Carlo Allegri/Reuters
Carlo Allegri/Reuters

Steven Spielberg, o eterno aventureiro

Cineasta comenta 'As Aventuras de Tintim' e afirma estar trabalhando em 'Jurassic Park 4'

LÚCIA MÜZELL, ESPECIAL PARA O ESTADO

15 de janeiro de 2012 | 03h10

Nos 28 anos de espera, o diretor Steven Spielberg saboreou o auge da sua carreira e abriu espaço para três estatuetas do Oscars na sua prateleira. Mesmo assim, garante, as histórias de Tintim permaneciam martelando na sua cabeça. Ele apenas não sabia a fórmula ideal para dar vida ao personagem, por quem se apaixonou desde as primeiras tiras - embora não falasse uma palavra em francês.

Quando, enfim, a tecnologia imaginada por Spielberg nasceu - motion capture 3D -, foi a hora de retirar a poeira dos álbuns e realizar o antigo sonho: dar voz e movimento a Tintim.

O resultado é um filme recheado de humor, suspense e muita aventura. Na première de As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne, em Paris, Spielberg concedeu a seguinte entrevista ao Estado.

Os herdeiros de Hergé são famosos por acompanharem de perto cada referência feita ao escritor. Como lidou com isso?

A família de Hergé nos deixou completamente à vontade. Só tivemos que mostrar os desenhos dos personagens para lhes assegurar que eles estavam o mais próximo possível dos desenhos de Hergé. Mostramos todas as mudanças que fazíamos e eles nos davam conselhos. Tivemos uma excelente relação com a família.

Reproduzir com fidelidade a personalidade e as histórias originais de Tintim foi uma grande preocupação na produção do filme. Onde está o toque pessoal de Spielberg?

Acho que é a forma como eu mantive a atenção de Tintim no trabalho, na forma como ele é focado nos compromissos, que eram desvendar os mistérios das maquetes de navio e descobrir quem roubou o navio dele. Ou seja, desvendar o mistério do unicórnio. E é assim que eu sou quando faço um filme, eu me foco muito nos detalhes do meu trabalho. Tenho muitos tarefas, e todas exigem de mim uma tremenda concentração. Tintim tem o mesmo tipo de "foco a laser", e eu falo disso quando conto a história.

O que achou da experiência em animação 3D, já que nunca havia trabalhado com animação?

Gostei muito. Sempre soube que era uma boa ferramenta, mas eu nunca achei que fosse uma grande vantagem. Por isso, não puxei o 3D para chamar mais a atenção do que o resto, como muitos fazem. Na realidade, fiz o contrário. Deixei o 3D, numa função secundária. Desta forma, o público não se distrai e continua focado na história.

Você sempre imaginou Tintim como um filme de animação?

Não. No início, nos anos 80, eu pensava que seria um filme "live action". Acho que o que me salvou é que eu ainda não era capaz de fazer um roteiro que me satisfizesse, para que fosse uma boa produção física. Então, mantive tudo em stand by, porque eu não estava encontrando a boa adaptação. Foi assim até eu descobrir esta nova tecnologia, de animação digital. Então pude repensar Tintim de uma forma inteiramente diferente. Felizmente, Peter Jackson entrou a bordo e eu usei a companhia dele - que também fez O Senhor dos Anéis, King Kong e Avatar. Depois, conseguimos escritores maravilhosos, Steven Mofatt, Joe Cornish e Edgar Wright, e finalmente estávamos prontos para fazer um roteiro, passados 20 e tantos anos, desde que eu pensei em fazer isso pela primeira vez. Fiquei muito feliz com tudo isso! Foi praticamente um milagre.

Ao usar a tecnologia motion capture, você se sentiu dirigindo um filme como qualquer outro?

Fazer Tintim foi uma experiência como nenhuma outra na minha carreira. Nunca tinha feito animação antes. Foi preciso usar todo o meu conhecimento de direção de filmes neste processo e, ao mesmo tempo, Tintim me mostrou coisas que eu nunca tinha visto. Me mostrou como controlar cada detalhe, cada aspecto de um filme. Até mesmo quando o filme estava acabado, eu voltei lá e mudei algumas coisas. Você não faz isso com um filme live action. Você não pode recomeçar tudo de novo porque provoca um grande gasto: você precisa trazer os atores, filmar cenas de novo, reconstruir os cenários. Mas com o motion capture, eu poderia fazer tudo de novo, se achasse que poderia ficar ainda melhor.

É por representar uma experiência nova, após tantos anos de carreira, que você está tão entusiasmado com este filme?

Sim, é verdade que estou bastante entusiasmado com o filme. É uma boa história, e Peter Jackson conseguiu trazer Tintim para os fãs na medida certa. Felizmente, ainda teremos mais aventuras de Tintim pela frente.

A semelhança física entre os personagens no livro e no filme é impressionante. Foi a sua principal preocupação como diretor?

Sim. Era minha preocupação não deixar a arte de Hergé ser apagada pela interpretação artística dos personagens dele. Gastamos anos estudando os personagens de Hergé e o estilo dele. As animações tinham que se parecer exatamente como os personagens do livro, especialmente Tintim, que não poderia se parecer com uma caricatura. Ele é o personagem que nós despertamos do livro e transformamos em um garoto real.

Podemos contar com mais filmes de animação de Spielberg?

Sim, mas por enquanto quero fazer outros de Tintim.

Hergé dizia que, por adorar aventuras, gostaria de ter 15 anos para sempre. Essa é uma das semelhanças entre vocês?

Há muitas semelhanças entre nós. Uma delas é esta: adoramos aventuras. Elas nos mantêm jovens e curiosos, porque aventuras fazem de você um adivinhador. Sempre que vejo um grande filme de aventura, há sempre mistério, o que me leva a pensar além do que os personagens estão pensando.

Quando você tinha 15 anos, gostava de viver aventuras?

Não (risos). Gostava de brincar em total segurança. Todas a situações perigosas eram fruto da minha imaginação.

Entre tantas histórias, você escolheu três livros para levar Tintim à telona: O Segredo do Licorne, O Tesouro de Rackham O Terrível e O Caranguejo das Pinças de Ouro.

Peguei elementos de O Caranguejo das Pinças de Ouro para apresentar o capitão Haddock e Tintim, os personagens principais, neste primeiro filme. Adoro histórias de tesouros escondidos. Gosto de voltar a um tempo antigo. Para mim, a produção baseada nesses livros tinha mais histórias, intrigas, comédia. Abordei um pouco de O Tesouro de Rackham O Terrível, mas não a história inteira, que foi guardada para outro filme.

Os próximos livros já foram escolhidos?

Sim e o texto está sendo escrito agora. Mas este mistério só vou revelar na hora certa.

Alguns livros de Tintim foram acusados de racismo e colonialismo. Isso incomoda você?

O único elemento mais sério foi Tintim no Congo, pelo qual o próprio Hergé pediu desculpas. Este é o único livro do qual nem chegarei perto.

As aventuras de Tintim surgiram a partir de 1929. Que tipo de lição ele passa para o público de hoje?

Não acho que seja obra de um período. Acho que é também sobre o nosso tempo. Fala de fidelidade, de cuidar e de apoiar um amigo. Há boas lições em Tintim sobre a arte da amizade.

O personagem não é conhecido nos EUA. Tintim pode conquistar o público americano?

Tintim está em boa posição de ser apresentando, pela primeira vez, para o público dos Estados Unidos. Os americanos não precisam ler um livro que vendeu 200 milhões de cópias, mas que infelizmente não foi publicado nos Estados Unidos, para conhecer uma boa aventura. Há muito tempo, eles são grandes fãs de aventura, e é isso que está sendo levado a eles.

Tintim é um personagem nostálgico. Você também é assim?

Sim, sou muito nostálgico. Gosto de boas histórias de aventura, em filmes ou livros. Quando li o primeiro livro do Tintim, era como se o filme já estivesse diante dos meus olhos. Os livros de Hergé já são um filme de animação.

Como estão os seus projetos?

Estamos trabalhando no roteiro de Jurassic Park 4. Quanto a Indiana Jones, cabe ao George Lucas. Estou esperando a ligação dele dizendo que já imaginou a história.

Você se negou a fazer E.T. 2.

E.T. foi uma experiência maravilhosa. Teve um começo, um meio e um lindo fim. Vou ficar somente com este único filme.

Quer que seus filmes sejam grandes sucessos de bilheteria?

Sempre me preocupo com a audiência. Seria terrível se fizesse um filme e ninguém fosse vê-lo.

Há algum filme que você viu e ficou com ciúmes por não ter feito?

Avatar. É meu filme preferido dos últimos anos. Mas não fico com ciúmes. Só quero sair correndo dali e fazer um novo filme!

AS AVENTURAS DE TINTIM: O SEGREDO DO LICORNE

Gênero: Animação (EUA-Nova Zelândia/2011, 108 minutos).

Classificação: 10 anos. Estreia sexta

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