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Stoppard e o acaso

Considerada sua obra-prima, Arcadia volta aos palcos, agora em Nova York

Patricia Cohen, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2011 | 00h00

Tom Stoppard, tendo chegado de Londres a Nova York apenas algumas horas antes, ainda não tinha visto nenhum ensaio completo de sua peça Arcadia, prevista para estrear na quinta passada na Broadway, no Ethel Barrymore Theater. Mas ele já tinha alguns reparos em mente.

"Quero tirar três minutos do primeiro ato", disse, sentado no lado de fora de seu hotel no Soho, num anoitecer recente. "Não parece muito, mas faz diferença." O problema, disse ele, tanto em 1993, quando Arcadia foi encenada pela primeira vez em Londres, como dois anos atrás, quando sua reencenação recebeu elogios rasgados naquela cidade, foi que "nunca imaginou como fazê-lo". A dificuldade de achar as linhas para cortar não surpreende. Para muitos críticos, Arcadia é a obra-prima de Stoppard, a mistura perfeita de intelecto e emoção, graça e pesar.

Ambientada entre 1809 e o presente numa casa de campo em Derbyshire, ela oferece um mistério para dois acadêmicos que tentam descobrir se uma mistura volátil de sexo e poesia levou a um duelo naquele local quase 200 anos antes. Durante os anos 1990, foi uma das peças mais produzidas mundo afora.

Mesmo assim, aqueles três minutos o incomodam. "Quando você escreve, faz um certo tipo de música na cabeça. Há um ritmo, uma pulsação. Escrevo mais por esse ritmo do que pelo processo psicológico", informou Stoppard, que ganhou um Oscar com seu roteiro para o filme Shakespeare Apaixonado.

David Leveaux, que está dirigindo a reencenação em NY como fez em Londres, explicou mais tarde que, se se perder esse ritmo, isso pode afetar a resposta emocional, em particular numa peça dessa complexidade. "Não queremos um momento em Arcadia em que o espectador relaxe." Após uma semana de ensaios, diretor e autor decidiram esperar pelas pré-estreias para ver como o público reagia antes de fazer algum corte.

Stoppard pode se situar confortavelmente entre os grandes dramaturgos ingleses, mas como Leveaux lembrou: "Ele se considera acima de tudo um humorista. É um lembrete vivo para os atores não sucumbirem à solenidade e à gravidade". Com seus cabelos longos grisalhos tipicamente desgrenhados, Stoppard parece mais jovem que seus 73 anos. Sua perversidade desponta em ideias sérias - muitas vezes intimidantes - que habitam suas peças.

Quando The Coast of Utopia, sua trilogia sobre a Rússia do século 19, foi produzida no Lincoln Center em 2006, o New York Times montou sua bibliografia preparatória com milhares de páginas. Arcadia, por sua vez, discute interação de algoritmo, mecânica quântica e teoria do caos, que incorpora a noção de que alguma coisa menor que o bater de uma asa de borboleta pode produzir mudanças significativas no futuro. Para a estreia da peça em 1993 Stoppard pediu a um cientista de Oxford para ensinar os conceitos básicos ao elenco.

Um intelectualismo tão formidável nos faz querer melhorar nosso conhecimento sobre Shakespeare e Einstein antes de encontrar o dramaturgo, mas Stoppard descarta essas preocupações. "Você pode ficar todo intelectual e ser metafísico, mas no fim das contas está contando uma história. Gosto da noção de teatro como recreação."

Em vez de chamar a peça Arcadia de sua melhor obra, ele prefere dizer simplesmente que ela foi a mais afortunada. "No fim das contas, é preciso se sentir afortunado porque as coisas deram certo. Eu me senti assim nesses anos todos em que estive escrevendo peças", concluiu Tom Stoppard. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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