Sua poesia vem das ruas do Brooklyn

Aos 15 anos, Jay-Z começou a traficar crack, droga derivada da cocaína. "O crack chegou para transformar a vida das pessoas", escreve em Decoded. "As crianças começaram a vender a droga e a pagar as contas em casa." Jay-Z transformou a rua em lar. No inverno ele vestia o uniforme dos traficantes: casaco puff, calça baggy e botas de construção civil. Com essas roupas - sempre largas -, o traficante podia "esconder as armas e aguentar o frio nas ruas". (Para se ter uma ideia da influência desse período, a maioria dos negros norte-americanos usa atualmente aquela vestimenta criada pelos traficantes e adotada pelos rappers.)

Francisco Quinteiro Pires, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2010 | 00h00

As letras metafóricas do rapper Jay-Z recitariam essa experiência dolorosa resumida na obsessão pelo dinheiro. Para ele, a ascensão e a queda do traficante é uma metáfora aplicável à vida de qualquer indivíduo. Embora critique o racismo nos EUA, ele acredita no sonho norte-americano. Para o compositor, as pessoas podem crescer apoiadas no próprio talento, apesar das circunstâncias injustas. Ele não tem pudor de exibir os frutos desse sucesso, usando sobre a camisa com o rosto de Che Guevara correntes feitas de ouro e diamantes. "Eu me considero revolucionário porque me fiz milionário em uma sociedade racista." Os críticos o acusam de ter perdido o direito de falar dos negros pobres após enriquecer. Ele responde que "dinheiro e poder não mudam o indivíduo, apenas expõem com mais força o seu verdadeiro eu". Ele não se esquece que sua juventude foi forjada no Brooklyn. A poesia milionária de Jay-Z esgota se ele ignora o seu grande professor: as ruas.

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