Stravinski por Gustavo Dudamel, momentos de sonho

A arte como "direito humano fundamental". A frase do maestro Gustavo Dudamel resume a primeira lição que os 134 jovens músicos (23 anos, em média) da Orquestra Simón Bolívar nos deixaram em seus três concertos na Sala São Paulo. A população marginalizada de nuestra America, seja na Venezuela, seja no Brasil, que ganha menos de um salário mínimo, também tem direito à música clássica. A arte é tão básica para o ser humano quanto saúde, emprego e educação.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2011 | 00h00

A segunda lição foi que a música clássica precisa sim de astros pops jovens como Dudamel. O Sistema criado pelo maestro Abreu 35 anos atrás operou um triplo milagre: 1) não é só um projeto de inclusão social, mas um modo de fazer a música florescer como necessidade inata nos meninos e adolescentes das periferias das cidades venezuelanas; 2) produz ídolos com espantosa velocidade: o jovem regente assistente Diego Matheuz, de 26 anos, já foi apontado pela revista inglesa Gramophone como um dos próximos grandes talentos da regência a se afirmar mundialmente; e 3) faz música de alta qualidade, por isso é a orquestra latino-americana de maior destaque no mundo.

Aliar inclusão social a qualidade artística não é fácil. Nesse sentido, palmas também para a Sinfônica de Heliópolis, que está próxima do Sistema. Não por acaso, Heliópolis/Isaac e Simón Bolívar/Dudamel escolheram Mahler para mostrar suas armas. A Segunda Sinfonia com Isaac Karabtchevsky, há dois meses na Sala São Paulo, foi de arrepiar. Já Dudamel, que é de fato o maior talento jovem em ação neste momento no mundo - é preciso nos gestos, de uma elegância refinada e ao mesmo tempo um dínamo para seus músicos mesmerizados por seu carisma -, talvez tenha ousado demais com a Sétima. Não por ele, que ensaiou e regeu de cor todas as peças dos dois concertos. Mas pelos músicos, que titubearam, principalmente no primeiro movimento, em que a dinâmica se resumiu do mezzo-forte aos quatro "ffff", sem gradações. À medida que a gigantesca sinfonia prosseguia, os músicos ganhavam confiança e no fim nem as trompas e a tuba desafinaram. No geral, uma interpretação desequilibrada.

Um músico observou que os instrumentos de cordas deles são de baixa qualidade - sinal de que a orquestra ainda não vive no paraíso, precisa de instrumental melhor. Daí a opção por um exército de cordas - 93 músicos - para fazer frente às madeiras e metais. Uma opulência que nem sempre reverteu em qualidade.

Se, no entanto, a Sétima recebeu leitura mediana na segunda-feira, na noite seguinte os meninos da Simon Bolívar viraram o jogo. Não estivemos ainda no melhor dos mundos em Daphnis et Chloe, de Ravel, obra que exige sutileza e química entre os timbres não alcançadas pelos jovens músicos. As duas obras nacionalistas latino-americanas deixam claro que Villa-Lobos estava milhões de anos-luz à frente de qualquer outro nome em seu tempo. Santa Cruz de Pacairigua, do venezuelano Evencio Castellanos, é superficial; e a Sinfonia Índia do mexicano Carlos Chávez é muito interessante em sua proposta, mas não vai além disso.

O momento mágico aconteceu com O Pássaro de Fogo, de Stravinski. De repente, tudo se equilibrou. Madeiras, irretocáveis; metais incandescentes e precisos; a quase centena de cordas perfeitas; e um maestro em pleno estado de graça. Gustavo Dudamel provou, naqueles minutos de sonho, que não é só excepcional como maestro. É de fato a celebridade que a combalida indústria fonográfica tanto precisa, e o ídolo pop que a vida musical internacional necessita para atrair novos públicos de faixas etárias mais baixas.

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