SUA CASA SE TORNOU UM POSTO DE SOLIDARIEDADE

E de informação quando Caetano e Gil foram presos, em 68

TOM ZÉ , ESPECIAL PARA O ESTADO, TOM ZÉ, 76 ANOS, É COMPOSITOR, , CANTOR, INSTRUMENTISTA, BAIANO DA CIDADE DE IRARÁ, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2012 | 02h06

A postura de dona Canô trazia aquela espécie de força matriarcal que a mulher tem no mundo de cada família do Recôncavo Baiano. E nós, que vivíamos ali perto, começamos a sentir isso no dia a dia de Canô assim que o pessoal foi chamar Maria Bethânia para participar do espetáculo Opinião.

O jeito que Dona Canô administrava as visitas, a forma como falava com elas, sua precisão em cada colocação... Ela recebia com carinho cada pessoa como se fosse única e a gente de fora já começava a sentir isso como algo natural.

Quando os meninos Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos pela ditadura, em 1968, ela deixou de ser só casa - porque Canô sempre foi o prolongamento da casa - e se tornou uma espécie de país, um Posto Avançado de Informação e Solidariedade. E passou então a apresentar uma dureza em sua fisionomia. Havia uma aflição em seu rosto, uma expressão que trazia muito mais firmeza do que dor. E quando os meninos voltaram do exílio de Londres, a casa de Canô virou então um Ministério das Relações Exteriores. Canô se metamorfoseara. O destino a levava a ser mãe de um sentimento nacional e a casa que já era cheia passou a superlotar. Na Bahia é assim: quando uma pessoa chega na hora do almoço, ela almoça também. O ministério que ela assumia tinha todos os prepostos: as filhas mais velhas ajudavam na cozinha, pessoas faziam reuniões na varanda, outra roda se formava na escada. A frente da casa ganhava outro grupo de pessoas e a vizinha abria a porta, saía para fora e se tornava ela também uma Dona Canô. Era assim, Canô se multiplicava. Cada vizinho e cada parente queria também ser Canô.

Tudo o que Caetano fez depois parece ter sido tirado dos corredores daquela casa. Foi de lá que ele levou a força do pai e da mãe. Como ele canta em No Dia Em Que Eu Vim-Me Embora: "No dia em que eu vim-me embora, minha mãe chorava em ai, minha irmã chorava em ui. E eu nem olhava pra trás. No dia que eu vim-me embora, não teve nada de mais. Mala de couro forrada com pano forte, brim cáqui. Minha avó já quase morta, minha mãe até a porta, minha irmã até a rua e até o porto meu pai. O qual não disse palavra durante todo o caminho. E quando eu me vi sozinho, vi que não entendia nada. Nem de pro que eu ia indo, nem dos sonhos que eu sonhava. Senti apenas que a mala de couro que eu carregava, embora estando forrada, fedia, cheirava mal. Afora isto ia indo, atravessando, seguindo. Nem chorando, nem sorrindo, sozinho pra Capital. Nem chorando nem sorrindo, sozinho pra Capital, sozinho pra Capital, sozinho pra Capital, sozinho pra Capital".

Caetano só não podia imaginar que aquele navio que cantara era a própria Dona Canô, que dava uma volta inteira no tempo fazendo a comida para alimentar uma nação inteira.

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