Suassuna autografa sua primeira prosa de ficção

Em 1956, quando começava a saborear o sucesso de O Auto da Compadecida, peça teatral escrita no ano anterior, Ariano Suassuna decidiu se aventurar na prosa de ficção - até então, só havia produzido poesia e dramaturgia. "Eu estava um pouco intimidado pelo sonho e pelo impulso que o determinara", comenta ele, que já começava a sonhar com aquele que, depois, seria o Romance d´A Pedra do Reino, obra fundamental na literatura brasileira. Terminou escrevendo A História do Amor de Fernando e Isaura (José Olympio), uma versão brasileira do Romance de Tristão e Isolda, que será lançado hoje à noite, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, com a presença do próprio autor.A idéia foi sugerida por um amigo ilustre, o artista plástico Francisco Brennand, interessado em ilustrar uma versão nacional da obra imortalizada por Joseph Bédier. "Aproveitei, então, para avaliar e exercitar , numa história curta, as forças de que dispunha para a empresa", comenta Suassuna, que criou uma paixão proibida, ambientada no século passado e no Nordeste brasileiro, com uma escala intermediária na Minas Gerais do século 19.O escritor paraibano conservou, no entanto, a estrutura narrativa e os episódios da lenda original. Curiosamente, a obra é, até hoje, o único romance de Suassuna que não se passa na Paraíba e, ao contrário da característica marcante de sua produção, o sertão encontra-se praticamente ausente da narrativa - Alagoas e seu mar exuberante é o cenário em que se passa boa parte das ações.Suassuna sempre tratou com muito cuidado A História de Amor de Fernando e Isaura, a ponto de, embora escrita em 1956, a obra só foi publicada em 1994 pela Bagaço, uma pequena editora do Recife. Assim, a projeção garantida agora pela José Olympio confere ao livro um status de lançamento nacional.No prefácio escrito para aquela primeira edição, o escritor revelou sua preocupação com a receptividade do público. "Não sei que interesse haverá, principalmente para a juventude, numa história tão fora de moda quanto esta", observou. "Os conflitos que, por causa da paixão, atormentam, aqui, os personagens, provavelmente não serão nem sequer entendidos pela geração formada por educadores que procuram fechar os olhos até para a realidade monstruosa do crime, contanto que não sejam forçados a admitir a verdade de qualquer norma moral."Seja como for, Suassuna já revela em sua primeira incursão pela ficção em prosa uma trama entrelaçada. "Mais do que simples ´acasos´, o que se percebe por trás dos acontecimentos aqui narrados é o trabalho silencioso do Destino, a tecer sua complexa rede de sortilégios e embustes, preparando armadilhas das quais ninguém se encontra a salvo", escreve Carlos Newton Júnior na nova apresentação. Para ele, o escritor cria uma atmosfera de tragédia grega que não existe no romance de Bédier, o que lhe confere a originalidade necessária a qualquer obra de arte.A sessão de autógrafos de hoje faz parte da homenagem feita pelo vereador Francisco Chagas que, amanhã, entrega ao escritor, no Salão Nobre da Câmara Municipal, o título de Cidadão Paulistano. A História do Amor de Fernando e Isaura. Editora José Olympio. 176 págs. R$ 25.Livraria Cultura. Avenida Paulista, 2.073, 3170-4033, Conj. Nacional. 4.ª, 18h30

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