspeita, ou no mínimo ineficaz, inócua, essa leitura do autor de SubUrbia da geração perdida. Ele antipatiza com seus protagonistas (embora os atores de Francisco Medeiros dêem-lhes contornos emocionais). Ao contrário do inglês Nick Hornby, o autor de Alta Fidelidade, que nutre grande carinho por seus "perdedores", e nega-se mesmo a aceitar essa visão americana do mundo, dividida entre losers e winners (perdedores e vencedores).O escritor Nick Hornby preocupa-se menos que Bogosian com a descrição física de seus personagens - e o diretor curitibano percebeu isso - e mais com a sua contextualização histórica. Vivem num momento de passagem, resistindo numa loja de discos de vinil antigos contra a supremacia da era digital. Nem heróis nem vilões, nem patetas nem espertalhões: apenas homens do seu tempo. Narcisismo e arrogância estão em toda a saga jovem, de Juventude Transviada a O Selvagem da Motocicleta e Alta Fidelidade.E há A Vida não Vale um Chevrolet, versão brasileira desse dilema que trata da vulnerabilidade do homem jovem moderno. O autor, ator e diretor Mário Bortolotto, a exemplo de Eric Bogosian, também se vale do estereótipo e da caricatura, do caubói clássico e do malandro bukowskiano para abordar o tema. Mas a tragédia, em sua visão, não é uma bomba que explode no fim hollywoodianamente, como em SubUrbia. Ela está explodindo todo dia, a cada instante, a cada degrau de inocência perdida.A proposta de SubUrbia não é chocar pelo que explicita, mas pelo que poderia apresentar de reflexão. De qualquer modo, não é uma peça sobre jovens, mas uma peça sobre como os "adultos" vêem os jovens.SubUrbia. Tragicomédia. De Eric Bogosian. Direção de Francisco Medeiros. Duração: 120 minutos. Quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 15,00. Teatro Sesc Anchieta. Rua Doutor Vila Nova, 245, tel. 234-3000. Até 4/3

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