Subiela recebe homenagem do CineSul

Diretor argentino discute sua obra em encontros com o público, no Rio

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2013 | 02h10

Decorrido todo este tempo - quase 30 anos, a produção é de 1986 -, Eliseo Subiela admite que ainda não entende completamente o filme responsável por sua consagração internacional. Hombre Mirando al Sudeste, com Hugo Soto e Lorenzo Quinteros, narra a complexa relação entre um médico e seu paciente num instituto psiquiátrico. O paciente se apresenta como um ser de outro planeta, que veio à Terra investigar a estupidez humana. O médico, perfeitamente racional, duvida, mas o suposto alienígena, ao se infiltrar em sua vida, o fará duvidar de si mesmo.

Hombre Mirando al Sudeste foi o filme que Eliseo Subiela apresentou ontem à tarde ao público do Rio, numa sessão do CineSul. O evento de cinema que integra as cinematografias ibero-americanas homenageia este ano o diretor argentino de 68 anos (nasceu em 1944). Subiela está adorando sua volta ao Brasil. Antes de fazer seu filme mais famoso, ele veio várias vezes ao País - esteve no Rio e em São Paulo - como diretor de publicidade. Seu primeiro longa, La Conquista del Paraiso, de 1980, passa-se na fronteira brasileira e é falado em portunhol. Jofre Soares, ator mítico do Cinema Novo, faz um dos protagonistas e a música é de Milton Nascimento.

Desde a sua estreia, há 28 anos, Hombre Mirando al Sudeste tem desafiado os críticos. Semiólogos, que trabalham com a linguagem, e psiquiatras, que investigam a mente, não se cansam de propor interpretações para as perturbadoras imagens do filme. Subiela admite que aprende com todos. "Nunca consegui entender direito o filme que fiz. O olhar dos outros tem me ajudado nesta descoberta." Como a ideia do filme surgiu? "Não foi propriamente uma ideia, mas uma imagem. No meu bairro havia esse homem que ficava imobilizado na esquina. Ele olhava numa direção que descobri ser o sudeste. Aquilo excitou minha imaginação. Sempre devaneei sobre o que ele buscava com seu olhar perdido."

O CineSul de 2013 - 20.º Festival Ibero-americano de Cinema e Vídeo - começou na terça-feira e deve mostrar, até dia 16, 110 filmes de 16 países. Dentre eles, 72 produções da América Latina e da Península Ibérica participam das mostras competitivas de ficção (curtas) e documentários (curtas e longas). O Brasil é recordista em números - 26 títulos. O evento se desenrola na Cinemateca do MAM e no Centro Cultural Banco do Brasil, na Candelária. O homenageado deste ano é Subiela, que já apresentou Hombre Mirando al Sudeste e, no domingo, participa de outro encontro com o público, após exibir seu trabalho mais recente, Paisajes Devorados. O filme, segundo o autor, não deixa de ser um prolongamento, ou desdobramento, de Hombre Mirando. Conta a história do interno de um instituto psiquiátrico que se apresenta como um famoso cineasta desaparecido durante a repressão dos anos 1970.

O papel é interpretado por Fernando Birri, ele próprio diretor e um ícone do cinema da América Latina. Afetuosamente, Subiela diz que Birri é mais louco que o personagem. E acrescenta - "É um ser humano inigualável, eu diria que ele, como pessoa, é sua maior obra". Subiela conta que acaba de fazer uma adaptação de Hombre Mirando para o teatro, apresentada pelo interior da Argentina e no Uruguai. A acolhida do público, principalmente dos jovens, foi algo que aqueceu seu coração. Ele arrisca uma interpretação. "O mundo mudou muito desde o filme, mas na essência tudo continua na mesma e até piorou."

Por mais projeção que Hombre Mirando al Sudeste tenha lhe dado, Subiela guarda um carinho especial por O Lado Escuro do Coração, de 1992. Inspirado por poemas de Mario Benedetti, Juan Gelman e Oliverio Girondo, o filme conta a história de um poeta, interpretado por Dario Grandinetti, que busca a mítica mulher ideal, ao mesmo tempo que recebe visitas periódicas da Morte. O cinema de Subiela tem uma dimensão particular - mítica. Hombre ganhou o prêmio do público na Mostra de São Paulo de 1987. Em seu Dicionário de Cineastas, Rubens Ewald diz que parece ficção científica, mas é um mergulho profundo na discussão da natureza humana. Abissal, visceral. É esse homem, um grande artista, que está sendo homenageado no Rio.

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