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Stand up gastronômico

Deve ter sido a primeira vez que, num bom restaurante em Paris, alguém jantou em pé

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2017 | 02h00

Eu conhecia a casa, tinha estado lá uma dúzia de vezes, e sabia que, para o jantar, era prudente fazer reserva. Afinal, La Cerisaie está instalado num espaço miúdo, equivalente, se tanto, a uma dessas garagens antigas, concebidas para acondicionar um carrão dos anos 50. Cabem ali 11 mesinhas, grudadas umas nas outras, com espaço para dois comensais, desde que não muito avantajados. Na sala sempre cheia - não me lembro de ter visto ali uma só mesa vazia -, os fregueses literalmente se acotovelam, dispostos ombro a ombro como na classe econômica de um avião.

 

Não se trata, porém, de masoquistas, como aqueles pobres romeiros que, em Fátima, esfolam os joelhos na pedra do chão no afã de faxinarem suas almas pecadoras. Quem volta ao Cerisaie, no nº 70 do boulevard Edgar Quinet, em Montparnasse, sabe que o relativo desconforto será largamente ressarcido com gostosuras de uma refinada cozinha do sudoeste francês. Quando menos, não há ali o risco de ingerir alguma coisa que, minutos antes de fumegar, tiritava no freezer. La Cerisaie, posso garantir, passa ao largo da praga, cada vez mais disseminada em Paris, da comida congelada, produzida alhures em escala industrial.

Eu já salivava quando desembarquei em Paris para duas semanas de desbragada vadiagem. Mal deixei a mala no apartamento em Belleville e fui pedir reserva em La Cerisaie. Disposto a me proporcionar um gran finale de temporada, inscrevi meu nome entre os felizardos que lá estariam na noite de uma então remota sexta-feira, com o cuidado de garantir mesa no segundo turno, o das 21 horas, para não ter que arrematar o repasto sob os olhares famélicos de quem espera a sua vez.

Na véspera de deixar Paris, já despertei em clima de gastronomia, prelibando as trombetas que logo mais haveriam de soar em minhas jubilosas papilas gustativas. No final da tarde, indócil, fiquei zanzando em Montparnasse. Na impaciência talvez esteja a explicação para a trapalhada que iria me custar descargas de adrenalina. Minha encanecida cabeça programara o corpo para jantar a horas tais, e lhe deu trabalho entretê-lo na arrastada espera. 

Cioso da pontualidade, tomei o rumo do restaurante com o que me pareceu ser uma boa antecedência. Pelas minhas contas, faltavam ainda 15 minutos no momento em que lá me apresentei, sorridente. O sorriso desapareceu quando veio receber-me madame Maryse Lalanne, que, ao lado do marido, Cyril, comanda a casa, ela na sala, ele na cozinha, com a ajuda apenas da amável e eficiente Cécile Desbois. 

“Desolée, monsieur Werneck”, disse madame. “O senhor se atrasou e demos a mesa para alguém que apareceu.”

Gelei. Como assim?! Tenho reserva feita há duas semanas! Sim, me explicou ela, mas era para as 21 horas, e o senhor se atrasou. Como eu esperneasse, foi buscar o livro de reservas. Tinha razão: 21 horas, não 21h30. Nada a fazer. Apelei para a sentimentalidade, falei do acalentado gran finale, por pouco não fiz beicinho. “Desolée, monsieur Werneck...”, repetia madame Lalanne, visivelmente contristada. 

Devo ter feito a cara compungida de quem, tendo sonhado alto, já se conformava com a perspectiva de encarar mesa muito aquém de suas expectativas, provavelmente uma arapuca de comida congelada. E já virava as costas quando madame, subitamente animada, me reteve: “Monsieur Werneck, monsieur Werneck, o senhor pode me acompanhar?”.

Não restando mesa e até cadeira, perguntou-me se eu aceitaria me postar junto ao minúsculo balcão que separa a sala da cozinha. Imaginei que fosse me servir um drinque de consolação, mas houve muito mais que isso. Pode ter sido, na história da gastronomia parisiense, a primeira vez que alguém jantou em pé. Sem premeditação, estava inventado o gastronomic stand up.

 

Começou com uma generosa provisão de foie gras e uma taça de Jurançon - exatamente o que eu havia imaginado para deslanchar a grande noitada. E achava que àquilo se resumiria o prêmio de consolação, quando madame me trouxe uma segunda entrada (Oeuf Fermier Cocotte à la Crème), acompanhada de uma taça de vinho branco de Bergerac.

O sem-mesa que vos fala já se preparava para pedir a conta quando veio o prato principal, lebre (Compote de Lièvre façon Royale) a ser saboreada com uma terceira joia da enologia, o tinto Corbières Castelmaure. 

Tudo tão delicioso quanto surpreendente, mas também preocupante: a quantas andaria a conta de quem, à míngua de euros, não imaginara ir além de uma entrada, um prato e uma taça de Jurançon? 

Embora não creia n’Ele, entreguei para Deus.

 

Foi bom que o fizesse, pois, abatida a lebre, madame Lalanne trouxe uma Tarte au Chocolat, acompanhada de sorvete de café e uma taça de Maury Domaine des Schistes. Junto com o café propriamente dito, que, como tudo o mais, não precisei pedir, veio uma folha de papel - e não era “la douloureuse” (também em francês há quem chame a conta de “a dolorosa”): adivinhando uma vez mais meus pensamentos, madame Lalanne me presenteou com um registro por ela manuscrito de tudo o que fizera pousar sobre o diminuto balcão, com uma fartura de detalhes que aqui não caberiam.

Só me restava, finalmente, pedir a conta e encarar a facada, que por certo faria transbordar o borderô. Quando me ouviu dizer “l’addition, s’il vous plaît”, monsieur Lalanne, lá da cozinha, decretou, peremptório: “Pas de chaise, pas d’addition! - se não houve cadeira, conta não haverá. Foi com essa música nos ouvidos que saí, pisando em nuvens, para a derradeira noite em Paris.

Vou avisando: nem pense em planejar como golpe o que foi para mim o inesperado happy end de um desastre, pois até para a generosidade dos Lalanne deve haver limites. 

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