Stagium renova energia com Adoniran

Semana passada, dia 23 de outubro, o Ballet Stagium completou 39 anos. Estava em cena, no Sesc Pinheiros, estreando uma nova criação, Adoniran, com a qual homenageia o centenário de nascimento do músico Adoniran Barbosa. Assinada por seu fundador e coreógrafo residente, Décio Otero, oferece-se como uma excelente oportunidade para uma reflexão a respeito da natureza do seu percurso coreográfico.

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2010 | 00h00

Otero filia-se à linhagem que trabalha a partir de um corpo treinado em balé, e o conduz para atuar em distintos contextos. Os assuntos mudam, e o corpo se adequa à sua variedade, agregando movimentos mais próximos dos temas escolhidos. Ou seja, Décio Otero produz dança no eixo do balé moderno, e o faz com um talento de fôlego respeitável.

Em Adoniran, sua ironia está afiada. A obra começa ao modo dos balés de repertório do século 19, a partir do mesmo tipo de teatralização que foi lá consagrado, na qual os gestos e não os passos propriamente de dança conduzem a narrativa, "explicando" o que se passa. Não falta nem mesmo a figura de um "regente" com ar de mistério, tipo um Drosselmeyer propositalmente mambembe (Drosselmeyer é o padrinho-mágico-bruxo de Clara, personagem de O Quebra-Nozes). Mas, ao invés do mundo da fantasia daquela obra, aqui estamos em um ambiente mundano, povoado por cadeiras empilhadas que, mais adiante será delimitado como um picadeiro de circo.

A estrutura escolhida foi a de construir cenas atadas pela trilha sonora, um roteiro musical assinado pelo próprio coreógrafo, que vai instalando o mundo de Adoniran Barbosa no palco. Tais cenas funcionam, ao mesmo tempo, como as atrações de um circo - e não somente por conta dos figurinos, que remetem diretamente a ele - e como referência aos divertissements do balé tradicional. Divertissements são cenas que funcionam como espaços de entretenimento, honrando o significado da sua denominação (a tradução do francês seria "divertimentos").

A companhia está com energia renovada, com um elenco engajado, que realiza muito bem a tarefa a que se propôs. Transita com competência nesse domínio que Otero funda quando articula os dois ambientes, um que vem da Europa via balé, e outro, que vem das suas escolhas locais. O que surge é um Brasil que anda ausente dos palcos. Um Brasil meio teatro de revista, naquela combinação de crítica temperada com poética naïve.

Embora poderosas e relevantes, as suas propostas não têm recebido o destaque que merecem, nesse mundo de monoculturas que insiste em pasteurizar a dança e que impede o florescimento da diversidade que é indispensável para o desenvolvimento de qualquer tipo de arte.

Mas, felizmente, o Stagium não esmorece. Nos lembra, com a coerência que o distingue, que em arte, como na vida, deve-se insistir naquilo em que se acredita.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.