Srur faz arte no rio Tietê e alerta para degradação da cidade

Talvez você nunca tenha ouvido falarem Eduardo Srur, mas se mora em São Paulo já deve ter sedeparado -- não sem surpresa -- com alguma de suas obrasinusitadas, instaladas em espaços públicos da cidade. O artista, que em 2004 colocou, sem autorização, uma âncorano barco do Monumento às Bandeiras, inaugura nesta quarta-feiraseu trabalho mais recente e impactante, formado por 20esculturas de garrafas de 10 metros, espalhadas em 1,5 km dasmargens do rio Tietê, da ponte do Limão à da Casa Verde. Outros projetos inéditos de Srur prometem chamar a atençãodos paulistanos, incluindo uma intervenção no Masp e ainstalação de salva-vidas em 15 monumentos públicos, como aestátua de Borba Gato, na zona sul da cidade. As esculturas infláveis do Tietê, que serão iluminadas pordentro das 18h às 21h até fim de maio, imitam as garrafas deplástico conhecidas como "pet" e que são facilmente detectadasno meio dos lixos e resíduos da superfície do rio. Srur (www.eduardosrur.com.br) passou 15 meses visitando asmargens do Tietê para realizar esta nova intervenção, umdesdobramento de sua obra no rio Pinheiros de 2006, quandolevou para as águas poluídas 100 caiaques e 150 manequins. "Resolvi dar continuidade a essa questão da poluição dosrios da nossa cidade, da falta de consciência da população",disse o artista à Reuters, ao lado de uma garrafa gigante. "A cidade nasceu e se desenvolveu em função do rio Tietê. Ea gente recompensou matando o rio", disse. "São espaços urbanosóbvios, só que ninguém vê." As obras foram feitas de PVC e trama de nylon e sãosustentadas cada uma por uma plataforma de 2.000 garrafas petde dois litros, que farão as esculturas boiarem no caso donível das águas do rio subir com as chuvas. As garrafas serão protegidas por uma equipe de segurança 24horas por dia, para impedir danos e furtos de material, como jáaconteceu durante os testes, quando levaram cabos elétricos. No final da mostra, as esculturas vão passar por umprocesso de higienização e serão transformadas em 2.000mochilas, a serem doadas. Já as garrafas pet voltarão àscooperativas. "Pets", nome do trabalho, faz parte de uma exposição doItaú Cultural, "Quase Líquido", que propõe um diálogo entre osdilemas do mundo atual e a consistência gelatinosa do rio.Outros artistas que participam são Zezão, famoso pelos grafitesnos esgotos da cidade, Tatiana Ferraz e Artur Lescher. BORBA GATO DE SALVA-VIDAS Foi pela pintura que Srur virou artista, nos anos 1990.Formado pela Faap, chamou a atenção pelas intervenções urbanas,as quais acredita serem mais democráticas. "Você faz uma ocupação no espaço cotidiano das pessoas,elas não precisam ir até o museu, elas recebem informação antesdisso", acredita Srur. Em 2004, fez um vídeo no qual aparece explodindo bolsas detinta em outdoores da cidade, em atos de vandalismo que foramsendo substituídos por ações artísticas mais lúdicas. "Acampamento dos Anjos", feito com barracas de campingiluminadas, talvez seja seu trabalho mais conhecido --percorreu três Estados (Santa Catarina, Paraná e São Paulo) etrês países (Cuba, França e Suíça). Em São Paulo, 35 barracasiluminaram a fachada do esqueleto de um prédio abandonado havia10 anos, na avenida Dr. Arnaldo. No segundo semestre, Srur fará "Sobrevivências", levandocoletes salva-vidas para personagens históricos nacionaisrepresentados em esculturas públicas. A estátua de 15 metros de Borba Gato, importantebandeirante do século 17, receberá um colete de cinco metros dealtura. Os monumentos a Duque de Caxias e do Ipiranga tambémestão na lista de Srur, que propõe um resgate do patrimôniohistórico e também um alerta ao aquecimento global. "As minhas obras são lúdicas, para atrair o olhar, mas elasestão sempre carregando uma ironia, para gerar uma reflexão oualguma questão para provocar o público", disse. Já o projeto para o Masp, que pretende cobrir o vão livredo prédio com 2.000 escoras de madeira, não tem previsão deacontecer, apesar de Srur afirmar que tem até autorização dopresidente Julio Neves. O problema é a falta patrocínio. "É como se o museu estivesse vindo a baixo e passando poruma reforma arquitetônica e conceitual", explica. "É um projetogrande, precisa da verba."

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