Subterrâneos do universo do desejo

Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, que ganha nova tradução no País, resume o embate entre pulsão de vida e de morte

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2012 | 03h11

VINICIUS JATOBÁ

Ainda não chegou o momento da inglesa Virginia Woolf (1882-1941). Incensada, celebrada, traduzida, festejada, escapa ao público sua verdadeira medida: a de nome central do modernismo literário europeu. Nenhum escritor desse período, com a possível exceção do austríaco Robert Musil (1880-1942), possui uma narrativa tão plural e versátil quanto Woolf. O francês Marcel Proust (1871-1922), no seu Em Busca do Tempo Perdido, escreveu a obra mais imersiva e totalizante de seu momento cultural e o irlandês James Joyce (1882- 1941), em Ulysses (1922), realizou o mais celebrado, influente e superestimado romance do modernismo. No entanto, eles não detiveram a voracidade pelas contradições humanas e nem o senso de divertimento e desprendimento que transpiram de maneira tão contagiante no conjunto da obra de Virginia Woolf. Mais até: em um momento em que a renovação cultural era um assunto privado, missivista, secreto, Woolf ocupou o espaço público de maneira inovadora, escrevendo amplamente para jornais e revistas, e se arriscando em palestras e pronunciamentos tanto em anfiteatros como em emissões radiofônicas. Ela foi uma intelectual completa e combativa, uma artista à frente de seu tempo.

Agora, chega às livrarias, pela Cosac Naify, uma esmerada nova tradução de um clássico absoluto: a obra-prima Mrs. Dalloway. Publicada em 1925, é um avanço impressionante no trabalho narrativo de Woolf. Os primeiros dois romances da autora foram bem realizados e extensos exercícios de realismo literário, e os contos reunidos na coletânea Segunda ou Terça-Feira, de 1919, ficaram no meio termo entre a ferina crônica de costumes e a pesquisa formal de vanguarda. Em O Quarto de Jacob, de 1922, Virginia realiza um interessante estudo de personagem que se perde numa prosa que não consegue reunir seu pendor lírico e poético, uma das marcas da linguagem da escritora, com a necessidade mais pedestre e orgânica de uma trama elaborada, ou ao menos visível, que torne a experiência de leitura mais imersiva. Até antes de publicar Mrs. Dalloway, Woolf era mais bem realizada como uma audaciosa e ferina crítica literária e, junto com seu marido, editora emergente. Após 1925, mesmo quando apenas se divertia, como no despojado Flush (1933), uma ágil biografia de um adorável animal doméstico, Virginia escreveu, até seu lamentável suicídio, uma obra-prima após a outra. As Ondas (1931) e Os Anos (1937) são livros inescapáveis.

Muito se superestima a influência de Ulysses na trajetória literária da ficcionista inglesa, e é uma lástima que um livro tão inovador e vitalista quanto Mrs. Dalloway tenha que viver à sombra de uma obra tão soporífera, narcisista e hermética quanto Ulysses. Entretanto, ainda que o casal Woolf tenha cogitado publicar o livro de Joyce, algo que não aconteceu pelas leis antiobscenidade, e para além do fato de Virginia haver recebido o livro com entusiasmo em uma crítica literária, a grande influência criativa sobre ela tem outra fonte. Veio da leitura da genial Katherine Mansfield (1888-1923), cujos contos inclassificáveis (editados também pela Cosac Naify) foram descobertos e estimulados por Woolf e seu marido, Leonard, e publicados pela primeira vez na própria Hogarth Press, em 1922. Basta começar a ler Mansfield para logo entender a proporção da excitação imaginativa que ela provocou em Virginia, tão documentada em seus Diários: a maneira como a memória invade o presente e convive e molda o cotidiano, a força ritualística da etiqueta e da classe social, o rumor pasmado e incessante do desejo e do Eros, o flerte constante da desrazão e do delírio diante da contensão de sentimentos, a força letárgica e pesarosa do hábito. Os contos de Mansfield foram um programa estético para Woolf.

O que ela trouxe para o coração de sua obra e está ausente em Mansfield é uma agenda política clara. Fala-se muito do lirismo na obra de Virginia Woolf, mas esse apego à sua linguagem poética nubla a percepção do rigor crítico com que Virginia encarou a sociedade britânica de seu tempo.

Mrs. Dalloway se ocupa de dois temas, algo psicanalíticos e centrais nas preocupações intelectuais de Woolf: a sexualidade e o impulso violento, que leva tanto à guerra quanto ao suicídio. A trama é simples: Mrs. Dalloway prepara uma festa que, por seu marido ser uma figura-chave no governo, tem toda uma etiqueta política. Ela se encontra perturbada: um antigo amor retorna à Inglaterra, voltando do serviço diplomático, e virá à festa, assim como Sally Seton, outro amor de juventude, se torna uma presença abarcadora na sua imaginação conforme a festa se aproxima. Em paralelo, o romance acompanha Septimus, condecorado veterano da 1.ª Guerra que amarga e alucina traumas do campo de batalha. Em uma sociedade marcada pelas relações de classe, Virginia desvela todo rumor mercurial por debaixo da etiqueta. Esse é o território do romance, e de sua obra como um todo: o universo subterrâneo do desejo, e como ele é moldado pela sociedade, pela cultura da sexualidade - e pelas relações políticas.

MRS. DALLOWAY

Autor: Virginia Woolf

Tradução: Claudio Alves

Marcondes

Editora: Cosac Naify

(224 págs., R$ 43,50)

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