Strindberg e a violência das relações

Com Alessandra Negrini e Armando Babaioff, Walter Lima Jr. estreia a sua Senhorita Júlia

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2012 | 03h09

Walter Lima Jr. mistura os verbos ao se referir à peça que estreou semana passada, no Rio - fala "filmar" no lugar de "encenar". Alessandra Negrini, protagonista de A Propósito de Senhorita Júlia, acha que o diretor, de 73 anos, 46 de cinema e 21 de teatro, não é encenador: interessa-se mais pelo ator, pelo texto, por achar a verdade do que está sendo dito.

Foi num cinema já há muito extinto em sua cidade, Niterói, no filme de Alf Sjöberg (1903-1980), que ele conheceu a Senhorita Júlia de August Strindberg, o dramaturgo sueco da virada do século 20 cujo centenário de morte marca 2012. Era adolescente. Nunca iria se esquecer daquela mulher.

"Sabe quando você tem um estalo a respeito das coisas?", explica Lima Jr. "Eu devia ter uns 14 anos, o filme era extremamente denso, mas aquilo me despertou uma curiosidade muito grande em relação ao uso dos tempos paralelos. É uma solução muito teatral. Muito tempo depois (em 1997), fui usar isso em A Ostra e o Vento."

Não por acaso que Sjöberg, de quem Ingmar Bergman foi assistente - e venceu Cannes em 1951 com o filme -, também vivesse entre o cinema e o teatro. "Cinema é vício. Teatro é um exercício muito grande, que te deixa em contato com seu principal instrumento, que é o ator", diz Lima Jr..

O clássico de Strindberg, que trata de desejo, amor e as diferenças de classes, é de 1888. Júlia é uma moça rica que quer se libertar das convenções morais que lhe foram impostas. Rompe seu noivado e flerta com um empregado de seu pai - numa festa, entre os serviçais, ela dança com ele, na cozinha. Sua noiva, também funcionária da casa, assiste a tudo.

Seu comportamento causa estranheza. Júlia tem mais poder do que ele por ser de classe alta; já ele é homem, é livre dos valores aristocráticos que a sufocam. O pai dela, por sua vez, supera ambos: é um nobre, é o pai, é o empregador. A disputa por poder é acirrada.

A história já virou balé, ópera, especial de TV, foi situada na África, na Inglaterra, no Mississipi e na Irlanda, e nas mais diferentes épocas, cada uma com suas questões sociopolíticas características. Na versão encomendada por Lima Jr. a José Almino, estamos no Brasil, no dia da primeira eleição do presidente Lula, a euforia do proletariado no ar.

Alessandra, que há oito anos foi a Tekla de Credores, seu primeiro Strindberg, personagem acusada de "sugar a inteligência do marido", vê extrema violência nas relações desveladas. "Strindberg maltrata muito as mulheres, é misógino. É difícil, mas é bacana, interessante viver isso", considera. "É bonito ver a fraqueza exposta. É como se fosse; 'Olha só como é o ser humano!' Faz muitos anos que fiz a peça, eu tinha esquecido um pouco como era."

Nascido em Estocolmo em 1849, Strindberg é categorizado como pai do teatro e da literatura escandinava moderna, expoente do chamado realismo psicológico - foi contemporâneo de Freud, da ebulição em torno da psicanálise. "Isso o atingiu de maneira muito forte. Mas era um machista terrível. A atriz, fazendo Strinberg, sofre demais", testemunha Lima Jr..

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