Suassuna ilumina o Brasil com suas cores

Se fosse necessária uma imagem para ilustrar o Brasil, bastaria uma das iluminogravuras de Ariano Suassuna. Nada define mais a paisagem, o tônus, as cores de país novo e a natureza de ser brasileiro. É surpreendente que um autor que escreva o Brasil como ninguém seja também capaz de desenhar o Brasil. Mas pouca gente do Sul sabe disso. Porque os dois álbuns que ele gravou e coloriu à mão nos anos 80 estavam guardados feito relíquia em duas caixas de madeira, cada uma contendo dez pranchas. Um dos álbuns, de 1980, chama-se Sonetos de Mote Alheio. O outro, feito cinco anos depois, tem exatamente a tradução de seu nome, Sonetos de Albano Cervonegro - em tapuia, a tradução de Suassuna é veado negro, e Albano é variação de albino, do latim albus. Eles foram impressos semi-artesanalmente na Universidade de Pernambuco - só o branco e o preto, o resto Suassuna coloriu à mão - com letras manuscritas em folhas soltas e tiragem de 50 exemplares. Hoje, esgotados, podem ser encontrados em sebo por quantias que variam de US$ 1.000 a US$ 2.000. A novidade é que agora o Sesc de Pernambuco oferece a R$ 5,00 as 20 iluminogravuras impressas num folheto que foi catálogo da mostra das pranchas. Os Cadernos de Literatura sobre Suassuna que saem este mês só trazem meia dúzia delas. A iluminogravura é um sonho do Movimento Armorial, criado por ele, que explica: "Unir texto literário e imagem num só emblema, para que a literatura, a tapeçaria, a gravura, a cerâmica e a escultura falem, todas, através de imagens concretas, firmes e brilhantes, verdadeiras insígnias das coisas." Desenhadas, gravadas, iluminadas sobre superfícies de pedra, de barro-queimado, de tecido, couro, papel, essas imagens representam a estética armorial. "Iluminogravura", assim como "Armorial"e "Romançal", variação musical do movimento vinculado à rabeca e à viola, é um neologismo criado por Suassuana. Ele uniu ilumina e gravura e remonta, como Armorial e Romançal, ao medievalismo. O selo do CD que traz a própria voz de Suassuna lendo seus textos é Ancestral. "Isso não quer dizer que o movimento armorial do Nordeste queira copiar a Idade Média européia", ele reage. "Armorial está ligado aos esmaltes da heráldica, pintados em metal ou esculpidos em pedra com animais fabulosos sempre cercados de sóis, luas, estrelas..." Suassuana é apaixonado pela heráldica sertaneja e tem no livro Ferros do Cariri um de seus orgulhos. "Desenhei o alfabeto inteiro de acordo com os ferros", explica, adotando o ferro de sua família como assinatura. Venha da xilogravura popular, da litografia, da arte pré-histórica ou rupestre, dos portões do barroco brasileiro, dos brasões e das bandeiras, as 20 iluminuras deste folheto formam um documento precioso. Suassuna explica: "Criei um negócio que tem dois nomes, estilogravura e iluminogravura. Estilogravura é em preto-e-branco, mesma técnica de J. Borges, poeta e gravador, que fazia pobremente sua arte nobre, só com tábua e canivete. Aí eu pinto à mão e vira iluminogravura, partindo da idéia da iluminura medieval, onde os monges faziam o texto e ilustravam. Eu faço a mesma coisa." O professor de Estética e História da Arte da Universidade Federal do Rio Grande do Norte Carlos Newton Júnior explica que na Península Ibérica eram comuns figuras de monstros, bestas-feras, dragões, grifos e outros animais alados, bem como um repertório de imagens fantásticas de inspiração árabe. "Tudo pintado com contornos fortes e cores vivas, principalmente o amarelo-ouro." Ele lembra que a interação texto-imagem existe em Suassuana desde o Romance d´A Pedra do Reino. O próprio protagonista-narrador, Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, anexa gravuras aos autos do processo que o persegue. A autoria das gravuras é atribuída a um Quaderna que é Taparíca Pajeú, um dos irmãos-bastardos do narrador. Esses dois álbuns juntos apresentados agora no folheto são uma espécie de autobiografia poética, como diz Newton Júnior na introdução. É o universo armorial. Usando letras baseadas nos ferros de marcar gado e na caligrafia das escrituras sertanejas do século 18, ele escreveu e ilustrou os sonetos que compõem o folheto. Eles remontam à chegada dos antepassados vindos da Beira-Alta, à nostalgia do mar, ao planalto sertanejo, ao sertão que é marca do enigma do mundo, ao mito sertanejo da morte, à fusão do enigma e da morte ao amor, e à porta para Deus.

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