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Steiners

Numa entrevista há alguns anos, Steiner descreveu a leitura como um engajamento moral

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2020 | 02h00

O crítico e ensaísta George Steiner morreu, há dias, com 90 anos de idade. Não duvido que tenha morrido trabalhando. Sua produção era enorme, ninguém da sua geração intelectual foi tão prolixo e publicou tanto. Ele escreveu sobre a alta cultura ocidental e suas contradições, e foi quem melhor examinou, com perspicácia e horror, o grande paradoxo desta civilização ao mesmo tempo sublime e genocida. Para Steiner o grande embate era entre a linguagem como a suprema criação humana e o silêncio da tirania, o silêncio dos fornos de Auschwitz quando os gritos cessavam. 

Steiner, nascido na França, era judeu e, segundo alguns, a parcialidade religiosa às vezes interferia nas suas opiniões. Mas nunca o bastante para invalidar a crítica ao desumano que foi sempre o centro do seu pensamento, ou negar o alcance das suas posições muitas vezes surpreendentes, além da sua criatividade e da sua erudição. Steiner nem sempre era uma leitura fácil. Você precisava estar disposto a acompanhá-lo em seus saltos estonteantes de Sócrates a Beckett num mesmo parágrafo, por exemplo, ou resignar-se a apenas saborear a prosa. De qualquer maneira, não estaria perdendo seu tempo.

Numa entrevista há alguns anos, Steiner descreveu a leitura como um engajamento moral, como o compromisso com uma visão que nos impede de passar pela barbárie sem vê-la, ou num silêncio cúmplice. É a linguagem que nos impele não apenas para compreender o mundo, mas para fazer dessa compreensão uma forma de escolha moral, uma opção pelo racional e pelo humano mesmo que a escuridão nos puxe para o outro lado.

Digressão tipo nada a ver: lembra de A Doce Vida do Fellini? Marcello Mastroianni é um jornalista entregue às doçuras da vida em Roma. Suas amizades são todas das altas rodas e do mundo frívolo das celebridades, com uma exceção, um intelectual chamado Steiner que Marcello admira e com o qual tem um convívio inteligente. O Steiner do Fellini poderia ser o George Steiner da nossa admiração, alguém com quem conversar e que nos ilumine. No filme, a notícia do suicídio de Steiner, depois de matar os filhos, choca o Marcello e choca a plateia. Felizmente, o George Steiner nos deixou 90 anos de inteligência acumulada, para continuar nossa conversa contra a escuridão. 

 

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