Stephen King anuncia aposentadoria

Stephen King não mete mais medo. Pelo menos é o que ele mesmo andou dizendo no lançamento, há dias, nos Estados Unidos, de From a Buick 8, o romance que, nas suas palavras, é o último que escreve. Depois de cerca de 40 títulos, Stephen King mais do que nunca se torna uma marca registrada, que vive da venda dos produtos já consagrados, sem novidades.Por que, aos 54 anos, o escritor que vendeu milhões de exemplares desde seu primeiro sucesso, Carrie, em 1974, abandonaria contratos milionários e legiões de fãs? Há várias razões para isso. King tem repetido há tempos, porque ganhou muito, muito mais dinheiro do que poderia gastar e legar aos filhos em várias vidas.King declarou à revista Entertainment Weekly que não vai sentir falta da excitação de ter um livro publicado. Diz: "Claro que não. Sentir falta do quê? Quer dizer, vou até Detroit, autografar num Wal-Mart. Que emoção!" Mais ainda: como o personagem escritor de sucesso em Angústia, ele tem afirmado que agüentar fãs não é mais o que era no começo. Devido ao tipo de histórias que ele escreve, muitos dos fãs são meio pirados, ele já teve de ir à polícia pedir proteção contra gente que ronda sua casa, por exemplo."Vocês viram aquele filme O Dia do Gafanhoto, naquela cena em que estraçalham aquele sujeito? É o show americano das aberrações. Tom Cruise, Bruce Springsteen, Stephen King, John Grisham, Bob Dylan - somos todos aberrações. Somos isso. E as pessoas vêm nos ver". Claro que, ao dizer que vai parar de escrever, Stephen King pode acender mais ainda esse interesse por sua pessoa.Outro motivo que pode ter contribuído para a decisão de King se aposentar seria o acidente que sofreu em 19 de junho de 1999. O escritor passeava por uma estrada rural do Maine quando foi atropelado por uma van que esmagou sua perna direita, quebrou-lhe quatro costelas, fraturou o quadril, prejudicou a coluna vertebral em oito lugares e atingiu gravemente um dos seus pulmões.Não morreu por pouco. Tanto que ele e sua mulher chamam a vida pós-acidente de algo como "A Hora do Bônus". Mas ele hoje diz que está bem, apenas chateado de tanta fisioterapia, tratamentos e operações - e de falar sobre isso. E de dar entrevistas. Quanto à retirada precoce da literatura, resumiu numa frase: "Já matei bastante árvores no mundo".Embora não tenha sido a primeira vez que se fala da saída de cena de Stephen King, parece que desta vez é para valer. Um dos seus editores, Susan Moldow, da editora Scribner´s diz: "Trabalho com Steve desde 1997 e nesse tempo diria que houve umas seis histórias diferentes de que ele iria parar de escrever. Então eu, por uma montanha de razões, quero afastar essa ameaça com um punhado de sal."E Peter Straub, o grande amigo e escritor, com quem King escreveu O Talismã, comentou diante da notícia: "Tenho dificuldade de acreditar nisso... Poderia ser seu último romance, mas deste ano".Também se poderia apontar como uma causa mais remota do ponto final de King o fato dele talvez estar com uma carência de idéias. Em O Apanhador de Sonhos, ele de certa forma repete idéias de Os Estranhos; este último livro, From Buick 8, como ele mesmo afirma, "é o máximo que eu queria chegar a quase me repetir - não é Christine (um livro de 1983), mas é um romance sobre um carro... Quero dizer, a experiência nos diz que cada escritor chega a um ponto em que começa a perder seu poder. E tem de se perguntar: quanto é bastante? Bem, poderia escrever mais alguns livros, mas, para ser honesto, publiquei quase 50 livros até agora. É bem mais do que Norman Mailer jamais publicará."Desde o acidente, King vem insinuando que não queria se tornar uma paródia de si mesmo ou alguém como Harold Robbins que virou uma piada. E parece ter um plano traçado: primeiro, a saída, na semana passada de From a Buick 8. Depois, ele publicará os três últimos episódios da sua série de fantasia de sete volumes, A Torre Negra - a saga de um pistoleiro solitário chamado Roland, que começou há 33 anos. Daí, só papo pro ar.Mas King dá uma esperançazinha aos fãs: "Não vou parar de escrever porque não saberia o que fazer entre as nove da manhã e a uma da tarde todo dia. Mas vou parar de publicar. Não preciso do dinheiro."Ele vai buscar uma comparação no escritor recluso mais famoso dos Estados Unidos: "J.D. Salinger tem feito isso há anos. Há aquela história da mulher que trabalha num banco em New Hampshire, onde Salinger tem uma caixa de depósito. A cada ano, ele vai lá com uma caixa embrulhada, com um original. Ela perguntou: mas nunca vai publicar isso? A resposta: Para quê? É uma dessas histórias de que se diz: se não for verdade, deveria ser."De qualquer modo, From a Buick 8 é uma história para deliciar os fãs: é sobre um carro assombrado numa cidadezinha da Pensilvânia. Ele engole bichos, um policial, à sua volta o clima é glacial, solta um cheiro esquisito. Quando, além disso, solta uma criatura, uma espécie de morcego caolho, as coisas esquentam. Logo em seguida, surge uma coisa tentacular, um pesadelo amarelo. E o carro, cujo nome é uma homenagem a uma música de Bob Dylan, tem outros truques, alguns deles tendo a ver com as almas das pessoas, o Bem e o Mal. Ou seja, o King modelo 2002 é um Fórmula-1 de sustos e arrepios. Mesmo que a linha de montagem vá parar de rodar.

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