Stephen Hough se apresenta na Sala São Paulo nesta quinta-feira

Pianista e compositor tem sir Richard Armstrong como regente

João Luiz Sampaio - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

20 de novembro de 2014 | 02h06

Não espere de Stephen Hough a atitude do músico clássico tradicional. Sim, ele é hoje um dos principais pianistas em atuação. Mas também escreve, interessa-se por tecnologia, mantém um blog constantemente atualizado, pinta, compõe. "Quantas vezes já não ouvimos o clichê de que não há nada que não possamos fazer? Mas, sabe, há alguma verdade nisso. E essa compreensão oferece um senso de liberdade", diz.

Hough está no Brasil, onde, de quinta a sábado, atua como solista da Orquestra Sinfônica do Estado na Sala São Paulo; no domingo, ele também faz recital solo; e, ao longo da semana, participou de master classes. A conversa, então, começa pela música. Com a Osesp, ele interpreta o Concerto para Piano e Orquestra de Schumann. "Não se pode levar em consideração, ao tocá-la, o que já fizeram com ela. A interpretação de uma peça é como um casamento, a relação entre duas pessoas, não uma reunião com muitos convidados."

Para ele, o que torna o concerto de Schumann especial é a sua "proposta quase camerística" - e essa percepção ajuda a definir o próprio Hough como músico. "De Mozart em diante, a ideia do solista no centro da interpretação, com um misto de gênio e virtuosismo, é dominante. Mas não aqui. De todos os grandes concertos do repertório, talvez este seja o único a recusar essa forma. Há uma alma lírica em Schumann, que recusa o óbvio, até mesmo no modo com recria a aura romântica, uma vez que a peça foi escrita para uma pianista, a sua mulher, Clara."

Já no recital de domingo, Hough toca peças de Debussy e Chopin. Uma das marcas de Hough é justamente a forma como combina autores e períodos em seus programas. "Montar um recital é um pouco como o trabalho de um chef de cozinha, que une ingredientes para criar seus pratos. Claro, não é preciso fazer loucuras, mas é preciso evitar ser previsível, para não tirar todo o sentido da criação artística. É preciso frescor não apenas na hora de escolher as peças, mas também quando se pensa o melhor modo de interpretá-las."

No caso de Debussy e Chopin, Hough diz se sentir atraído pela intimidade dos dois autores com o piano. "Isso definitivamente os aproxima. Mas há também diferenças marcantes. Há uma contenção em Chopin, ele jamais permite que os sons saiam do controle. Já em Debussy, a improvisação é fundamental, ele permite que os sons partam em uma jornada de cores e atmosferas. É algo que sempre me espanta."

Renascentista. Hough começou a estudar piano aos 5 anos, mas, na juventude, flertou com diversas possibilidades - até mesmo tornar-se padre, desagradando à família protestante. Desde jovem, interessou-se pelo trabalho de compositor. "Mas chegou um momento em que não conseguia mais escrever e me questionava o tempo todo se eu de fato sabia o que estava fazendo", diz. A dúvida o afastou da música por algum tempo, até que a audição de O Sonho de Gerontius, de Elgar, o puxou de volta. Ele, então, foi para os EUA, onde se formou na Julliard School.

Com o tempo, ele se apaixonou pela pintura - e, em 2012, realizou uma exposição com seus quadros na Broadbent Gallery, em Londres. Recebeu também, em 2001, o Genius Grant da Fundação MacArthur, normalmente destinado a cientistas e intelectuais. E foi um dos primeiros artistas clássicos a lançar um aplicativo para internet, em 2010, dedicado às sonatas de Liszt.

Como compositor, conta que tem trabalhado mais do que as pessoas imaginam. "Estou criando minha terceira sonata para piano. E acabo de entregar, sob encomenda do Wigmore Hall, de Londres, um ciclo de canções para voz e piano. Gravei também, recentemente, uma sonata para violoncelo. E me convidaram, na semana passada, para escrever uma ópera! Realmente, não sei se estou preparado para isso, mas não consegui recusar o convite."

Levando em consideração todas essas facetas, um jornal britânico o chamou de "homem do renascimento". Ele se vê desta forma? "Com certeza, não. Sempre gostei de fazer coisas diferentes. Não há sentido em criar muita coisa sem qualidade, isso é certo. Mas não se pode deixar de tentar por medo de falhar."

OSESP

Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, 16, 3367-9500. Quinta e sexta, 21 h; sáb., 16h30. R$ 36/ R$ 166. Dom., 16 h. R$ 66/ R$ 86.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.