Stagium:Lições de perseverar

No mundo que só valoriza novidades, a veterana companhia perde espaço na mídia e entre as novas gerações

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2010 | 00h00

Márika Gidali. Ao lado de Décio Otero, um bravo percurso que vai chegando aos 40 anos, debaixo de um terrível silenciamento das mídias num país sem memória

 

 

Nas duas últimas semanas, o Ballet Stagium esteve em cena em dois teatros na cidade de São Paulo. Apresentou Coisas do Brasil (1979) no Teatro da Dança, e Tangamente (1996) no Memorial da América Latina. Agora, segue em turnê por Bragança Paulista e Catanduva. Mais do que nunca, é necessário reafirmar que foi a atuação do Stagium que dividiu a história da dança brasileira em antes e depois de 1971, ano em que Márika Gidali e Décio Otero fundaram a companhia que dirigem até hoje. Isso se torna ainda mais indispensável agora, quando o seu percurso vai chegando aos 40 anos ininterruptos debaixo de um silenciamento das mídias que impede que gerações mais novas conheçam a importância da dança que continuam a fazer. Em vez de um permanente interesse pelo grupo, fala-se muito menos no Stagium do que seria admissível em qualquer país que preza os que fazem diferença na sua história.

Felizmente, não são poucos os autores que nos ajudam a entender que estamos agidos pelo hiperconsumismo (Lipovetsky), que só nos importamos com o que estiver sendo considerado novo, que a juventude foi consagrada como o valor maior, a ponto de o corpo haver perdido o direito de mostrar seu envelhecimento (Ortega, Le Breton). O sociólogo polonês Zygmunt Bauman chama esses nossos tempos de líquidos, pois neles os valores sólidos não têm mais vez. E o percurso do Ballet Stagium é muito sólido.

Em um mundo pautado por uma hemorragia inestancável de novidades, torna-se difícil inserir uma companhia que lapida um mesmo modo de fazer dança há tanto tempo. Até 2009, o Stagium havia realizado 3.359 espetáculos, que foram vistos por 1.851.692 pessoas. São cifras respeitáveis, acompanhadas de outras tantas informações preciosas, disponíveis no site http://www.stagium.com.br/.

Décio Otero, seu coreógrafo, tem uma proposta clara, que foi desenvolvendo ao longo das 61 coreografias que já compôs e que foram dando forma para o balé moderno no Brasil. Elas se tornaram o mais potente foco disseminador desse tipo de dança em todo o País. Será improvável viajar pelo Brasil sem encontrar ecos da dança do Stagium espalhados em todos os cantos.

Com que olhos se olha uma produção que transita com todo o brilhantismo pelo balé moderno quando o interesse prioritário das mídias domestica o público em um equivocado entendimento de arte pautado pelo descartável? Possivelmente, com olhos de reconhecer o direito à diversidade como saudável para a cultura de um país.

Processo. E o que se viu, nas duas obras mostradas recentemente pela companhia, foi justamente a afirmação clara de um processo coreográfico que nunca estagnou dentro dos seus entendimentos, como os 17 anos que separam Coisas do Brasil de Tangamente explicitam. Se em Coisas do Brasil estava em curso o modo de fazer o balé ser entendido por quem não tinha oportunidade de encontrá-lo, em Tangamente fica clara a intenção de apresentar o tango fora do imaginário mais trivial que o acompanha.

Afinal, lá pelos idos de 1948, Décio Otero cantava tangos na Rádio Guararapes, em Belo Horizonte. Conhecia todo o repertório de Carlos Gardel e de Hugo del Carrillo dos discos do irmão, também um fã do tango. Quando transfere para a dança toda essa familiaridade, busca revelar o que os clichês escondem.

Chama a atenção a garra com que a companhia dança. Paula Perillo e Marcus Veniciu, que fizeram parte do elenco de 1996, e Márcia Freire, Eduardo Mascheti, Poty Ara Botzan, John Santos, Olívia Maciel, Marcos Palmeira, Camila Lacerda, Edilson Ferreira, Catherine Kodama e Rafael Carronse formam o que, de fato, se pode chamar de uma companhia. Seu engajamento qualifica o que mostram em cena. E na plateia de todos os espetáculos, Márika e Décio nos ensinando, com o seu exemplo, a perseverar naquilo em que se acredita.

 

 

 

COISAS DO BRASIL

O que está em curso é o modo de fazer o balé ser compreendido por quem não tem acesso

 

 

 

TANGAMENTE

Fica clara a intenção de apresentar o tango fora do imaginário mais trivial que o acompanha

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