Strindberg renasce nas telas, em DV D

Ingmar Bergman disse certa vez que não era possível ser um diretor sueco sem pagar tributo à grande arte de Johan August Strindberg. O dramaturgo foi uma de suas fontes de influência. Para muitos críticos e, para o próprio Bergman, talvez a maior. Bergman, nos filmes, falou sobre as mulheres, sobre os tormentos do sexo e o silêncio de Deus. Alimentou seu cinema do teatro que, repetidamente, botou no palco, como encenador. Dirigiu Senhorita Julia no teatro, mas quem transpôs a peça famosa para o cinema, na Suécia, foi Alf Sjoberg. Fez um filme que marcou época, no começo dos anos 50, por suprimir o flash-back tradicional e por inaugurar um procedimento dramático que o próprio Bergman haveria de seguir, mais para o fim daquela mesma década. Em Morangos Silvestres, como na Senhorita Julia de Sjoberg, passado e presente coexistem nas mesmas imagens. O diretor gaúcho Sérgio Silva lança este ano seu novo filme, o primeiro que ele faz, após Anahy de las Missiones. Noite de São João baseia-se na peça Senhorita Julia, transpondo sua ação para as festas de junho, no Rio Grande do Sul. A diferença é fundamental. Senhorita Julia passa-se na noite que assinala a chegada do verão à Suécia. Instala-se um clima de carnaval. Silva substitui o calor pelo frio e arma sua festa ao redor da fogueira, mantendo-se fiel à escrita de Strindberg, cujos personagens agem como animais ferozes que se despedaçam, até que um deles tomba, aniquilado. Você não precisa esperar pelo segundo semestre, quando o filme estrear, para ver Senhorita Julia na tela. A Imagem lançou em vídeo e DVD no País o filme que Mike Figgis adaptou da peça. Chama-se DDesejos Proibidos de Miss Julie. Figgis construi sua carreira em Hollywood por meio de filmes como o thriller Justiça Cega, com Richard Gere e Andy Garcia, ou Despedida em Las Vegas, que deu o Oscar para Nicolas Cage, numa daquelas sistemáticas injustiças que caracterizam a Academia de Hollywood. Não que Cage não merecesse o prêmio, mas sua companheira de elenco, Elisabeth Shue, merecia mais ainda. O Oscar talvez fizesse deslanchar a carreira dessa atriz de grande potencial, além de mulher bonita. Há gente, como se diz, que não nasce com a boa estrela. Seus filmes hollywoodianos são apreciáveis, alguns muito bons, mas Figgis não andava contente com a carreira. Queria ousar mais, experimentar mais. Fez um filme chamado Timecode, dividindo a tela em várias partes para contar a mesma história, simultaneamente, do ângulo de diversos personagens. O filme é muito interessante, mas passou só na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, há alguns anos, e sumiu. Figgis tem outro projeto parecido, que ainda não conseguiu concretizar. Quer dividir a tela em duas partes e contar duas histórias ao mesmo tempo. Uma normalmente, a outra, de trás para a frente, até o momento, no meio do filme, em que as duas tramas se fundem e vigora só uma tela ampla. Há divisões da tela em Miss Julie. Representam uma verdadeira obsessão do diretor. Num momento particularmente forte, Júlia e Johan fazem sexo e a tela divide-se em duas para mostrar a expressão de ambos durante o ato. Júlia e Johan poderiam ser comparados, quem sabe, a Romeu e Julieta, se a história dos dois não tivesse outras implicações (complicações?) de ordem moral e social. Júlia é a patroa, Johan o criado e eles se entregam à sua paixão durante esta breve noite de loucuras. Há uma terceira personagem em cena, Cristina, que se mostra muito intransigente em suas ponderações. Como pode uma mulher da casta de Júlia entregar-se ao criado? Ela se entrega e com tanta intensidade que Johan, querendo humilhá-la, diz que nenhuma serva teria se sujeitado tanto. O tema, portanto, é o desejo, o sexo. Mas também é a luta de classes. Johan pede a Júlia que roube dinheiro de seu pai, o conde. Quer usar a mulher para realizar seu sonho de construir um hotel. Sonha com a respeitabilidade, a riqueza, até um título de nobre. Até pela origem teatral, DDesejos Proibidos de Miss Julie é um filme muito dialogado. O que os personagens dizem nunca é irrelevante. São reflexões profundas sobre sexo, dinheiro, poder. Figgis é um grande diretor de atores, que o digam Nicolas Cage e Elisabeth Shue. Confirma-o agora. Você até poderia imaginar que Heather Graham e Peter Mullan não eram as melhores escolhas para o papel. Mullan, de Meu Nome é Joe, revela-se sórdido e manipulador, Heather olha para o baixo ventre dele e transmite verdadeira dor com o olhar. Pode não ser um grande filme (e não é mesmo), mas vale a pena acompanhar o dilaceramento dessas figuras até que uma delas tomba e a vida recomeça da mesma forma, na mesma estrutura social de sempre, para as restantes. Figgis, você sabe, é músico. Gosta de criar, ele próprio, as partituras de seus filmes. Há momentos de DDesejos Proibidos de Miss Julie em que você é capaz de jurar que a música é de Carl Orff ou Bela Bartok. A música também expressa a intensidade dos conflitos desencadeados por esses desejos que são mortais, além de proibidos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.