Streaming vira mainstream

Um dos primeiros usos da TV, inventada em 1927, era medicinal: transmitir operações

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

02 de novembro de 2019 | 03h00

Séries de TV, você se lembra, eram enlatados, o lixo tóxico que a sociedade de consumo yankee jogava sobre o terceiro mundo para corrompê-lo e dominar corações, mentes, vender produtos Made in USA e o 'american way of life'.

Na premiação do Globo de Ouro, a galera da televisão costumava ficar nas mesas do fundo e a do cinema nas da frente. A configuração se inverteu. Claire Danes, James Gandolfini, Jon Hamm, Donald Glover, Elisabeth Moss, Peter Dinklage, Phoebe Waller-Bridge, Bryan Cranston, que nunca foram relevantes no cinema, tornaram-se semideuses do audiovisual, como astros de Hollywood.

Então, os atores de cinema viram a bola quicando e correram para as quatro telas (TV, computador, tablet e celular): Kevin Spacey (House of Card), Steve Buscemi (Boardwalk Empire), inicialmente dirigido e produzido por Scorsese, Viola Davis (How to Get Away With Murder), Dustin Hoffman (Lucky), Nicole Kidman, Reese Witherspoon e a diva do cinema, Meryl Streep (Big Little Lies).

A lista não para: Glenn Close, Jeff Daniels, Matthew McConaughey e Woody Harrelson, Wagner Moura, Selton Mello, Alice Braga, James Franco. Séries encerradas, que deixaram uma legião de órfãos, vão para as telonas, invertendo o processo que era norma.

Apesar de Walter White ter morrido em Breaking Bad, o filme El Camino narra o que aconteceu com seu sócio, Jesse. Michael, filho do místico ator James Gandolfini, faz o jovem Tony Soprano numa produção cinematográfica, The Many Saints of Newark. E a família real britânica resolve se hospedar na casa da família Crawler em Downton Abbey – O Filme

Um dos primeiros usos da TV, inventada em 1927, mas produzida depois da Segunda Guerra, era medicinal: transmitir operações da sala de cirurgia de um hospital do Brooklin para estudantes e médicos em outra sala. Meses depois, transmitiram um jogo universitário de beisebol em Nova York entre Columbia e Princeton. 

Em 1947, havia em Manhattan perto de 700 televisores. As 700 famílias assistiam a um show de culinária, Twelfth Night, um game show, Cash & Carry, e lógico beisebol. O mercado publicitário focou as atenções na novidade, vieram os Tonight e Today Shows (NBC), programas vespertinos e educacionais. 

Até então, televisão não era considerada arte, mas entretenimento. Ela costuma ser dividida em três eras de ouro. A primeira começou nos anos 1940 com as três grandes redes, ABC, NBC e CBS, focadas num mesmo público: a família americana. A TV era um móvel de madeira, ficava na sala, e toda família assistia ao mesmo programa. Papai, mamãe, Bobby, Sally e o cachorro de estimação passavam noites em torno dela.

A segunda era nasceu com a TV a cabo, o público específico. Os filhos e adolescentes, na contracultura, passam a questionar valores geracionais e ter o próprio aparelho. Mudou a estética dos shows. Popart, LSD, rock, rebeldia juvenil, Guerra Fria estavam no comando: Túnel do Tempo, Terra dos Gigantes, Batman, Agente 86.

Chegaram USA Network (1971), HBO (1972), Showtime (1976), Fox (1986), TNT (1988), a TV paga, livre das imposições do rigoroso FCC, órgão regulador e censura da área de telecomunicações e radiodifusão dos Estados Unidos desde 1934 (Comissão Federal de Comunicações). Nudez, algo proibitivo na TV aberta, virou comum, quase uma norma na TV paga. Assim como cigarro, drogas, bebida e, como gostam de falar, “linguagem chula”.

Muitos afirmam que existem as séries antes e depois de Família Soprano, levada ao ar em 1999 por uma empresa que começou vendendo via cabo programas esportivos e hoje se tornou referência. Que, como dizia o slogan, “it’s not TV, it’s HBO”.

Home Box Office diz tudo. O usuário não precisaria mais se deslocar até uma locadora de vídeo. Teria em casa o produto via cabo. A evolução seguiu a evolução do audiovisual. Do cabo, virou satélite. E, nessa revolução, um produto cujo protagonista era estranho, como todos nós.

Assim se dá a terceira era de ouro. Sopranos estreou e foi um acontecimento. HBO passou a ter índices de audiência de TV aberta. Passou a ser comentada em todas as rodas, revistas. Diziam: enfim, a magia da literatura, com seus personagens complexos e contraditórios, foi para a televisão. 

Soprano surgiu com outra novidade, o DVD. Então, as produtoras poderiam vender discos em pacotes de temporadas ou alugá-las em locadoras. Teriam mais dinheiro em caixa, e o público não precisava mais esperar o próximo episódio. 

Outra novidade, o showrunner: quem manda é o dono da ideia, chefe dos roteiristas, não mais o produtor. Em apenas num episódio, a HBO interferiu na trama, quando Tony mata com as próprias mãos um traidor na primeira temporada. Arrependeu-se e nunca mais palpitou.

A fila de personagens estranhos e complexos começou a aumentar. E até 2007, a TV a cabo nos EUA não tinha tradição de série alguma. Depois de Família Soprano, veio Mad Men, no AMC, que foi seguida de Breaking Bad, também no AMC. 

“São todos infelizes, moralmente comprometidos, complicados, profundamente humanos”, escreveu Brett Martin em Homens Difíceis. Como nós, que temos o controle remoto nas mãos.

Mais uma novidade nasceu, o streaming. É possível assistir a mesma série em espaços alternados nas quatro telas. E todos os episódios de uma temporada ficam disponíveis da noite para o dia. 

O pioneirismo coube à Netflix, empresa criada em 1997, como um serviço online de aluguel de DVDs, que viu um aumento inesperado de usuários em 2001. Com o atentado às Torres Gêmeas, a população amedrontada começou a pedir seu entretenimento ao invés de ir buscá-lo nas locadoras.

Com ela nasceram a Prime Video, Hulu, que foi para a Disney com a Fox, Apple, HBO Go, que vira Max, Globoplay, YouTube, e independentes, como Looke, SP Cine, Mubi, Belas Artes (em breve). Streaming vira mainstream. É a quarta era de ouro, ou a implosão da televisão?

Tudo o que sabemos sobre:
série e seriadocinematelevisão

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.