Sua carpintaria torna tudo fluido e delicioso de ver

ANÁLISE: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

30 Abril 2013 | 02h09

Agnès Jaoui não é só cineasta. É cantora, atriz, escritora e roteirista. Além de uma bela mulher. Teve uma de suas peças de teatro, Um Ar de Família, adaptada para o cinema por Cédric Klapisch. A quatro mãos com seu parceiro habitual e companheiro, Jean-Pierre Bacri, escreve dois roteiros para o mestre dos mestres, Alain Resnais - o de Smoking/No Smoking e o de Amores Parisienses. Detalhe: nessa comédia coral de Resnais ela é, além da autora do script, uma das intérpretes.

É com o surpreendente O Gosto dos Outros que Agnès estreia também na direção. Seguiram-se outros três filmes, Uma Questão de Imagem (2003), Parlez-moi de la Pluie (2008) e este Além do Arco-Íris, de 2013. Curiosamente, apesar do seu background cultural, e de sua origem, o cinema de Agnès Jaoui não padece de modo algum de algum tipo de intelectualismo. Aqui, cabe uma nota: o cinema pode (e talvez deva) ser bem embasado do ponto de vista intelectual. O que ele não deve é ostentar referências, que se colocam à frente do filme e às vezes o encobrem.

Desse modo, talvez Castella, o "herói" de O Gosto dos Outros, seja simbólico da visão de mundo de Agnès. Castella (Jean-Pierre Bacri) é um homem de empresa com pouco contato com as artes. Ao assistir a uma representação de Berenice, ele se toma de amores não apenas pela peça de Racine, mas pela atriz que interpreta o papel principal, Clara (Anne Alvaro). Temos aí o tema do descentramento - alguém que não liga para a arte e, de repente, se vê jogado numa situação que o sensibiliza. Mas também há uma carpintaria do texto e da realização que torna tudo tão fluido e delicioso de ver. A obra de Jaoui é inspirada e, ao mesmo tempo, muito controlada. O que lhe vale a crítica, talvez injusta, dos Cahiers du Cinéma, que não deixa espaço para o aleatório. Impossível agradar a todos.

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