Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

Steve McCurry lança o calendário Pirelli

Em entrevista, fotojornalista comenta sua técnica de retratar a alma de seus modelos

Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo,

28 de novembro de 2012 | 09h30

RIO - Entre as diversas imagens escolhidas por Steve McCurry para formar o calendário 2013 da Pirelli, destaca-se uma, com a modelo brasileira Adriana Lima: ela é flagrada encostada em uma parede áspera, de cor escura. A própria luz não ajuda a clarear o ambiente, que estaria totalmente sombrio não fosse um detalhe significativo, os olhos da modelo, que brilham como um farol. A foto imediatamente remete ao registro da garota afegã, que McCurry reencontrou 17 anos depois, muito envelhecida mas ainda com um olhar fulgurante.

Apesar da autorreferência, ali se encontra uma espécie de resumo de sua filosofia e de sua técnica profissional. McCurry revela intimidade com retratos posados e muitas de suas imagens não são tão informais como parecem ser. Embora algumas de suas cenas mais interessantes foram, de fato, “encontradas” e não criadas, ele desenvolveu uma forma peculiar para retratar assuntos incomuns. É como se, por algum motivo misterioso, a cena congelasse diante de sua câmera, permitindo-lhe encontrar o melhor ângulo, a luz ideal, o foco no canto certo.

 

Para ele, interessa o todo e não apenas o detalhe. Foi o que norteou sua sessão de fotos realizada no Rio, em maio. Acompanhado de modelos engajadas em causas sociais (a americana Summer Rayne Oakes, por exemplo, bióloga de formação, desenvolve projetos em Moçambique assim como sua compatriota Kyleigh Kuhn apoia empreendimentos educacionais no Afeganistão), ele mapeou o boêmio bairro da Lapa, subindo o morro pelo bondinho e chegando até Santa Teresa.

Caminhou também pelo morro Dona Marta, enquadrando em uma mesma foto o rústico da comunidade com o discutível progresso, representado por arranha-céus ao fundo. Empolgado com o que viu e registrou, McCurry voltou nesta semana aos mesmos locais, para checar sua situação. “Estão praticamente do mesmo jeito, até mesmo as pichações”, disse ele, ainda maravilhado com o desenho da bandeira brasileira em meio a desenhos pintados em um muro da favela. “Eu passaria mais meses por aqui, vasculhando espaços, fazendo mais fotos.”

O misto de arte e sociologia praticado pelo americano encantou suas modelos. “Ele não se preocupou em nos dirigir - aliás, quase não recebíamos orientações”, diverte-se Summer. “O interesse maior era captar o momento”, completou Kyleigh.

Por conta disso, McCurry recebeu de bom grado modelos desabituadas a posar, como a cantora Marisa Monte e a atriz Sônia Braga. Enquanto a primeira participou do instigante jogo de claro/escuro em uma habitação da Lapa, Sônia posou no Parque Lage, raro reduto que combina bela arquitetura com natureza integrada. O largo sorriso da brasileira, aliás, é uma das lembranças que McCurry, o fotógrafo humanista, carrega no coração.

As recordações, aliás, são muitas ao longo da carreira. Afinal, McCurry registrou a guerra entre Irã e Iraque, acompanhou as guerras civis do Líbano e do Camboja, flagrou a insurgência muçulmana nas Filipinas e, ironia do destino, voltou para Nova York, depois de um longo período na China, no dia 10 de setembro de 2001 - na manhã seguinte, registrou, atordoado, os atentados terroristas contra as torres gêmeas, crime que custava a entender enquanto disparava o botão da máquina.

McCurry conversou com o Estado em dois momentos: o primeiro em St. Moritz, na Suíça, há alguns meses, convidado de uma feira de artes visuais. A segunda no Rio, anteontem e ontem pela manhã, antes de participar, à noite, de uma festa de gala, no Pier Mauá.

Qual é seu segredo de fotografar homens, mulheres, crianças, idosos, de forma tão natural?

Não sei dizer ao certo. Creio que é instintivo, pois preciso estabelecer uma forma de contato com a pessoa que pretendo fotografar. Sei que tem de ser rápido pois, passados três minutos, ela começa a olhar no relógio e a perder a naturalidade. Acredito que meu principal canal de contato é o olhar - por ali, estabeleço uma relação de confiança com o fotografado, mesmo que não falemos a mesma língua.

Em muitas imagens feitas para o calendário da Pirelli, impressiona o contraste entre a pele lisa das modelos e os tons contrastantes do local onde posam. Isso foi proposital?

De uma certa forma, sim. Os locais escolhidos têm um sabor particular e meu interesse era mostrar as modelos em meio àquela megalópole tão contrastante. Afinal, não se pode negar que as favelas impressionam, a ponto de se transformarem em um negócio turístico. Conheci diferentes favelas ao redor do mundo mas as do Rio são um microcosmo da sociedade, ou seja, têm restaurantes, bancos, uma rotina típica de uma cidade. Não são lugares amedrontadores e, para mim, como fotógrafo, o que realmente interessa é ter ali as melhores vistas do Rio de Janeiro. Acredito que, num futuro próximo, aqueles pontos serão os mais valorizados da cidade.

Suas fotos comprovam que o senhor não apenas retrata mas oferece um visão sociológica do que é retratado. O senhor poderia descrever sua filosofia fotográfica?

Quando estou nas ruas, meu interesse é mostrar a forma particular como aquelas pessoas se relacionam. No mundo inteiro, temos alguns hábitos que são comuns, como trabalhar, ir a restaurantes etc. Assim, busco a particularidade dessa generalidade, algo que torne aquele lugar e aquelas pessoas únicas no planeta. Sobre o Rio, volto a lembrar das favelas e da forma como vivem como mini sociedade. Estive em lugares muito mais perigosos, como uma favela em Bombaim, na Índia, que intimidaria qualquer visitante pelo cheiro de violência no ar, mas, de repente, tudo aquilo é quebrado quando se observa a forma inocente como brincam as crianças. São essas imagens que busco.

Como foi trabalhar com as modelos e especialmente com as pessoas comuns, que posaram para sua câmera?

Quando trabalho com profissionais ou com pessoas que encontro na rua, tento que a foto seja genuína, que não seja posada. Como a Isabeli Fontana, ela é ótima para trabalhar, pois, além de linda, expressa uma naturalidade. Para mim, o ideal é mostrar algo real, nada forjado. Gosto de evidenciar os detalhes escondidos nas sombras.

O senhor foi convidado pela Kodak para ser um dos últimos profissionais a utilizar os derradeiros rolos de filme. Como foi mudar do negativo para o digital?

Foi fácil para mim. Adoro digital, pois é possível checar e avaliar seu trabalho imediatamente. Fotografo conflitos há muito tempo e, claro, é mais fácil trabalhar com câmeras digitais que, num momento dramático, regulam automaticamente foco, iluminação, permitindo tirar boas fotos em poucos segundos. Quando eu usava filme, chegava a gastar entre 800 e mil rolos para conseguir algo entre 20 e 25 fotos utilizáveis.

O que o inspira a ser fotógrafo de guerra?

Estar presente no momento em que acontece um fato histórico, ver a situação mudar drasticamente de um lugar, isso é fascinante. Também participar de um instante decisivo entre a vida e a morte torna essa atividade muito especial. Estar presente em áreas de conflito é importante. O drama humano nessas áreas não pode ser subestimado e acredito que ser um fotógrafo de guerra que transmite essas emoções através de fotos é uma profissão nobre.

Qual deve ser o seu próximo projeto?

Pretendo realizar um trabalho sobre o budismo. Venho fotografando esse assunto há alguns anos e chegou o momento de fazer uma seleção. Em janeiro, viajo para Mianmar para completar o trabalho. Não sou budista, mas tenho interesse na forma como essas pessoas se relacionam entre si e com a natureza.

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA PIRELLI

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