Spielberg, Ford e o mito fundador

Abraham Lincoln, o eterno retorno. Como um dos fundadores da nação americana, o presidente assassinado nunca sai de cena, mas volta e meia o mito recrudesce e os diretores se debruçam sobre ele na tentativa de decifrar a 'América'. Conspiração Americana, de Robert Redford, não fez muito sucesso nos EUA nem no Brasil, mas, na Europa, a crítica mais exigente se debruçou sobre o filme e tirou dele lições para se entender o aqui e agora.

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2012 | 03h08

Lincoln foi morto num teatro. Não apenas os livros de história, mas o próprio cinema, desde O Nascimento de Uma Nação, de David W. Griffith, de 1915, tem reconstituído o fato. O que o longa de Redford discute é se o crime foi obra de um atirador solitário ou resultado de uma conspiração - como o assassinato de John F. Kennedy, em 1963. O público que não se interessou muito pelas elucubrações políticas de Redford provavelmente vai se sentir mais tentado a conferir a fantasia de Timur Bekmambetov, que conta agora a história de um Lincoln presidente de dia e caçador de vampiros à noite. E logo virá o Abraham Lincoln de Steven Spielberg, com Daniel Day-Lewis

Spielberg fez, sem citar o 11 de Setembro, uma trilogia informal que encerra a mais lúcida discussão sobre a 'América' e seus valores, no pós-2001 - O Terminal, Guerra dos Mundos, Munique. Mas Spielberg já estava interessado no assunto antes do ataque às torres gêmeas, quando fez Amistad, ressuscitando o discurso de John Adams sobre os direitos políticos dos afro-descendentes. Spielberg tem se voltado com frequência para John Ford, o autor que forjou, na ficção, toda uma mitologia para mostrar a construção dos EUA como nação.

Depois do Vendaval inspira E.T., Rastros de Ódio é a base de Guerra dos Mundos e a Irlanda de Ford revive em Cavalo da Guerra. Lincoln foi um dos personagens emblemáticos de Ford. Em A Mocidade de Lincoln, o jovem Henry Fonda encarna o momento em que o lenhador, virando advogado, tem a visão do que deverá ser a nação. Em Crepúsculo de Uma Raça, o rosto do ex-presidente se superpõe, no vidro do retrato, ao do velho secretário de Estado que tenta salvar os índios. Lincoln nunca sairá de cena. Está no imaginário dos norte-americanos. Ainda tem o que dizer, como lição de cidadania.

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