Submergentes

Na elegante sala de espera da clínica de cirurgias especializadas, as poltronas confortáveis, a lareira e os quadros davam ao lugar um ar de Bed and Breakfast da Nova Inglaterra. Mas estávamos na esquina da abastada Park Avenue.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2010 | 00h00

Pacientes preenchiam formulários, conversavam aos sussurros com seus acompanhantes. Uma belíssima jovem, cujo figurino destoava do cenário por estar de touca e uniforme de enfermeira, entrou com a prancheta na mão e lutou para anunciar o nome da paciente que estava sendo convocada. A mulher nem se mexeu porque não reconhecia seu nome. A assistente de enfermagem continuou repetindo variações do nome que não conseguia pronunciar (porque não conseguia ler).

A portadora do tal nome, que não era complicado, levantou-se, alarmada. "Eu gostaria de não ser operada no lugar de outro paciente!" Sim, isso é raro, mas acontece até numa potencia médica como Manhattan.

A assistente, muito gentil, disse que ia aks (ask, perguntar, na pronúncia iletrada) para não haver erro. Ela voltou mais uma vez, cheia de charme e linguagem pobre. Sentada com uma amiga, eu me perguntava como um pequeno hospital tão prestigiado, num momento com tanta mão de obra qualificada em busca de trabalho, empregava uma pessoa com escolaridade tão precária para lidar com pacientes no limiar de uma cirurgia.

Eu não gostaria de me chamar Smith (o equivalente americano ao onipresente Silva) naquela sala de espera e arriscar ter um apêndice confundido com o menisco de um homônimo desavisado.

A resposta pode ser encontrada na última pesquisa sobre desigualdade econômica nos Estados Unidos. Desde que o Censo americano começou a pesquisar disparidade de renda, a de 2009 foi a mais alta registrada até hoje. Os Estados Unidos agora são medalha de ouro em desigualdade social, entre as potências ocidentais.

A força de trabalho nos Estados Unidos não está produzindo mão de obra com educação suficiente para empregos disponíveis. E, não, os imigrantes não tomam os empregos dos americanos, a não ser em parcelas menos escolarizadas da população, os 10% na base da pirâmide. Os imigrantes não afetam o acesso ao emprego da agonizante classe média americana.

A espertíssima Arianna Huffington, que não perde uma chance de pilotar uma sinergia, está cruzando o país para promover seu novo livro, Third World America: How Our Politicians Are Abandoning the Middle Class and Betraying the American Dream (América de Terceiro Mundo: Como Nossos Políticos Estão Abandonando a Classe Média e Traindo o Sonho Americano). O lançamento do livro foi precedido por uma campanha de publicidade mal disfarçada, na forma de uma seção editorial no bem-sucedido site fundado por Arianna, o Huffington Post. A hipocrisia do título do livro é notável, já que o supracitado sonho é, há décadas, uma fabricação oportunista. Mas a empresária, née Stassinopoulos, que até hoje fala com pesadíssimo sotaque grego e cujo sonho imigrante foi inicialmente recheado pela conta bancária do ex-marido, coloca o dedo na ferida evidente.

A distância entre ricos e pobres nos Estados Unidos vem aumentando desde o fim da década de 70. É uma tendência oposta aos 50 anos anteriores, quando o período pós-Depressão trouxe progressiva igualdade de renda no país. Estes números são acompanhados de uma correspondente desigualdade na educação. Os números do Censo mostram a encruzilhada onde os americanos se dividem por não terem acesso a uma educação pública decente.

Num momento em que o progresso tecnológico exige maior especialização e mais anos de aprendizado em pós-graduação, ergue-se a muralha divisória no país que ainda abriga as melhores universidade do mundo e arrecada o maior número de prêmios Nobel.

Num breve período de desemprego (toc, toc, toc,) eu me vi como boia-fria na redação de uma das mais importantes agências de notícias do mundo. Pois a chefe do meu turno da noite, americana da gema, me pedia ajuda constantemente para soletrar palavras. Em inglês.

Escrevo na sexta-feira anterior à eleição. Espero que os próximos quatro anos produzam vários milhões de brasileiros capazes de soletrar e não apenas de consumir.

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